Bazófia

Literatura, Política, Bares, Arte, Futebol e outras besteiras e presunções.
TERRA_CREATE4FREE
Calendário
TERRA_ARCHIVES
TERRA_LINKS
TERRA_SYNDICATE
TERRA_HOM_TERRABLOG

12.03.07

TERRA_PERMA_LINK 20:56:36, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Madrugada no P.S. II

Fiquei em frente ao prédio um bom tempo, me exercitando na guia da calçada de mãos enfiadas no bolso. Ia nessa viagem quando as sirenes de uma ambulância estouraram numa das esquinas de baixo da Carvalho Filho e em alguns segundos dobravam a La Salle para entrar no Pronto Socorro. Correria. Gente vindo, gente indo. Fiquei de parte, e só então notei que o furgão que aparecera era na verdade do resgate, corpo de bombeiros, ou algo do gênero, e não uma ambulância. Os para-médicos tiraram duas pessoas de dentro do veículo e foram todos para o prédio. O silêncio voltou e durou menos que uma fagulha porque na esquina já brilhava o giroscópio barulhento de outra ambulância, dessa vez, ambulância mesmo. Agora somente uma mulher e um enfermeiro desceram, com bastante mais calma, embora de onde eu estivesse pudesse reparar que a moça tinha as roupas muito rotas de sangue. Festinei para o estacionamento na avenida, precisava ser rápido, tinha toda cara de ter sido acidente de trânsito e não demoraria nada a polícia deveria aportar no local. Usei novamente a capa do livro, dessa vez apoiada no capô do pálio verde de minha mãe e mandei mais dois tiros, que encerravam minha participação naquela noite. A zes apareceu de novo, rutilante como antes, e no estardalhaço pensei ter ouvido a voz do médico. Ah, ah. Não foi a voz do médico, foi um gato preto que passou debaixo do carro, voando. Fiquei ali de bobeira uns bons minutos, até chegarem dois carros de polícia, todos muito calmos. Então voltei ao box 11 a ver como estava a minha mãe.

A luz estava acesa e mamãe dormia. Ao seu lado, na outra maca do quarto, uma mulher estava deitada, de olhos arregalados, com um sorriso nervoso metido nos lábios. Era linda, não teria mais que vinte e pouquíssimos anos, loira, olhos verdes, e um corte profundo começando ao lado da sombrancelha direita e descendo diagonalmente até cruzar o diâmetro do nariz. O médico que fazia a sutura foi o que cuidara de minha mãe. O enfermeiro gay auxiliava o doutor de cabelos grisalhos, compridos e lisos a la Antônio Fagundes, e as vezes perguntava à jovem se sentia alguma coisa, ao que a moça respondia sorridente, “depois da anestesia local, não”. Acabou-se o curativo e todos saíram da sala. Permaneci sentado na cadeira aos pés da maca de mamãe, o que me deixava, se inclinasse o corpo um tanto, numa posição muito confortável, embora não exatamente próxima, para observar e conversar com a moça linda. Não perdi tempo, perguntei de enfiada:
— Como é que você está, afinal o que houve?
— Bateram no meu carro. Dois homens, nem sei direito o que aconteceu, perdi o sentido na hora.
— E você, se sente como? Se não quiser conversar, claro... E seus pais?
— Não, tudo bem, estou legal, só não sei se vou ficar igual ao Frankenstein com a cicatriz da testa, foi fundo?
— Acho que foi fundo sim, mas nem com dez iguais você conseguiria ficar feia.
— Está me cantando dentro do hospital, logo depois do meu acidente?
— Estou, e além disso com a minha mãe deitada na maca ao seu lado...

Ela olhou a esquerda para ver a senhora na maca e nós dois rimos por alguns segundos. Sorrindo, ela ficava ainda mais linda, misturando graça e um pouco de desconforto em razão da trombada. Parece loucura, mas o sangue no cabelo dela emprestava um ar selvagem, que se dissolvia nos traços muito delicados do rosto. Ou então, eu estava mesmo muito chapado.

continua

TERRA_COMMENTS (14)
TERRA_PERMA_LINK 15:25:48, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Consideraçãozinha sobre o adeus

É dolorido o adeus. O Fernando Pessoa contava num ótimo poema escrito por Álvaro de Campos: “ (...)És importante para ti porque só tu és importante para ti. / E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?(...)” Imagino que seja por isso que há variações de intensidade em dizer adeus e ouvir adeus. Pois, do mesmo poema, se nos encaramos a frio e a frio o que somos, sempre se pode escolher o sofrimento, ou melhor, o viés dele que esperamos sentir melhor, ou sentir pior, axiologia desnecessária. Então eu acho que agora é mais difícil ouvir o adeus, do que o seria ter dito.

Sobeja que alguém poderia especular que ao menos quando se escuta o adeus, pode-se intervir, gritar, bater as palmas, segurar com força, rojar-se aos pés. Com o que eu concordo, mas lembro: sempre há coisas a serem ditas, como também há a serem caladas. Afinal, são escolhas. Jogada pouco eficiente, a despeito de desesperada, é antecipar o adeus acreditando no rojar do outro.

Vou sair da sua vida, adeus. Vou comprar o jornal, adeus. Vou levar meu uísque, adeus. Vou para Paris, adeus. Dividido por dois (é sempre dividido por dois) formaram-se pares e os ouvidos tinham de estar bastante atentos para saber quem o disse primeiro. Se não estavam, cabe agora escolher o que é mais difícil. Ou olvidar. Adeus.

