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07.03.07

TERRA_PERMA_LINK 11:12:14, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Auto crítica da banalização

Num texto publicado no dia 28 de fevereiro neste blog, na categoria "Coluna" (João Hélio; BBB 7 e oportunismo), comentei sobre o depoimento dos pais do menino João Hélio na novela "Páginas da Vida".  Renanto Janine Ribeiro escreveu para o caderno Mais! (Folha de S. Paulo, domingo, 4 de fevereiro de 2007) respondendo às diversas críticas ao seu texto, também no Mais! (dois domingos anteriores), em que tratava dos seus sentimentos e sua visão acerca do assassínio do menino carioca. Pretendo dar meu pitaco nessa celeuma enorme, mas por hora quero comentar um ponto que o Janine cita em seu texto e que chamou a minha atençao para o meu próprio. Renato Janine Ribeiro diz a certa altura no dia 04 de fevereiro:

"Foi tocante, na novela ´Páginas da Vida´, familiares de assassinados falarem. Porque não dizer -- ou escutar -- o horror corrompe a todos. Acentua o teor de hipocrisia na vida social. Esteriliza ainda mais a vida pública. (....)"

Acho difícil não concordar com essa argumentação, ainda que para o caso ele esteja, além do alcance genérico, especificando um porquê da exposição ao que ele chamou de seus sentimentos. O caso é que isto me fez ver alguns problemas no meu texto.

Usei a palavra "delicioso" no início de "João Hélio; BBB 7 e oportunismo". Embora a idéia fosse compartilhar uma inquieatação à qual eu não tinha por hora resposta, algumas palavras podem ser de um extremo mau gosto em determinada situação: o assassinato cruel de um garoto de seis anos não é momento para destilar ironias baratas. Na mesma linha, quando comento o que os pais do menino disseram no depoimento ao final da novela ( "O depoimento afinal não foi senão os mesmos comovidos pedidos de justiça para a infame violência urbana, mas o que chama a atenção é o duvidoso oportunismo da Globo ao exibi-lo numa "terça-feira de 'paredão' muito popular do ´Big Brother Brasil 7´") é um péssimo exemplo de como, na busca de um estilo, se pode ser insensível e perder-se o foco do que realmente importa na discussão. Ainda não estou certo de se os meios utilizados para "dizer -- ou escutar -- o horror" não podem, ao invés de servirem para não "esterilizar a vida pública", simplesmente banalizar ainda mais eventos que, pelo nosso cotidiano, já andam bastante banalizados. A despeito disso, entretanto, não se justifica que meu texto pretensamente contrário à banalização da violência desdenhe dela por um efeito retórico.

Por fim, no argumento final, eu digo que a cobertura jornalística da Rede Globo e dos demais meios televisos acompanhou o geral dos comentários: nada acresceu na discussão prática da questão. Ora pois, cara pálida, faça o que eu digo mas não faça o que eu faço: usando um duvidoso oportunismo de emissora de tv só serviu o meu texto para, além de não acrescentar nada de prático, tirar ainda mais o foco da discussão.

Renato Janine começa dizendo no Mais! do último domingo que ficou incomodado com o fato de seu texto ter causado mais comentário do que o assassinato brutal. Digo o mesmo: esta coluna agora de auto-crítica serve mais uma vez, como num círculo vicioso, a que se fale mais de outras coisas do que o caso em si.

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TERRA_PERMA_LINK 00:13:52, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Jean Baudrillard

Comecei há alguns dias ler "As transparências do mal", de Jean Baudrillard. Estou gostando do livro, me parece uma abordagem original da filosofia no que tange o homem contemporâneo. Mais ainda não sei falar, nunca li nada dele, nem sequer umas indicações de uns poucos textos na minha época de faculdade.

Como nunca o havia lido, nunca o havia citado em textos. Como faz pouco que passei a lê-lo, motivo ainda não tinha para escrever sobre ele. Aconteceu que hoje aconteceu de eu deixar de ler o livro do homem para me meter numa faina que afinal acabou dando num texto que está na sessão "Escatológico". Pois é, pela primeira vez na minha vida citei um livro de Jean Baudrillard, num poste que foi ao ar ali pelas 17h.

Jean Baudrillard morreu hoje, em Paris. Li essa notícia no sítio do uol (que raramente entro, fui lá procurar o resultado da partida entre Liverpool e Barcelona, que o Terra, portal que eu mais uso, não informava), uma notinha publicada às 16h11min. Uma coincidência boba, mas que me tocou (embora a notinha tenha sido publicada antes de eu terminar o texto, só a li depois de ter postado o "Capinar").

Quando o Drummond morreu, em 17 de agosto de 1987, eu estava para completar nove anos. Eu conhecia "Quadrilha" e já tinha de alguma forma me afeiçoado infantilmente ao magrelo poeta. Não senti sua morte com força, mas percebi que alguém especial havia partido. Anos depois, não muitos, me deparei com um poeta maior, e senti enfim sua morte.

João Cabral de Melo Neto morreu a 09 de outubro de 1999. Eu estava viajando para o sul do país nessa data. Quando cheguei em casa, na segunda-feira, 11 de outubro, vi o jornal de sábado, a Folha Ilustrada em cima do piano com os dizeres "Morre João Cabral". Na praia, com amigos, alienado do mundo, não ficara sabendo do falecimento do poeta. Senti uma ausência funda, eu a conversar com os parentes e ali no fundo, em cima de um piano calado a notícia de um grande poeta que agora se calara também.

A morte. Surda como no poema de Larkin. Vou terminar de ler o livro do Baudrillard, quererei provavelmente ler outros, mas agora ele está calado. No meu capinar de hoje, desenterrando insetos e sujidades, não precisei de nenhum Yorik para me entregar o crânio, e nenhum Hamlet para dizer que se não sabemos nada daquilo que aqui deixamos o que nos importa deixa-lo antes. Alguns nos deixam antes, parece que é a vida.

Estou que no fim, o meu casinho nem tão curioso de citação póstuma sem o saber ficou de homenagem involuntária a um pensador. Sincera homenagem.

p.s. - o texto começou ser escrito quinze minutos antes da meia noite, portanto, dia 06. Ficará com a data do término, meia-noite e pouquinho do dia sete.

(Na foto, Jean Baudrillard, falecido em 06 de fevereiro, em Paris)

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