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Literatura, Política, Bares, Arte, Futebol e outras besteiras e presunções.
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30.03.07

TERRA_PERMA_LINK 20:02:00, TERRA_CATEGORIES: Escatalógico. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Utilidade Pública

Citadinos (deste e de outros Estados, por ventura),

    Há um ser desprezível e vil que se julga o centro do universo e crê que salvará a humanidade. Porque alguém lhe dissesse, então é diferente, e estando tudo errado, é ele o certo. É uma pessoa que imagina merecer muito mais do que tem e sempre espera a cobrar do mundo desconcertado os benefícios que não logrou êxito. Inteligência sutil, maior, mais limpo, mais belo, mais alto, exemplo explícito do que melhor pode haver, assim crendo, quase se engana ou até: investe em arrancar elogios julgando merecê-los, retira-os aos mais ingênuos. Sobeja-lhe um certo lábio desenvolto e, então, o que deveria ser espontâneo e o não é, por não poder ser, assoma, e regozija-se, e pede mais agrados, assim por uns ou outros crédulos consegue-lhes a inverdade, quando não dinheiro.

     Mas é a precisão de que necessita este torpe homem: “és belo, és sábio, és incompreendido, és o melhor, te não dão o valor que mereces, quando te descobrirem..., és tão bom que és humilde...” Há o exagero em seu pensamento, que nem impingindo conseguiu arrancar. Mas, Ah! Basta-lhe! precisa de ouvir tudo isso! E ainda acha que enxerga, e crê que observa, e presume que encadeia, pensa que pensa, mais, mais e mais. Assume as farsas que criou: escreve, joga, estuda, compõe, cria, dedica, revela, ensina, demonstra, ajuda, perdoa, compreende, cobra, recobra, se indigna... e anda a fazer isso com tanta verdade que, pasmem, julga! Então, é pior, porque sai a julgar a tudo e a todos e se sente melhor ou se sente acima, no pedestal de mentira que ele mesmo erigiu. Não polpa ninguém, nem mesmo a si: quanta vileza, quanto asco me causa, pois se pode julgar a si próprio, passa à vista e sabe o que é e não toma em conta.

     Assusto-me ao pensar que sabendo quem seja de verdade, e o quanto de mal está a causar a tanta gente, não se importe qualquer pouco que fosse. Meus colegas de cidade, causa-me pena e torço pelo contrário, imaginar que um dia, por azar outorgado do destino, algum de vocês cruzou com tão torpe e vil e reles pessoa em suas vidas. Estejam atentos, denunciem, saiam correndo aos gritos. Não descartem, inclusive, o uso de pedras e paus.

p.s. - eu tinha vontade, mas só pude escrever isso a pedido de Zuckerman, claro.

(Na foto, Djinn de El Khaimah)

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28.03.07

TERRA_PERMA_LINK 12:38:59, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Os Aracnídeos

    Certa vez eles conversavam pela manhã, ela no banheiro do quarto, ele lendo o jornal na cama. Matutina trivialidade deliciosa dos sábados da sexta-feira regada a boa comida, bom uísque e noite de amor doce e extenuante. Ali pelas tantas, enquanto ele folheava o caderno de esportes e ela passava o ducentésimo creme facial lancome, no momento exato em que um caminhão gigantesco atravessava a rua detrás do apartamento no segundo andar, fazendo um barulho estrondoso, ela brincou, Tem uma coisa que você não sabe, Quê, Eu disse que duvido que você saiba o que os cravos são, Quê, Sabe o que são os cravos, esses cravos que a gente tem no rosto. Ele pensava na notícia do jornal, o seu time perdera pela ducentésima vez, Sei lá o que são os cravos, são poros entupidos de sujeira e que infeccionam, não. Ele respondeu aéreo e não tirou a face do jornal até ela aparecer fagueira na porta do banheiro e dizer, São aracnídeos, Não são aracnídeos, de onde você tirou isso. Então ela sorriu e voltou para o banheiro, em frente ao espelho, pegou a escova, a pasta de dentes e começou no movimento.

