

16:59:13, TERRA_CATEGORIES: Escatalógico. TERRA_POSTED_BY Juliano MachadoQuando a necessidade nos empurra a capinar é que a coisa já não vai bem, não sendo esse o nosso ofício de comum. Ou são férias. Mas, a coisa ainda não vai bem, porque além dos montes há a praia, quase sempre. O caso é que fui capinar a calçada da casa em que moro (há uma distinção tão fundamental entre "a casa em que moro" e "a minha casa" que este parêntese é tolo). Dizia que fui capinar a calçada da casa em que moro com o sol das onze ardendo na cabeça. Claro, escolhi o sol a pino para me dar o sofrimento cúmplice do que então imaginava ser pegar na picareta e na enxada. Calção velho, chinelos havaianas, sem camiseta, e o mais ridículo: o celular no bolso (junto ao controle do portão elétrico).
A calçada não é pequena para o meu gosto. A frente da casa terá qualquer coisa como 25x10m, e o calçamento não foi terminado, estando no cimento, com os recortes delimitados no que seria, imagino, a futura cobertura acabada. Ou então deixou-se assim para tornar num jardim rupestre, o que até não desagradaria, a despeito de ser absolutamente óbvio, pela quantidade de ervas daninhas que me esperavam, que de rupestre ali planta alguma poderia ser chamada. O muro tem hera em cima de si, o que se não faz diferença na faina de capinar, soma-se com peso grande na hora de limpar, já que as folhas verdes e as folhas secas caem num choro de criança desautorizada no doce: devagar e sempre, soluçando. Curioso como uma simples calçada inacabada pode servir de espelho do que vai ficando por terminar nas construções humanas (escusado dizer que não só as de alvenaria, há calçada para tanto gosto e paladar da terra até ao céu das nossas filosofias).
Os buracos que a chuva vai esculpindo no piso, junto à depressão do terreno e à força das raízes das ervas daninhas, que é bom que se diga há algumas parrudas, são muito cheios. Então eu meti a picareta com a ponta mais aguda no primeiro que vi pela frente e fui cavoucando pra ver o quanto saia. Terra, mato, mato, terra, caramujo, formigas, outros insetos que não identifiquei, uma sujeira que não sei bem o que seja, farelo de folhas secas, restos de penas etc. Pode até ser que o Manoel de Barro encontre beleza nessas coisas miúdas e outros ciscos, mas, pondo a mão na massa, não é tão edificante assim, ou desedificante, como queria o poeta.
A atividade não chega a variar muito de escarafunchar a terra com a picareta, arrancar o mato com as mãos, varrer para a sarjeta os detritos despojados do buraco. O que acontece, entretanto, é que bastantes buracos não passam de nesgas, frinchas onde a gente tem que meter a mão e uma chave de fenda (não sou profissional da coisa, se há equipamento apropriado, e imagino que haja, não sei qual é) na fendinha e ir puxando a porcariada. Que merda. Merda mesmo. As plantinhas menores normalmente estão assentadas na fissura com bosta de animal (suponho que cachorro e gato, mas a gente sabe que os muros e calçadas com muito verde são os preferidos para a evacuação de mendigos e bêbados). E essa bosta, em alguns casos quase petrificada, não deixa de feder e de ser desagradável ao tato. Curioso como meter a mão nos buracos das calçadas que ficaram por construir e achar nela merda não deixa de ter o seu paralelo num olhar paras as nesgas do nosso passado, e o que nele muitas vezes encontramos de sujidade.
Como não dá pra ficar lavando a mão de buraquinho em buraquinho, a sujeira que se vai acumulando nas mãos e no corpo (com a ajuda do suor que o sol do meio-dia, treze horas, quatorze horas) torna-se preta e uniforme, e depois de um tempo o nariz se acostumou ao fedorzinho. E se tem porventura coco debaixo das unhas, não se poderia identificar sem um exame químico, porquanto a gente prefira nesse caso ver barro escuro onde merda há. Planta e terra são trecos que coçam e se espalham, motivo pelo qual da cabeça aos pés há pó de detritos, além de uns pontinhos vermelhos e muito irritantes de alguma alergia que não se saberá ao certo.
Saldo da brincadeira: 1)uma calçada limpa de ervas daninhas; 2) uma sarjeta com montinhos de ervas daninhas, terra, areia, ciscos, insetos e merdinhas juntados geometricamente a cada metro, pois a preguiça se esgotou a quando de colocar no saco de lixo; 3) uma vassoura quebrada pela inépcia do condutor; 4) um cidadão que parou de ler "As transparências do mal" porque pensou que seria mais útil colhendo erva daninha, de dedos com bolhas, sujo até a cabeça de barro e caganitas, além de estar com o lombo torrado do sol e cansado como se muito houvesse trabalhado; 5) e o pior, é que como não tem paciência de ir, agora, cuidar da hera do muro, vai tomar banho e reler todos os textos da celeuma envolvendo o Renato Janine Ribeiro a ver se tem algo forjadamente criativo para escrever, num texto que postará em seu blog, afim de que o vejam inserido no debate intelectual do Brasil que não capina merda nenhuma.
p.s. - o "saldo da brincadeira" enumerou-se para que eu pudesse avacalhar-me em terceira pessoa sem exacerbado dramatismo. Tive êxito? 