(Na foto, uma canoa afunda lentamente, sem apelos)

TERRA_COMMENTS (12)
TERRA_PERMA_LINK 14:53:45, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Bazófia

Reproduzo a seguir uma crônica publicada no jornal "O Imparcial" de Araraquara há cerca de dois anos. Resolvi coloca-la aqui pelo número de pessoas que me perguntaram (preguiçosos) o significado da palavra bazófia. Bom. é preciso dizer que por ter mais de dois anos, algumas coisas mudaram. Outras não. A principal delas, na minha opinião, foi que o editor do caderno de cultura do jornal voltou a ter juízo.

Bazófia

"Vivemos para dizer quem somos"

José Saramago, em entrevista a Juan Arias para o livro "José Saramago: o amor possível".

Li alhures que pessoas que se metiam a escrever, no princípio (e depois se não lhes chega talento ou bom-senso), enfiam garganta abaixo do leitor tudo quanto é tipo de citação e referência aos livros e autores com os quais já travou contato. A argumentação era algo na linha de que poderia faltar ao escrevente confiança e capacidade para aventurar-se num texto sem o devido alicerce de uma recorrência aos clássicos, afinal de contas, se literatura é recontar, tanto melhor se se reconta o que já é consagrado. Nada mais preciso. E se não cito o autor da constatação de acima, é simplesmente porque minha memória me deixou na mão. A verdade é que lemos uns quantos livros, conhecemos uns quantos autores, apenas um cisco numa miríade de nomes, títulos e línguas, e já andamos a achar que podemos escrever uma crônica, ter uma coluna, produzindo nela duas ou três idéias mais ou menos originais e imiscuindo uma torrente de citações dos nossos autores prediletos. Quando não plágios descarados travestidos aqui e ali de palavrinhas diferentes.

É o caso desta Bazófia. Após dois meses saindo toda terça-feira, imaginei que fossem horas de me apresentar, de dizer, Olá, cá sou eu quem está atrás das bobagens que os senhores vão por aí lendo. Menos explicações, mais citação. Como bem diz Nelson Archer, o colunista tem de abandonar o pudor, a vontade de esconder o eu, uma vez que a crônica é um exercício de escrita em que importa ao redator a imaginação de sua “audiência”, já que o público que vai se delineando na mente do cronista, por conta até de uma periodicidade que muitas vezes proporcionará a ambos que andem a tratar de assuntos inconclusos, “de processos em andamento”, é um público que se deixará conhecer.

A pessoalidade da coluna não tem que ver, em princípio, ou necessariamente com os caracteres vulgares do cronista, que tipo de comida gosta, qual a sua cor, altura, como se veste, se prefere futebol ou natação. A aproximação, que aí inverte o exercício de imaginação para o leitor, será feita a partir da montagem das várias leituras que se fará ao longo da existência da coluna (claro que isso se aplica aos bons cronistas que têm a competência de manter leitores amiúdes, e é bom que se diga, este em questão não se presume). Assim até mesmo então se poderá inferir para que time torce o dito cujo e a cor de gravata predileta do patriota. É por isso que aqui não vim dizer, Sou Juliano Machado, estudante do quinto ano de direito e de algum qualquer de letras, desempregado, vinte e seis anos, apreciador das cervejas mais encorpadas e de bom uísque.

A liberdade de se escrever num caderno de cultura possibilita também que os assuntos tratados sejam tantos quantos o cronista se julgue capaz de comentar. A proposta desta coluna, que ademais não tem qualquer espécie de proposta, era falar de literatura, e tudo quanto de alguma forma se relacionasse com ela. Sabendo o que enfim é o ego, e aproveitando conscientemente um espaço que não é simples nem corriqueiro de se obter, sempre que posso (e enquanto puder) venho metendo cá pequenas prosas, exíguos continhos, brincadeiras literárias cuja aventura decorre do prazer das leituras, dos quantos — e ainda bem poucos — livros citados acima. Afinal de contas, é pelo interesse em comunicar, e sempre em busca do leitor, que se escreve. Ou seja, escreve-se para poder ser lido. Aquilo de diários escondidos em recônditos perdidos, poesias em gavetas de chaves esquecidas, romances em armários com teias de aranhas será muito romântico, quando forem descobertos. Eu quero ser lido, e em conseqüência criticado, e em conseqüência evoluir, ou então descobrir quem enfim ainda posso servir para alguma outra coisa, se isso não der certo. Afinal de contas a Bazófia já no signo leva a presunção.


Aliás, o que mais teria valido a pena ter dito para explicar e quem sabe justificar a coluna é que diabos enfim significa a palavra bazófia. Diz-nos o Dicionário Houaiss da língua portuguesa:

bazófia s.f. 1 vaidade exacerbada e infundada; vanglória, presunção 2 m. q. fanfarrice 3 CULI ensopado feito com sobras de comida. ETIM it bazzofia ´ministrone, conjunto confuso de elementos díspares´ [etc].

Será então bem assim esta coluna: presunção de alguém que pensa que pode escrever qualquer coisa sobre algumas coisas, com uma vaidade, ainda que não exageradamente exacerbada, bastante infundada, e além disso um texto que bem poderia ter o nome de fanfarrão, e que no final das contas é uma mistura absolutamente confusa de restos de comida que sobejam de uma viagem sem qualquer método pelo delicioso mundo da literatura, viagem de escaler que há nem dois quartos de hora deixou um porto pequenino, num rio que ainda tem de navegar muita água antes de ir ter com o mar.


Muito prazer, Juliano. E até terça-feira que vem, não nos venha a cair o mundo em cima da cabeça, ou simplesmente o editor do caderno, aliás a quem agradeço o espaço, volte a ter juízo.



TERRA_COMMENTS (2)