    Ela vestia uma camiseta branca comprida e estava de calcinha amarela. Os cabelos molhados, acabados de sair do banho tinham um frescor de sorriso de criança, e cheiravam a alguma coisa tão gostosa e reconfortante que ele não soube o que seria, mas sentiu textualmente ao toca-los, abandonando o jornal para abraça-la pelas costas e perder o rosto entre os seus cabelos, e o resto do corpo no corpo dela. Abraçando-a pela cintura ele disse, Não são aracnídeos, aracnídeos são aranhas e outros bichos, de onde você tirou isso, alguma vez viu um cravo no microscópio, as perninhas deles. Ela sorria, sofregamente ou tossindo um pouco, por conta do creme dental, e assim que enxaguou a boca, cantarolou sapeca, Eu vi sim, numa revista, tinha até foto, Viu mesmo, que revista foi essa, Ah, não sei, acho que da minha esteticista, não me lembro. Ela se virou para ele e o olhou nos olhos, sorria. Seus olhos sorriam, sua boca sorria, seu corpo sorria. Ele troçou, beijando com mordiscos leves os lábios dela, Você está brincando comigo, não é possível, eu nunca ouvi falar disso, tem certeza de que os cravos são aracnídeos, Claro que eu tenho certeza, eu vi, e ria. E ria.

    Tudo ficou tão claro e inefável que eles não se viram mais.  O maior sol do mundo das manhãs de sábado brilhou por entre os vidros do banheiro e dos interstícios dos azulejos pequenas borboletas minúsculas joaninhas abelhas sem qualquer ferrão inundaram o ambiente e resvalaram para os corpos dos dois fizeram cócegas pinicaram e os empurraram para o lençol ali perto.  Então o sol deu lugar a um escuro vibrante que deu lugar a um sol ainda mais forte que trocou com uma lua prateada que experimentou um cometa de gelo rutilante que voltou a ser sol enquanto mariposas mais pequenininhas que formiguinhas borboletas que nem lepdópt chegaram a terminar a palavra e joaninhas mentirosas de amarelo e azul assomaram novamente nos corpos deles e enquanto ali adejavam no roçar e roçar mudaram-se em besouros nada nédios aranhas muito ásperas lagartixas geladas e pegajosas para voltarem a ser o que eram e partirem para dentro das nesgas do banheiro no momento exato em que o gelo rutilante voltou a ser sol.

    Quando ele abriu finalmente os olhos, já os dela estavam parados e sorrindo moles e dorminhocos. Ele perguntou pela última vez a encerrar a conversa, Você não viu em lugar nenhum que os cravos são aracnídeos. Ela respirou fundo, deu-lhe um beijo pobrinho pobrinho, e concordou satisfeita, Tá bom, eu acho que inventei isso. Ele não disse nada. Fechou os olhos, trouxe-a ao peito e soube que também ele a ela tinha inventado.

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27.03.07

TERRA_PERMA_LINK 13:58:56, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

A questão da camisa 10

Dunga tirou de Ronaldinho Gaúcho a camisa 10, que ele vinha usando desde o final da Copa do Mundo de 2002 (nesta ele usou a 7). Em princípio isso é uma questão menor se se tiver em vista as mazelas técnicas e, sobretudo, táticas da seleção Brasileira, além de um problema sério de peças no que se chamava antigamente de comando de ataque. Mas, acho que vale especular um pouco em cima da atitude do técnico capitão do tetra em 1994.

Dunga foi escolhido pela CBF por, supostamente, atender a um espírito “guerreiro” (lá o que isso signifique), estilo sargentão, mais ou menos assemelhado com o Felipão, uma vez que se julgou que foi esse o problema do time eliminado pela França na última Copa, sob comendo do Carlos Alberto Parreira (argumento mais simplista, impossível). Em suas primeiras convocações, ensaiou uma renovação (que depois se mostraria bastante tímida) chamando jogadores que não haviam participado da última copa e nem tinham um grande histórico de partidas pelo escrete Canarinho. Nessas (válidas) experiências, acabou deixando alguns nomes consagrados do futebol mundial, como Ronaldinho e Kaká no banco de reservas, experimentando outros jovens talentos para posições (só a lamentar que não tenha querido também experimentar outro sistema tático diferente do que ele comandou, como jogador, em 1994). Até aí, não vejo grandes problemas, a despeito de achar que a atitude de Dunga com relação a esses dois jogadores citados, mas sobretudo com o Ronaldinho, que não atravessava boa fase foi, no mínimo, displicente com o rol de conquistas que eles possuem, já que o técnico insistia em entrevistas dizendo que “nome não condiciona titularidade”. Se o jogador não está bem na opinião do comandante, que vá à reserva, mas que não se esqueça do que já produziram.