(Na foto, índios capinando em foto de Morgado Viana e José Luis Santos)
14:00:43, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano MachadoDuas e cinco da manhã. Olho no relógio do celular para constatar que é madrugada quando ouço as batidas na porta do meu quarto e a voz da minha mãe, entre chorosa e sonolenta chamar meu nome. Sente dor, muita dor. No abdômen. Estou com sono, é raro que eu durma bem, mas estava dormindo, sonhando até, um sonho recorrente em que caminho procurando pela minha ex-namorada junto a moradores das nuvens que afinal não sabem onde ela está. Nefelibatas desinformados, penso. Compulsoriamente pergunto à minha mãe da dor: região, intensidade, forma. Ela diz que dói, que dói muito e é no abdomên, então me lembro que tenho 28 anos e ainda moro na casa dela. Decidimos, depois de dez minutos, que o melhor a fazer é nos encaminharmos ao Pronto Socorro do Hospital São Paulo, na esquina da rua Carvalho Filho com a avenida La Salle. Dirigir em Araraquara numa terça-feira de madrugada é tão simples e rápido que ao entrarmos na sala de recepção vejo no relógio frontal, em cima do balcão por detrás das bancadas de atendimento que são 2h21min. Mal entro e já estou pensando no bendito livro que carrego debaixo do braço e no que tem dentro da minha carteira.
A recepcionista devia estar com sono, porque nos deu bom-dia bocejando. Gorda, cabelos presos, umas roupas tão usuais que se poderia dizer que ela não tem personalidade, não fosse justamente a trivialidade delas a designarem lá uma sua personalidade. Não foi simpática, não foi rude, apenas atendeu, localizou o nosso plano de saúde, preencheu um formulário e chamou o esculápio de plantão. Esperamos quatro minutos para entrar na sala de consulta. Uma enfermeira mediu a pressão e o médico veio instantes depois. Perguntou da dor e recebeu as mesmas respostas que eu havia recebido, mas parece-me soube melhor que fazer com elas, pois indicou uma posição para minha mãe se sentar e, com dois ou três piparotes nas costas, mais duas ou três indagações sobre o estado genérico da paciente, deu a sentença, "Soro com um remedinho pra dor, verá que passa logo, pode ser que seja cálculo no rim. Amanhã procure seu médico".
O enfermeiro gay, encarregado agora de nos conduzir, fez uma brincadeira qualquer enquanto nos levava ao Box 11. Obviedade e clichê que me escusei de prestar atenção, exceto pelo fato de que ele parecia conhecer minha mãe do local onde ela trabalha, porque depois da afetação esperável do início, disse que aquela dor só poderia vir do trabalho no banco. Minha mãe sorriu, e em outra ocasiões daria azo a uma conversa interminável, mas sentia tanta dor que as conversas sobre o Santander ficariam para outra hora. O Pronto Socorro é muito limpo e organizado no geral. O plano de saúde tira a saúde todo o mês de boleto em riste, mas traz um conforto do qual já não se pode prescindir. A salinha onde nos instalaram para o soro é franca, aconchegante até. Tem duas macas razoavelmente confortáveis, cobertas por uma roupa de cama verde-claro muito alva. As janelas estão cerradas, mas parecem novas, e a iluminação tem gradações para não afetar deveras a paciência ocular dos enfermos. Como é um retângulo, no canto esquerdo ao lado da porta de entrada, existe uma pia de pedra sabão e torneira de metal prateado, de bom gosto. O chão é branco e circundado, na extremidade normal com a parede, de um revestimento de azul agradável. Mamãe deitou-se na maca do lado direito e tomou na veia o soro, enquanto eu fiquei sentado numa cadeira aos seus pés.
Não levou nada e ela já estava sonolenta, com apenas um resquício da dor até então insuportável, de modo que pude pegar o livro que estivera debaixo do meu sovaco todo o tempo e me concentrar nele. Sem muito pudor, já que a luz havia se apagado e o local não estava cheio, peguei a carteira, saquei o papelote, ajeitei três fileiras da cocaína em cima da capa razoavelmente dura de "O Castelo", de Franz Kafka (numa edição da Companhia das Letras) e rápido, ligeiro, esperto, mandei pra dentro do nariz o pó. Dos 30 gramas que eu tinha uma boa metade foi-se embora num prazerão de contar vantagem. Pasei o indicador pela capa do tomo grosso, massageei a gengiva com o resto do pozinho e então vi que o doutor que nos atendera estava do outro lado do corredor, mas não tive certeza de se podia me ver, ou havia visto a centa. "Cacete", pensei, "Esse médico tem cara de louco, só me falta vir aqui querer filar um teco". Mas aí a parada fez efeito, e acabei tendo a certeza de que se não percebera na altura, agora o doutor notaria, pois vinha chegando perto e perguntando do estado da minha mãe, coisa que no caso me pareceu desnecessária:
-- Como está sua mãe, melhorou a dor?
-- Melhorou sim, está dormindo -- me sentia dando claras demosntrações da cheirada, a expressão "dormindo" soou exagerada, não fosse ele ir lá falar com ela.
-- Que bom, deixa ela aí quieta um tempo -- tive a impressão de que ele me olhou diferente, tive a impressão de que olhou duas vezes para o livro, e por via das dúvidas fui para fora do Pronto Atendimento ver a noite que brilhava, sem motivo aparente, com zes rutilantes aparecidas de lugar algum.
continua