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04.04.07

TERRA_PERMA_LINK 12:37:03, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Azar de Salazar

    É bastante natural que cause desconforto a vitória de Antônio Oliveira Salazar (1889-1970) em recente pesquisa realizada pela TV pública portuguesa, a RTP para eleger “Os Grandes Portugueses”. Na primeira fase da enquete, Salazar ficou entre os dez primeiros, sendo depois eleito com 41% dos votos, estes últimos efetuados por chamadas telefônicas pagas. O Ditador teve por volta de 65 mil votos. Em segundo lugar, com 19% ficou o estalinista e dirigente do P.C. português Álvaro Cunhal, e já na terceira colocação o embaixador Aristides Sousa Mendes. Parêntese: Sousa Mendes estando em Bordeaux a quando do estouro da Segunda Guerra, distribuiu vistos e mais vistos (imagina-se que mais 30 mil em alguns dias) em branco, assinados e carimbados, salvando milhares de judeus, como bem lembrou Elio Gáspari em oportuna coluna na Folha de S. Paulo. Considera-se que tenha sido a maior operação de resgate feita por uma pessoa durante o Holocausto. 

   A eleição de Salazar causou compreensível burburinho nos meios intelectuais e afins, dando azo até a algumas manifestações de descrédito na democracia liberal em Portugal, anúncio de falência do estado de direito e início de nova era salazarista. Aqui no Brasil, teve mesmo bom jornalista dizendo que agora estávamos legitimados, pelos próprios patrícios a contar piadas de portugueses. Portugal tem pouco mais de dez milhões de habitantes e numa viciada pesquisa que não amealhou mais que 160 mil telefonemas, seria tolice imaginar uma marcha inexorável ao neo-salazarismo.

   A Europa vem há algum tempo dando demonstrações contundentes de que precisa repensar suas estruturas e suas ideologias. Há mesmo significativas manifestações de cunho fascista por todo o continente, e é importante e premente uma discussão que vise a afugentar os fantasmas de um passado bastante recente. Mas, como disse João Pereira Coutinho — aliás, em sua habitual lucidez e exagerada ironia — Portugal tem bem mais de 65 mil salazaristas e seria infantilidade ou histeria considerar tão catastrófica a eleição telefônica ao estilo Big Brother de Salazar. Uma pesquisa por telefone feita pela TV deve ser colocada na devida proporção que merece.

(Na foto, o ditador português Salazar)

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