Na última partida contra o Chile, Ronaldinho voltou a ser titular do meio-campo do Brasil. Causou estranheza que vestisse a camisa número 7, ao invés da 10 que envergava, como citado, a partir da Copa da Coréia e do Japão. Significaria isso um rebaixamento de um jogador que flagrantemente não teve boas atuações nas últimas partidas pelo Brasil? Seria isso uma gratificação ao jogador que neste jogo usou a camisa 10 (Kaká teve a honra)? Levanto algumas considerações.

Somente a quem não acompanhe futebol é dado desconhecer o significado do número 10 gravado às costas do jogador. O número virou sinônimo de craque, jogador decisivo, artista, mágico após ser eternizado por Pelé (que jogou no Santos com a 9 e com a 8 antes da Copa de 1958), e depois usado por Ademir da Guia, Zico, Maradona e outros geniais. A camisa 10 confere um status a quem a usa, e na maior parte das vezes, alguma espécie de ascendência sobre o grupo. Ronaldinho Gaúcho veste a 10 no Barcelona porque lá é considerado um mágico. Na literatura futebolística, o camisa 10 é aquele meia-atacante habilidoso (canhoto ou destro, mas com capacidade para finalizar com ambas), que dá passes geniais e ainda faz gols, gols espetaculares. Ronaldinho Gaúcho é realmente tudo isso (insisto, ainda que esteja a dever boa seqüência pela Seleção) e ninguém melhor do que ele (talvez Zidane antes de parar) incorpore o que representa o signo da 10, no futebol atual.  Aclamado assim em todo o mundo, por que na nossa seleção perde algo que já havia enfim conquistado?

O estilo Dunga de pseudo-comandante durão, que não liga para salários, estatus e feitos anteriores é um sinal do autoritarismo que a CBF, através de sua imutável comissão liderada pelo Ricardo Teixeira, tenta aplacar ao futebol brasileiro. Dunga que em campo sempre foi um contendor burocrático, um volante que destruía ao invés de criar, que gritava ao invés de apontar, parece querer usar a força institucional de técnico para diminuir um grande jogador que, além de não estar em sua melhor fase, foi moleque travesso, criativo e lúdico durante toda a vida (inclusive contra o próprio Dunga, no final da carreira deste, num GreNal em que o Gaúcho deixou o capitão do Tetra com canetas e chapéus no colete). Não creio que seja possível enxergar na atitude do Técnico da Seleção uma medida motivadora vez que o atleta em questão é experiente e rodado o suficiente para encontrar, ou perceber quais são os motivos de sua não-tão-espetacular-fase. Por isso me parece apenas uma demonstração de força mesmo, ao estilo, manda quem pode.

Dunga não deu motivos para a mudança, que obviamente incomodou Ronaldinho. Desconversou quando perguntado, dizendo que havia (e há, ó descobridor da roda) coisas mais importantes a serem discutidas. Kaká, que foi o novo modelo para a famosa camisa, já havia se pronunciado em respeito a isso, dizendo que não fazia questão da 10, ou, ao contrário, preferia usar a 8 de Gerson, e consagrar-se com ela (Kaká, provavelmente o melhor jogador da atualidade joga em seu clube, o Milan da Itália, com a camisa número 22). O que exclui a idéia de “premiação” a outro jogador. O que chateia na atitude de Dunga é a posição autoritária que diz ter razão o técnico, só porque é técnico, levando a pensar que modificações de outra ordem também não precisem, ou prescindam de discussão e justificativa.

Se, por fim, Dunga quer esquecer o passado de Ronaldinho Gaúcho ao tirar-lhe a camisa 10 por conta de sua atual condição, esperando assim que ele tenha que a conquistar novamente, seria bom lembrar ao técnico de que ele mesmo só está na Seleção pelo que foi como jogador, não tendo qualquer experiência profissional como treinador de futebol.

p.s. – escrevo o texto antes do jogo Brasil X Gana, sem saber, portanto, com que camisa Ronaldinho irá jogar.

