

13:35:01, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano MachadoMetáfora da despedida através da escada
“Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim”
Chico Buarque in “João e Maria”
Fora sozinho e somente quando as luzes se acenderam ao final da récita foi que a vi, já no limiar do primeiro degrau, oscilando a fronte, passando as mãos no cabelo, satisfeita e lenta. Antes de principiar a subida virou-se uma vez para trás observando a turba e então me viu. Cortou o encontro visual com um aceno vertical de cabeça e precipitou-se na escadaria enorme. Fui ganhando espaço entre a multidão, Com licença, com licença e quando consegui chegar ao primeiro degrau, ela devia estar mais ou menos no décimo, distância que se não era desprezível, não encerrava minha esperança. Falei-lhe, ainda assim pouco aumentando a intensidade da voz, Ei, espere um instante, poderíamos conversar, ela não se virou, não deixou de subir, mas respondeu, Sim, pode dizer, mesmo próximo, vacilei, Gostou do espetáculo, ela não respondeu, continuou, continuei, balbuciei, Achei incrível, há tempos não assistia a um assim. Silêncio. Passadas mais rápidas. Eu me tornara lento enquanto falava, percebi, com atraso, que não havia tempo para subterfúgios e insisti, Podemos conversar, espera um pouco, não se virou, apertou ainda o ritmo do movimento, e respondeu já com a voz se diluindo, Estou com pressa, preciso pegar o carro. A resposta era banal, todos precisávamos pegar o carro. Talvez fosse a hora de desistir, a distância havia crescido e aumentava, já que ela era lépida e jovem, e eu cansado e velho, não a poderia acompanhar. Não fiz caso, já quase a gritar, disse, Faz tanto tempo que não a vejo, e se conversássemos um pouco, numa reação que não compreendi bem, ela levantou o braço esquerdo e o abaixou em fração de segundo e depois disse, torcendo o rosto paralelo ao ombro direito, na intenção clara de que a voz lhe saísse mais forte, mais contundente, Eu realmente preciso ir.
A escadaria era imensa, não a poderia vencer de um fôlego só na velocidade em que eu estava, mas cri que houvesse um último sopro, bem poderia ser de fato o último, e continuei no encalço, que de encalço fora só uma figura, pois ela se afastava de mim, muito mais solta, como que adejando os degraus luzidios do mármore. Afrouxei a gravata, estava quase vencido, gritei para cima ainda contendo um desespero misturado num cansaço arfante, Espera, por favor, me deixa falar alguma coisa. Então ela parou. Lentamente mexeu nos cabelos, e olhando em princípio para o chão e depois, ainda calma, mirando em mim os lindos olhos verdes, disse, absolutamente ciente de que mesmo demorando-se alguns segundos ali, eu não a poderia alcançar, Olha, eu realmente preciso ir embora, não acho que tenha nada mais a ser dito, adeus. Enquanto ela falava, também estivera parado, ganhando fôlego inconscientemente, mas não podia precisar as palavras que se haviam reduzido ao adeus de uns olhos brilhantes, de uma testa que se franziu para cima num lamento evidente de consternação, quem sabe se compaixão, porque eu não queria e não poderia suportar que fosse pena.
Tornou a ficar lépida, chacoalhou a minúscula bolsa negra pela alça e o vestido longo, liso, sóbrio, também negro atrasou-se em relação ao movimento das pernas, precipitou-se exagerado para o lado da rotação do corpo marcando ainda mais a silhueta esguia e insinuante, deixando ver por conta disso um pouco mais das pernas claras e imaculadas. O cabelo loiro, não houvesse sido cortado ao ombro, teria feito o mesmo movimento, e embora eu pudesse adivinhar de soslaio todas as danças do vestido, foram elas como que substituições das danças do cabelo que, este sim, por minha culpa, não estava mais ali. Festinando chegou ao cimo da escada, e tive a impressão de que uma vez mais olhou para baixo, mas posso ter me enganado, a luz em cima era frouxa, a distância já muito maior do que a minha competência em enxerga-la, e então desapareceu no escuro. Continuei subindo, agora sem qualquer visão, apenas buscando a boca do lobo que iria me tragar, o coruto da escada por onde poderia me lançar ao fim.
