Bazófia

Literatura, Política, Bares, Arte, Futebol e outras besteiras e presunções.
TERRA_CREATE4FREE
Calendário
TERRA_ARCHIVES
TERRA_LINKS
TERRA_SYNDICATE
TERRA_HOM_TERRABLOG

27.03.07

TERRA_PERMA_LINK 13:58:56, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

A questão da camisa 10

Dunga tirou de Ronaldinho Gaúcho a camisa 10, que ele vinha usando desde o final da Copa do Mundo de 2002 (nesta ele usou a 7). Em princípio isso é uma questão menor se se tiver em vista as mazelas técnicas e, sobretudo, táticas da seleção Brasileira, além de um problema sério de peças no que se chamava antigamente de comando de ataque. Mas, acho que vale especular um pouco em cima da atitude do técnico capitão do tetra em 1994.

Dunga foi escolhido pela CBF por, supostamente, atender a um espírito “guerreiro” (lá o que isso signifique), estilo sargentão, mais ou menos assemelhado com o Felipão, uma vez que se julgou que foi esse o problema do time eliminado pela França na última Copa, sob comendo do Carlos Alberto Parreira (argumento mais simplista, impossível). Em suas primeiras convocações, ensaiou uma renovação (que depois se mostraria bastante tímida) chamando jogadores que não haviam participado da última copa e nem tinham um grande histórico de partidas pelo escrete Canarinho. Nessas (válidas) experiências, acabou deixando alguns nomes consagrados do futebol mundial, como Ronaldinho e Kaká no banco de reservas, experimentando outros jovens talentos para posições (só a lamentar que não tenha querido também experimentar outro sistema tático diferente do que ele comandou, como jogador, em 1994). Até aí, não vejo grandes problemas, a despeito de achar que a atitude de Dunga com relação a esses dois jogadores citados, mas sobretudo com o Ronaldinho, que não atravessava boa fase foi, no mínimo, displicente com o rol de conquistas que eles possuem, já que o técnico insistia em entrevistas dizendo que “nome não condiciona titularidade”. Se o jogador não está bem na opinião do comandante, que vá à reserva, mas que não se esqueça do que já produziram.

Na última partida contra o Chile, Ronaldinho voltou a ser titular do meio-campo do Brasil. Causou estranheza que vestisse a camisa número 7, ao invés da 10 que envergava, como citado, a partir da Copa da Coréia e do Japão. Significaria isso um rebaixamento de um jogador que flagrantemente não teve boas atuações nas últimas partidas pelo Brasil? Seria isso uma gratificação ao jogador que neste jogo usou a camisa 10 (Kaká teve a honra)? Levanto algumas considerações.

Somente a quem não acompanhe futebol é dado desconhecer o significado do número 10 gravado às costas do jogador. O número virou sinônimo de craque, jogador decisivo, artista, mágico após ser eternizado por Pelé (que jogou no Santos com a 9 e com a 8 antes da Copa de 1958), e depois usado por Ademir da Guia, Zico, Maradona e outros geniais. A camisa 10 confere um status a quem a usa, e na maior parte das vezes, alguma espécie de ascendência sobre o grupo. Ronaldinho Gaúcho veste a 10 no Barcelona porque lá é considerado um mágico. Na literatura futebolística, o camisa 10 é aquele meia-atacante habilidoso (canhoto ou destro, mas com capacidade para finalizar com ambas), que dá passes geniais e ainda faz gols, gols espetaculares. Ronaldinho Gaúcho é realmente tudo isso (insisto, ainda que esteja a dever boa seqüência pela Seleção) e ninguém melhor do que ele (talvez Zidane antes de parar) incorpore o que representa o signo da 10, no futebol atual.  Aclamado assim em todo o mundo, por que na nossa seleção perde algo que já havia enfim conquistado?

O estilo Dunga de pseudo-comandante durão, que não liga para salários, estatus e feitos anteriores é um sinal do autoritarismo que a CBF, através de sua imutável comissão liderada pelo Ricardo Teixeira, tenta aplacar ao futebol brasileiro. Dunga que em campo sempre foi um contendor burocrático, um volante que destruía ao invés de criar, que gritava ao invés de apontar, parece querer usar a força institucional de técnico para diminuir um grande jogador que, além de não estar em sua melhor fase, foi moleque travesso, criativo e lúdico durante toda a vida (inclusive contra o próprio Dunga, no final da carreira deste, num GreNal em que o Gaúcho deixou o capitão do Tetra com canetas e chapéus no colete). Não creio que seja possível enxergar na atitude do Técnico da Seleção uma medida motivadora vez que o atleta em questão é experiente e rodado o suficiente para encontrar, ou perceber quais são os motivos de sua não-tão-espetacular-fase. Por isso me parece apenas uma demonstração de força mesmo, ao estilo, manda quem pode.

Dunga não deu motivos para a mudança, que obviamente incomodou Ronaldinho. Desconversou quando perguntado, dizendo que havia (e há, ó descobridor da roda) coisas mais importantes a serem discutidas. Kaká, que foi o novo modelo para a famosa camisa, já havia se pronunciado em respeito a isso, dizendo que não fazia questão da 10, ou, ao contrário, preferia usar a 8 de Gerson, e consagrar-se com ela (Kaká, provavelmente o melhor jogador da atualidade joga em seu clube, o Milan da Itália, com a camisa número 22). O que exclui a idéia de “premiação” a outro jogador. O que chateia na atitude de Dunga é a posição autoritária que diz ter razão o técnico, só porque é técnico, levando a pensar que modificações de outra ordem também não precisem, ou prescindam de discussão e justificativa.

Se, por fim, Dunga quer esquecer o passado de Ronaldinho Gaúcho ao tirar-lhe a camisa 10 por conta de sua atual condição, esperando assim que ele tenha que a conquistar novamente, seria bom lembrar ao técnico de que ele mesmo só está na Seleção pelo que foi como jogador, não tendo qualquer experiência profissional como treinador de futebol.

p.s. – escrevo o texto antes do jogo Brasil X Gana, sem saber, portanto, com que camisa Ronaldinho irá jogar.

TERRA_COMMENTS (5)