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09.04.07

TERRA_PERMA_LINK 20:38:55, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Enciclopédia Municipal do Esquecimento I

    Amigos leitores do blogue, seguirá nós próximos diaS um conto que escrevi há cerca de dois anos.  Uma experiência gostosa e diferente para mim, porque foi o primeiro texto em que deixei lessem antes de ter terminado, assim o escrevendo depois do retorno de quem leu (no caso a minha leitora fiel e amiga e irmã Tatiana).

    Serão nove ou dez capítulos, de acordo com a formatação do word, e pretendo colocar um a cada dois dias, dependendo da audiência (brincadeira boba).

Obrigado,

Juliano.  Segue o conto:

 

ENCICLOPÉDIA MUNICIPAL DO ESQUECIMENTO

A Julio Andochama


"Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos(...)"

Fernando Pessoa in "Tabacaria" de Poesias de Álvaro de Campos", 1928.



"Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo
mais vasto é o meu coração(...)"

Carlos Drummond de Andrade in "Poema de sete faces" de "Alguma Poesia", 1930.



“Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens”

Livro das Evidências. José Saramago in “Todos os nomes”.1997



"Her green plastic watering can for her fake chinese rubber plant
In the fake plastic earth
That she bought from a rubber man in a town full rubber plans
To get rid of itself
(It) wears her out
She lives whit a broken man
A cracked polystyrene man who just crumbles and burns...
...If I could be who you wanted
All the time"

Radiohead in "Fake Plastic Trees" de "The Bends", 1998.



“Não tenho assinado meu nome no fim dos emeios porque não sei mais quem sou”

Juliano Machado in “Retalhos do dia-a-dia”, sem data

Prólogo

    Os fatos que pretendo narrar aconteceram numa segunda-feira, na metade do mês de julho, um mês de julho muito frio, quase sempre chuvoso, extremamente taciturno. Na altura não soube entender o que aconteceu, e talvez o não entenda até hoje, passados que são alguns anos, e por isso resolvi contar esta história, ao meu jeito, evidentemente sujeito aos vícios e distorções que minha visão — muito próxima do sucedido — pode mostrar ou ocultar no relato. Minha memória se deteriorou depois do acontecido, não em relação a tudo, mas há alguns detalhes da época. Por certo a memória se embaciará ainda mais com o passar do tempo, portanto talvez seja hora de contá-la, afim de que pareça verossímil.

    É evidente que admitindo isto, arrisco justamente pôr em descrédito a veracidade dos episódios e das impressões, mas é imprescindível que fique claro o caráter real dos acontecimentos, apesar de existirem — como aliás é natural — lacunas de memória. É preciso considerar ainda que outras pessoas foram testemunhas do que ocorreu naquela segunda-feira, embora não creio estejam elas aptas a contar em pormenores tudo quanto houve, porquanto não estivessem o tempo todo próximas como eu estive do homem que é a personagem principal destes relatos. Sobretudo, a memória não me traiu na percepção e lembrança daquilo que julgo ser a passagem decisiva, factualmente decisiva para o desfecho dos acontecimentos, e repito, neste momento crucial, somente eu estava perto e presente, ainda que não o suficiente para modifica-lo.

    De qualquer forma, isto poderia muito bem passar como uma simples história, ficção resolvida a ser escrita para flertar com a técnica, brincar com o ofício da prosa. O que não me preocupa em absoluto. Inclusive dei título e separei em partes, para que fique mais fácil a quem quiser esquecer-se de que isto tudo aconteceu numa segunda-feira de alguns anos atrás, e tente simplesmente lê-lo como um exercício mais ou menos restrito, apenas na terceira esfera administrativa, conto de página amarela em gaveta de madeira sem tranca, verbete de alguma enciclopédia inventada para passar o tempo.

continua

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