Chovia — sempre chove — e o pátio estava vazio de pessoas, repleto de coisas, nenhum traste. Cheguei em tempo de ver um carro saindo, o carro que eu conhecia, as luzes fugidias se afastando como uma lanterna na popa, e eu o mar sulcado, o rastro de barco que se perde na água que deixa de se ouvir. Não havia um precipício, então me sentei no último degrau — ou seria o primeiro. Por isto pensei em Bacon, depois tentei confortar o espírito lembrando felicitar-me, ridiculamente, de ainda vê-la assistindo a uma récita, tentei crer que o mundo não girasse em torno a mim, débil, ainda tentei acreditar que talvez tivesse mesmo pressa, mas o poema de Bandeira me assaltou, o verso fatídico, Adeus! amor, tu fazes bem, a mocidade quer a mocidade. Era inútil me enganar. Levantei-me, fui andar ao largo, passos muito quietos para sorver a bátega que aumentara. Eu estava ali, aquela cidade não era a minha, e sozinho pensava em voltar, mas já não havia para onde voltar. Menino ingênuo chapinhei numa poça d´água como fosse um pedido ritual, desejando que ela voltasse. Ela não voltou. Eu ainda esperei por o tempo em que as primeiras pessoas assomaram ao pátio, e parti para lugar algum, sem olvidar o tamanho da escada que ainda precisaria descer.
12:05:06, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado Acordou uma hora depois com o olhar perdido, lembrava-se com alguma inconstância do sonho em que se misturavam a cara lisa e negra do jogador, parecendo ébano, e também a face do senador, de madeira por certo, ainda que de menor valor, e uns acarajés lançados como fossem bolas de basquete ao cesto. Levantou-se e foi ao banheiro lavar o rosto, ato que serviu duplamente, uma vez para acordar e serenar as idéias confusas, outra vez para perceber que ainda era quem era, Lisandro, e o não queria mais ser. Mas um terceiro efeito surgiu derradeiro, disposto a encerrar deveras as dúvidas e confusões acerca de quem ele deveria se transformar. Olhando com seus olhos mesmos sua face, e pensando com seu cérebro os seus pensamentos, verificou de si para consigo que não importava em quem viesse a transmudar-se, o que de fato contaria era não ser mais Lisandro, uma vez que se o intento lograsse êxito total, não deveria lembrar-se de que um dia fora quem hoje o é. Assomou-lhe então pelo corpo o sentimento de euforia, daqueles que nos impelem imediatamente a tomar atitudes, a formular proposta de ação, motivo pelo qual saiu depressa em direção ao quartinho onde guardava umas ferramentas e outras tralhas a procurar algo que pudesse auxilia-lo em sua empresa de transfiguração, “Um aparelho elétrico me servirá bem, sempre ouvi dizer que a eletricidade, assim como o calor, demovem as coisas de seus estados naturais, se pudesse me esquentar, ou quem sabe me eletrizar...”, juntou lá uma furadeira, uma chave-de-fenda elétrica, umas lixas de madeira, além de um dínamo que não sabia exatamente de onde viera nem para que serviria, e meio atrapalhado levou tudo à mesa grande da sala de jantar. Antes de começar a analisar as peças, ainda foi à cozinha buscar o liquidificador e um recipiente onde caberia cerca de um litro de água, pousando estes últimos objetos junto aos demais.