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26.03.07

TERRA_PERMA_LINK 12:56:17, TERRA_CATEGORIES: Escatalógico. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Escatologia Bush

Abaixo o endereço para o texto "Quando Bush vier ao Brasil", do blog de Hanny. Eu já tinha em mente usar as duas acepções de escatológico nas crônicas, mas, não me surgira uma tão boa idéia de fazê-lo ao mesmo tempo. O texto no sítio é o de oito de março.

http://hannysaraiva.blogspot.com/

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20.03.07

TERRA_PERMA_LINK 23:55:12, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Minha consciência

O texto que vai abaixo foi escrito por mim a quando de meus vinte anos. Mas, até que gosto dele, ganhou uma vez um concursinho de "crônicas simples" num jornaleco  jurídico do nordeste.

 

( Na foto, Fonte Maria Lata d´Água, nas proximidades do Museu Paranaense, em Curitiba)

Minha consciência

Dias para trás estava conversando com minha consciência, conversando é expressão eufêmica para o diálogo, estávamos brigando mesmo, discutindo no mínimo. A certa altura ela me disse, Você merece se ferrar na vida, ao que tentei rematar, Se mereço me ferrar ou não pouco vale, diante do fato de que vou acabar me ferrando de que qualquer modo. Não lhe bastou, de maneira que ficou ainda muito me dizendo e apregoando o que eu deveria ser e não era, o que deveria fazer e não fazia, e o que feito, não deveria ter sido... blablablá. Enquanto a danada espezinhava, observando-a, cheguei a um modelo para defini-la que me parece bom. Eis que pensei ser minha consciência uma lata de água, dessas de cinco litros, que originalmente serviam às tintas, tal como as lavadeiras dos rios de antigamente carregavam à cabeça. “Lata d’água na cabeça, lá vai Maria...”, isso. Como toda lata de material ordinário, opaca, pouco espessa, a altura superando não em muito a largura e o comprimento, estes últimos, iguais. Com princípio de ferrugem nas bordas devido ao uso excessivo e desgastada pelo tempo que nos últimos tempos não tem parado. Parece-me ser a imagem citada romântica, na verdade não me lembro dessa lata d’água na cabeça de Maria, creio que nunca a vi em uso pleno, mas de outro modo me recorda, outro personagem em história diferente (mas não menos sofrida), o Pedro Pedreiro defronte a casa em que morava, nos tempos de eu menino (me redima Manuel Carneiro de Souza), levando a dita cheia de água que se juntaria à areia, às pedras e cal, virando o cimento nada poético que colava os tijolos.

Esmiuçada sua aparência e forma, ela funciona da seguinte maneira. A consciência fica lá guardada na cabeça e uma torneira intermitente pinga. Porque a lata é opaca, não sei o quanto de água possui, não a vejo encher, vai-se somando gota por gota, coisa daqui, coisa de lá, e não dou pela quantidade até o momento em que o líquido supostamente inodoro incolor insípido atinge a borda (com tais caracteres, que bom beber da consciência, não?), quando então o vejo. Mas não é o suficiente, é na próxima gota — muitos diriam a célebre “essa foi a última gota”, gente ardil que não sabe que depois de uma gota vem outra, quando não a enxurrada — que vai transbordar a lata, e aí vem a água, caindo e molhando e ensopando e fazendo trilha por onde vai escorrendo, vazou a consciência, seu limite, sua borda, agora não cabe mais líquido algum. Então ela incomoda, deixando tudo úmido, causando um frio suave e suficiente, quando até o barulho mínimo da água escorrendo perturba: agora são horas de tomar providências.

Assim como as Marias dos rios ou o Pedro pedreiro penseiro, suspendo ao alto a minha lata, claro que não à altura da cabeça, esforço desnecessário, supérflua retórica romântica, e carrego-a pelo caminho que mais rápido houver até o local apropriado para esvaziá-la e, de uma só feita, sem receios, sem escrúpulos, deixo escorrer. Fica vazia minha consciência e, agora sim, levo à cabeça, posiciono-a embaixo da torneira, e me parece tão maneirinha, que calculo algum buraquinho miúdo no fundo que faz com que demore tanto a encher novamente.

Escusado dizer que o diálogo do princípio é raro e se dá no breve caminho entre erguer a lata e levá-la ao local para esvaziar-me dos pecados.

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