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10.04.07

TERRA_PERMA_LINK 12:43:29, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Enciclopédia Municipal do Esquecimento II

O olvido do nome

    Ele repetia com tanta veemência que não se chamava Julio que era difícil não acreditar.  Mesmo eu, amigo de muitos anos, titubeava ante a face crispada que bramia:
        — Os documentos estão errados, ao diabo com eles, não me chamo Julio — virava-se para os lados, não propriamente agressivo, não propriamente irritado, mas com uma contundência de quem tinha certeza do que dizia, e dizia — Eu sei quem sou, sei o que faço, onde trabalho, o nome da minha namorada, o número da minha conta no banco, tudo está condizente com a realidade, mas, não me chamo Julio, não mesmo. 

    Aconteceu numa segunda-feira.  Chegávamos então para o trabalho quando o cumprimentei perguntando do futebol de final de semana:
         — Fala senhor Julio, será que agora o nosso time vai?   Ao contrário do que era normal, sorriso largo e um comentário engraçado, o questionamento sério:
        — Por que é que me chamou de Julio?  Como não entendi a brincadeira, repeti em tom de galhofa a frase, alterando o tratamento para doutor, no que fui indagado, exatamente assim: — Não entendi a brincadeira.  Dei de ombros e me despedi, dizendo que precisava dar um telefonema e nem pensei muito no assunto até um pouco antes do horário do almoço, quando ouvi, na sala ao lado, um esbravejar mais alto:
        — Meu nome não é Julio, não estou entendendo essa brincadeira desde manhã, alguém vai querer me explicar? 

   Saí da minha sala e fui ao encontro dele, um pouco apreensivo, se fosse brincadeira (ele não desgostava de uma boa troça) a coisa estava sendo muito bem encenada, ainda que eu não compreendesse o porquê da pilhéria.  Então disse, batendo de leve na porta, e me afastando um pouco para que o funcionário das correspondências planasse ligeiro dali:
        — Posso entrar patrão, como quer que lhe chamemos agora?

    A sala estava em perfeito estado de arrumação, naturalmente como haveria de ser em qualquer dia da semana.   A atmosfera um pouco lúgubre era conseqüência do dia escuro e frio que fazia.  Em princípio pensei que pudesse ser isto o que contaminava a expressão fechada percebida no rosto dele, mas, a tal ponto ela se entrevou, a um tal ponto se angustiou que pensei enfim ser a coisa mais séria, algo estranho estava acontecendo, e ele me disse, a voz muito baixa:
       — Eu não sei o que está acontecendo, todo mundo me chama de Julio, mas tenho certeza de que não me chamo Julio.
   Mesmo já tendo percebido que não era farra, ainda tentei, numa última chance para nós dois, mostrar indiferença:
       — Deixa de brincadeira, Julio, me fala o que está havendo?  A resposta veio tão forte e serena, que precisei me sentar:
       — Eu não me chamo Julio!

    Retomei o prumo, esperei um instante, e o observei, aproveitando-me de que ele olhava para baixo, pensativo, mais cansado que assustado, com uma expressão agora de tristeza ao invés de indignação:
       — Vou chamá-lo Julio, mas é pelo hábito, e porque não saberia como fazer de outra maneira, o que está acontecendo, por que diz não ser esse o seu nome?
       — Eu não sei o que houve, simplesmente não me lembro do meu nome, mas sei que não me chamo Julio...
       — Do que mais não se lembra?
       — Aparentemente me lembro de tudo.
       — Do meu nome?
      — Claro que sim, seu nome é...  E disse meu nome completo, com o detalhe da pronúncia de um sobrenome alemão. — Está vendo, sei exatamente o seu nome e de todos os outros, o rapaz das correspondências chama-se... Foi então enfileirando uma série de nomes, da copeira até o diretor geral e só parou porque eu interviesse:
        — Muito bem Julio...
        — Não me chamo Julio!
        — Certo, certo, enfim, já percebi que você se lembra do nome de todos, aliás, sempre se soube da sua boa memória, vamos devagar, isto deve ser alguma estafa.
        — Pode ser o que seja, mas meu nome não é o que vocês estão dizendo, e não que isso tenha grande importância, apenas é um erro que precisa ser corrigido.

    A conversa começou a me cansar um pouco, percebia que realmente não se tratava de uma brincadeira e ao mesmo tempo achava que também não era nada de grave, apenas alguma coisa relacionada ao estresse, de qualquer forma precisava chegar a um ponto para faze-lo refletir:
       — Vamos almoçar, já são horas, uma boa comida e um café talvez lhe façam bem.
       — Farão, não tenho dúvidas, vamos.

    Saímos os dois a passos lentos, procurei pousar a mão em seu ombro, como a dar amparo, ele sequer notou o gesto, permanecia calado e não disse uma única palavra, exceto um grunhido obsceno quando o porteiro do prédio desejou bom almoço a nós ambos, chamando-nos pelos nomes.  Já estávamos sentados, havíamos feito os pedidos, as bebidas estavam sobre a mesa, um refrigerante dietético pra mim, uma água mineral sem gás para ele, quando achei que era hora de romper o silêncio, tentear de leve o assunto:
       — Pensou bem, ainda não soa familiar o seu nome?
      — Não é familiar, Julio não é o meu nome, o meu nome, quando o ouvir, e é possível que não o reconheça de pronto, poderá soar familiar, mas, Julio, não sendo meu nome, não será familiar.

continua

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