Nunca possuiu este Lisandro lá grandes capacidades inventivas ou construtivas, e se agora estava lepidamente montando e desmontando umas peças, mexendo com certa desenvoltura numas máquinas, não era senão por força do desejo que desde a amanhã o assaltara e fazia com que não quisesse mais ser Lisandro, “Para mudar de ser não deve ser complicado, se eu pudesse ligar esse liquidificador na furadeira elétrica...”. Usando fitas adesivas, garfos e palitos de comida chinesa, montou Lisandro uma engenhoca. A furadeira ficava presa ao utensílio que faz sucos e adjacências na parte lateral, próxima à abertura maior do copo do aparelho, de maneira que ambos ligados em consonância não produziam absolutamente nenhum efeito. Então não era por aí. Até porque não sabia também muito de medicinas e furar-se a si próprio nas têmporas talvez não fosse idéia das melhores, ir ficar logo no primeiro instante o novo ser com um buraco na cabeça. Sentou-se e decidiu que precisava pensar mais um pouco, “Que eu quero? Trocar de ser implica em trocar de aparência também? Creio que não, o que desejo não é deixar de ter a face que tenho, mas sim olhar com estes olhos para um filme e ver outra coisa, tocar um cabelo e perceber coisas que hoje não percebo, se mais ou menos em relação ao que hoje sinto, não importa, mas diferente”. Por essa linha de pensamento chegou à conclusão que nenhuma empreitada que lograsse atentar contra o seu corpo deveria surtir efeito. Furar-se, escalpelar-se, trocar perna por braço, ou inverter a posição dos olhos, metendo o da esquerda na órbita da direita, enfim, isso tudo não daria resultado.
Quem irá dizer que nunca desejou, nem que fosse por uns instantes, não ser mais quem é, tornar-se o milionário, o jogador famoso, o ator que sai com todas as belas moças, as belas moças, ou mesmo uma borboleta, os mais sensíveis, experimentar o mel, provar da doçura da flor, quem ao menos dirá que um dia numa situação complicada não desejou ser, se não outro, ao menos invisível, isso para não mencionar que nos tempos de menino a delícia era imaginar-se mosquinha a adejar pelo sono noturno e despido da prima que fora dormir em casa, ou da amiga da irmã mais velha que se refrescava em pêlo no quarto de hóspedes. Concedamos a Lisandro que não queira mais ser ele, oras, não quer, é um ponto, um direito, deixemos que tente a transmutação. Estava agora convicto de que o caminho deveria ser o da eletricidade ou o da térmica. Meteu-se então, no arroubo da vontade, a descascar os fios do liquidificador para tentar alguma espécie de choque elétrico e, ao mesmo tempo, pôs-se a encher a jarra de água levando-a ao forno de microondas para o aquecimento. Para relaxar, preparou mais uma dose do revigorante uísque e deixou-o ao lado do aparelho de telefone sem fio, que também estava em cima da mesa de cirurgia da sala de jantar, numa das extremidades. Quando o microondas apitou o fim dos dez minutos suficientes para que o recipiente com mais ou menos um litro de água borbulhasse, Lisandro enfiou na tomada o fio do liquidificador segurando-o pelas pontas, próximo, mas ainda não tocando a parte desencapada. A boa intenção, se é que podemos dar nome a isto de boa, era derramar a jarra d’água na cabeça no mesmo instante em que tocasse nas pontas dos fios, para que acontecesse sabe-se lá o que, além do choque e da queimadura no coro cabeludo e na face. Preparou-se, respirou fundo, “Vamos Lisandro, conte, três, dois, um” Trim-trim-trim, trim-trim-trim, “Diabos de telefone, que hora para tocar!...”. Como ainda era Lisandro, só para ele poderia ser a chamada, e num impulso natural que se tem quando é quem se é, correu para a extremidade da mesa onde estava o telefone. Na pressa, escorregou num punhado de água que havia escorrido da jarra e, atabalhoadamente, tentou segurar-se na borda da mesa. Felizmente para si, puxou a toalha que, com o brusco movimento, jogou para cima o telefone e também o copo de uísque que nem sequer havia sido provado. Os três caíram, como é de costume das coisas que vivem na gravidade, sendo Lisandro o primeiro a estatelar-se no chão, seguido imediatamente pelo gelo que lhe tocou a testa antes, para somente depois o líquido gelado e o copo chocarem-se também. O copo fez um rasgo na fronte, onde logo após veio a colidir o telefone que, sabe-se lá como, com a pancada, ligou. Ligeiramente manchado de sangue, o aparelho escorregou para ao pé do ouvido de Lisandro que, desmaiado, não pôde ouvir os insistentes apelos de uma mulher do outro lado da linha que havia discado o número por engano, “Alô, alô, tem alguém?”
Quando o homem acordou, cerca de dois milésimos de segundos depois do acidente, ou talvez coisa de uns cinco dias, percebeu que estava com uma leve dor de cabeça, nada de muito grave, além de uma certa desorientação ao olhar o espaço em sua volta. Calmamente, recobrando forças, levantou-se às apalpadelas pela sala desconhecida — que parecia ser de jantar. Apesar da dorida cabeça e da pouca percepção do ambiente em redor, estava calmo, sem medo, nem angústia, apenas com um sentimento comichão no peito e na mente, um sentimento crescente, que embora novo, era antigo. Externou então a si próprio quando percebeu poder e saber articular palavras, dizendo suavemente no cômodo silente: “Que diabos, homem, bem que podias ser outro, mais orientado e sem essa dorzinha de cabeça! Vamos, mexa-se, antes precisas saber quem és para que possas mudar o que és”.
13:05:40, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano MachadoOutro
“Conhece-te a ti mesmo”
Sócrates
Quando acabou de passar pela porta giratória, detectora de celulares e molho-de-chaves, deu de cara consigo mesmo refletido na enorme janela de vidro na parte interna do banco. Nesse momento exato deixou de querer ser ele. De tal forma surgiu o sentimento, forte, coerente, que volveu para trás esquecido completamente do que viera fazer. Saiu pela rua com tranqüilidade e convicção, sabendo que não queria mais ser ele. Se poderá inferir, em princípio, que gostaria de trocar a aparência física, mudar o cabelo, a cor, puxar daqui, esticar dali, coisas que um bom cirurgião resolveria. Mas não era isso, desejava deixar de ser quem ele era por inteiro, de corpo e, vulgarmente falando, de alma. Tinha de ser outra pessoa, fundamentalmente, outro ser. Lembrou-se de Gregor e lhe pareceu até satisfatória a figura de um enorme inseto, justo, natural, com tanto que não fosse mais ele. Estava pelos trinta e tantos anos e possuía um espírito pragmático, metódico até, vivia sozinho, tinha amigos, uma vida social, uma amante, cuidava de sua pequena empresa de distribuir bebidas e se dava muito bem no negócio. O que não tinha era mais vontade de ser quem era, muito embora não existisse nenhum motivo especial para desgostar de sua pessoa, ou sequer de sua vida. Aliás, na verdade, não desgostava de si, não tinha sensações de angústia para consigo mesmo, apenas queria trocar de ser para ir enxergar com outros olhos e com outra alma o mundo.
Assim que entrou no carro, deixado o banco e os afazeres para trás, principiou formular como levaria a cabo seu intento e, como dito, prático por natureza, pôs-se a deduzir como agiria e de que maneira começaria a transmudar-se em outra pessoa, agora que definitivamente não iria mais ser ele. De punho do aparelho de ondevocêestá ligou para o escritório de sua firma e disse ao empregado que não voltaria mais para trabalhar, ao que aquele respondeu tudo bem, sem problema, dava-se conta do que haveria para se fazer. Pobre do moço, não entendeu que seu patrão lhe estava a dizer é que jamais tornaria ao trabalho, ao menos ele, ele mesmo. Desligado o telefone celular, avisado o escritório, precisava agir com rapidez. Tinha uma sensação gostosa pelo corpo — esse corpo que não queria mais — e também um sentimento ligeiro na cabeça — essa cabeça que não queria mais — uma euforia pelo empreendimento realmente vultuoso em que se estava metendo. Dirigiu rapidamente até seu prédio, e não foi sem um pouco de ironia que respondeu baixinho ao porteiro que o chamara pelo nome dando as boas tardes seu Lisandro, “Por enquanto, só por enquanto, verás daqui para um pouco”, e entrou na garagem e em instantes estava no apartamento.
Visto assim parecerá desvario de repente abandonar-se negócios e compromissos para querer tornar-se outro, mesmo que querer tornar-se outro seja tão nobre empresa, supondo se queira tornar numa pessoa melhor do que se é. Mas vejam este aqui, plácido, decidido, sem arrancar cabelos ou deitar fora as roupas, quem o poderá chamar louco. Quer transfigurar-se noutro e não faz juízo de valores, não quer ser melhor do que é, pior, menos, aliás, está agora mesmo se questionando o que quererá ser, já tomada a decisão de não mais ser o que agora é. O escopo não perde a nobreza, há de se concordar e muita gente por aí diz ser grande demonstração de idoneidade e coragem admitir desejos de não gostar de quem se é, de tentar mudar, de alterar posições e atitudes, nos ditos do povo, “Hoje eu sou um novo homem, nasci de novo, a partir de agora sou outro”, mas nesses casos, mormente se se repara na entonação das frases, há implícito o conceito de revigoramento, de um melhor estado em relação ao anterior. Lisandro não pensa assim, senão, deixemos ele falar: “O que serei, o que me tornarei, quem?”, entretido nessa importante decisão, preparou um copo, este sim revigorante de uísque e foi bebe-lo descaindo-se no sofá. Desde que tomara a decisão era o primeiro momento em que não se via atribulado, agitado para dar fim à sua intenção, pois agora tinha de decidir em quem se tornaria ao deixar de ser ele.
Permitiu ao pensamento oscilar por entre rostos, nomes, biografias, multidões e parou no Dalai Lama. “Interessante figura, grande homem, visões transcendentais, paradigma de um país e de uma nação, sem cabelos, aquelas roupas umas por cima das outras, sempre as mesmas, deve ser quente, e eu gosto de me mexer bastante, quem sabe Gandhi, esse sim, paz, tudo pela paz, só a paz, indiano pode comer carne de vaca, eu adoro churrasco”, o Dalai e o Gandhi ficaram para trás exortados num belo suspiro resplandecente enquanto se desfaziam em brumas de pensamento. “Elvis Presley seria bastante complicado mudar-me nele”, embora um sorriso tenha assomado em sua face ao pensar nas quantas pessoas não estariam a se deliciar vendo o rei novamente, “Eu não disse, sempre disseram, Elvis não morreu!”, Kant, Guimarães Rosa, Galileu, seu Zé do bar da esquina, Osama bin Laden, ver a vida pela ótica de um terrorista era no mínimo inusitado, tantas eram as possibilidades, tantas as pessoas em que se poderia mudar, e foi assim, pensando e repensando adormeceu no sofá com a imagem de um ser sem rosto onde teria de passar a viver. Sonhou. Estava na pele do Michael Jordan jogando as bolas de basquete à cesta e fazendo mais de mil pontos numa única partida, se não foi num único arremesso, e quando saía da quadra já não era mais o alto jogador americano ascético, mas sim o Antônio Carlos Magalhães. Tinha uma barriga enorme, uma soberba enorme e estava envolto numa roda interminável de correligionários, baianas e acarajés enquanto ia distribuindo mandos e desmandos.
continua
14:13:00, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado Ele fez o mesmo movimento para tirar o excesso de água da face, franziu a testa e esticou os lábios. Apesar de estar a meio metro de mim, por conta agora da iluminação prejudicada por uma árvore e a água que era muita, não pude perceber se ele havia sorrido ironicamente ou se apenas tinha contorcido a expressão numa atitude normal de quem tem a cara molhada, então insisti com pesar:
— Esquece tudo isso, vamos para casa! Mas ele respondeu-me com gravidade:
— Quero esquecer tudo, a dor de ser homem, este anseio infinito e vão de possuir o que me possuí, adeus...
A frase era bonita, de efeito, algum tempo depois descobri de que poeta era, mas o que me chamou mais atenção não foi seu sentido, sua poesia, mas sim o término, um adeus convicto que precedeu uma atitude adolescente mas imperativa, que foi apressar o passo, quase a correr e seguir pela esquina em direção à marginal. Não soube o que fazer então. Segui-lo de carro, pela marginal seria impossível, não poderia continuar andando na velocidade em que estava. Correr atrás dele a pé era um despautério para o qual não estava inclinado. Deixa-lo ir, simplesmente, eu também não podia, depois de tudo quanto havíamos passado. Ora, diante de três possibilidades e não dispondo de tempo para pensar em outras, fiz o que menos queria fazer.
Dei ré com o automóvel e o estacionei há alguns metros da esquina, praguejando, desci do carro e corri em direção a ele. A chuva estava muito fria, os pingos eram grossos, a impressão que eu tinha de que ela estava amainando se desfez assim que senti seu primeiro contato. Passei pelo quarteirão que ligava a alameda à marginal, o trânsito era pesado, e não conseguia encontra-lo. Novamente uma dualidade de sentimentos em mim, “se não o encontro, tanto melhor, vou embora pra casa tomar um banho quente, mas, se não o encontro, o que poderá acontecer”, pensei isto e segui adiante, caminhando do lado direito, olhando para todos os lados à procura dele. Finalmente o vi, estava encostado numa placa de trânsito, a cabeça sob o antebraço, corri até ele, era difícil falar no meio da tempestade:
— Por favor, isto já foi longe demais, vamos embora!
— Sabe como eu me sinto? Como se eu fosse feito de plástico e os meus movimentos estivessem endurecendo...
— Está muito frio, você está estressado.
— É como se eu estivesse me desfazendo, esboroando, se como o que ainda resta de mim, estivesse se partindo...
— Você está deprimido, teve um dia difícil, vamos para casa!
Eu disse isso e o puxei pelo braço, queria demonstrar compreensão, mas ao mesmo tempo pretendia ser enérgico, fazê-lo perceber que a situação havia chegado ao limite, mas ele não me ouvia, estava aplacado, e não me olhou em nenhum momento, antes, parecia que era um palra que ninguém atinava, ainda assim eu insisti:
— Vamos embora? Ele me respondeu com angústia:
— Eu me sinto falso, não posso mais, não sei mais quem sou...
— Amanhã, meu amigo, amanhã as coisas vão melhorar, vamos embora.
Não adiantava, ele se desvencilhou de mim e caminhou a passos acelerados, embora estivesse muito oprimido, falava sem atropelo, com amargura e tristeza. Eu corri e o segurei pelos braços novamente, decidira agora o levar à força, e disse:
— Vamos embora, já chega.
— Já chega... não é verdade que ela fique mais linda triste, sorrindo, ela é incrível..
Não pude responder, porque ele se soltou com violência de mim e correu para a marginal, atravessando-a de uma vez. Do outro lado, ladeando o parapeito foi caminhando e olhando para o rio. Eu gritava para que voltasse, e não conseguia como ele, com a mesma destreza, atravessar a marginal muito movimentada. Ele voltou-se para mim, acenou com o braço e saltou a proteção de metal. Gritei alguma coisa que não me lembro e corri para o meio da avenida sem atinar no que fazia, atravessando-a como ele o fizera um pouco antes. Cheguei do outro lado e já não podia mais vê-lo, o rio estava revolto, muito escuro como sempre, imundo das sujidades da urbe. Saquei o celular do bolso, completamente molhado, para pedir socorro, gritei para o alto uma raiva e continuei a acompanhar o caminho do rio, uma enxurrada parda e inexorável. Sentei-me no chão, esfreguei o rosto com as mãos, olhei para o relógio, faltavam alguns minutos para a meia-noite quando a chuva passou a cair ainda mais forte.
14:09:13, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado Eu estava extenuado, não tinha mais forças para discutir, além disso, apesar de todas as palavras dele em meu proveito, me irritei bastante com o que considerava ser uma ingratidão não ouvir meus conselhos de ir embora para casa. Demorei um instante com a cabeça baixa, esfreguei com os dedos os olhos e falei olhando para ele, com bastante calma, mas a voz carregada, para que ele percebesse a extensão do meu cansaço:
— Você tem trinta anos, não o posso impedir de fazer o que quiser fazer, mas é uma atitude infantil sair à noite no meio da chuva. Achei que este artifício pretensamente humilhante de chamá-lo infantil o pudesse dissuadir da caminhada noturna, mas ele deu de ombros, e sorriu com carinho:
— Eu sei, meu amigo, eu sei... E tocou, condescendente, meu ombro esquerdo mais uma vez.
Apesar de ter sido sincero ao dizer que não o impediria de sair para a chuva, não pude deixar de ir atrás dele. Não tinha uma noção exata de qual era o meu medo naquele momento, e nem sei se o que me fez pegar o carro e segui-lo de perto tivesse que ver propriamente com um receio, mas estava, entre outras coisas, curioso a ver no que ia dar tudo aquilo. Despedimo-nos mais uma vez, com um aperto de mão à saída do bar, não trocamos palavras, ele saiu caminhando lentamente pela calçada, ainda se protegia da chuva por causa de alguns toldos dos estabelecimentos contíguos. Eu fui na direção oposta buscar meu carro, que afinal não estava tão longe quanto eu houvera dito, simplesmente com a intenção de retê-lo no bar. Deixei ele se afastar um pouco, não queria que me visse, embora sabendo não haver nenhum sério problema se acontecesse. Fui guiando lentamente, cerca de uns trinta ou quarenta metros, a iluminação pública não era ruim, mas a mistura dela com a água e os vários letreiros dos comércios deixava a atmosfera densa, esfumaçada, as cores se matizavam, se confundiam, e a água fazia as formas se movimentarem. A rua, a despeito de ser uma alameda paralela à marginal era movimentada, mas por ser também larga, permitia que eu pudesse conduzir o carro do lado direito, devagar, ouvindo de quando em quando umas buzinas. Ele caminhava agora mais célere, olhava para o seu lado esquerdo, de vez em quando olhava para o céu, mas imagino que os pingos o agrediam, pois durava pouco este menear de cabeça, conquanto fosse repetido sempre. À distância em que eu me encontrava não podia ver seu rosto, até porque estava atrás dele, mas tão pouco podia perceber algum movimento distinto que aludisse a alguma intenção, fosse ela qual fosse. Era uma pessoa caminhando rápido pela chuva, mas, nitidamente sem a pressa de chegar num ponto em que evitasse se molhar. Numa esquina, parou. Como não houvesse nenhum carro, entendi que ele tinha me visto, e simultaneamente ao meu entendimento, virou-se e acenou com o braço. Levei o carro até junto dele, abaixei o vidro, já que ele tencionava me dizer alguma coisa. A chuva estava amainando, mas ainda era forte, ele tirou o excesso de água do rosto com a manga da camisa, mas ela estava tão encharcada que a ação resultou inútil, e me disse:
— Meu bom amigo, até quando pretende me seguir?
— Não sei, não sei mesmo. Se você tivesse algum juízo, ou alguma consideração por mim, entraria neste carro e me impediria de andar por aí a dez por hora com essa chuva!
— Eu não vou entrar, quero mesmo caminhar, não se importune comigo, já fez tudo que podia fazer, parece estar cansado, vá para casa.
— Estou cansado, estamos cansados, vamos para casa tomar um banho e dormir, tente esquecer tudo isto um pouco.
continua