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11.04.07

TERRA_PERMA_LINK 20:33:52. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Enciclopédia Municipal do Esquecimento III

    Mudei de assunto, ainda não era a hora e, de qualquer maneira, também não sabia como agir.  Tornei a falar de futebol, mas ele não quis conversa. Esperei a comida chegar, não demorou muito e estávamos almoçando, ele lentamente, sem olhar para mim, nem para comida, vago, alheio, me pareceu que realmente não se chamava Julio, me pareceu que não tinha nome nenhum.  Nenhum de nós levou mais de quinze minutos para terminar a carne e o arroz.  Notei que a expressão dele não se alterara, e isto me pareceu um mau negócio, saciar a fome não tinha surtido efeito, mas, era preciso falar alguma coisa:
         — Sente-se melhor?
        — Sinto-me bem, a despeito da falta de memória onomástica...  Sorriu um sorriso ácido, mas julguei que haveria me enganado, a comida teria causado algum efeito positivo em seu espírito, continuei:
        — Você se lembra do seu sobrenome?  A pergunta era importante, e a fiz com gravidade, jubiloso de ter me adiantado em faze-la.
        — Não me lembro.
        — É Andochama.
        — Julio Andochama?
        — Exatamente, não se recorda?
        — É um sobrenome estranho, mas, não é o meu...
        — Não sei que dizer Julio...
        — Já disse que...
       — Eu sei, eu sei, mas não tenho como me referir a você senão pelo que estou habituado a fazer, como quer que lhe chame?
       — Não sei, não me lembro do nome, quanto será preciso repeti-lo?

    Os dois estávamos agora irritados, cada um por uma vertente.  Mantive-me em silêncio, já me via sem argumentos, sem saber como sair daquele labirinto, e ele não parecia querer ajudar.  Foi quando me lembrei dos documentos, “sim os documentos” balbuciei, eles me ajudariam como nada até agora:
        — Pegue sua carteira, seu cartão de crédito com o qual vai pagar a conta...
        — Eu vou pagar com os vales da empresa.
        — Não importa, pegue, vamos, pegue sua carteira de motorista!

    Eu estava excitado, era a prova derradeira, material.  Mas, tão maquinalmente ele retirou a carteira do bolso da calça, tão friamente procurou a carteira de motorista, sem nenhuma hesitação olhou o nome que estava lá pregado ao lado da foto, e ainda, com absoluto desprezo lançou-a sobre a mesa após verificar o que, enfim, já sabia.  Eu me apequenei no argumento que até então achara infalível e agora iria se mostrar absolutamente descartável, pois nós dois sabíamos o que estava escrito ali.  Mesmo tendo de antemão perdido a batalha, alcei a voz com um evidente despeito de vencido:
        — Pois bem, Julio Andochama, se não é você aqui nessa foto, apesar da barba!
       — Disso já eu sabia, o que poderia vir escrito nos documentos, uma vez que tenho desde manhã percebido que todos me chamam de Julio? Não estaria aí escrito outro nome... que há um erro, disso já sei, o que não atino é como foi produzido.
       — Mas que erro, como pode ser assim, olhe os outros cartões, a identidade, seu nome é Julio Andochama, é o que todos dizem, atestam, e com fotografias, pegue aí seu passaporte...
       — Os documentos estão errados, ao diabo com eles, não me chamo Julio.  Virava-se para os lados, não propriamente agressivo, não propriamente irritado, mas com uma contundência de quem tinha certeza do que dizia, e dizia — Eu sei quem sou, sei o que faço, onde trabalho, o nome de minha namorada, o número da minha conta no banco, tudo está condizente com a realidade, mas, não me chamo Julio, não mesmo.

    Calou-se, e a primeira corda de dúvida vibrou em mim, e gutural, recôndito em sei lá onde dentro, um “será” me escapou.  Pagamos a conta, voltamos ao escritório, deixei de vê-lo por algumas horas, mas, ao que parece, se sabia não se chamar Julio, talvez tolerara pelo bem do serviço. Fosse como fosse, combinei de encontra-lo ao final do expediente e ver como andaria a situação.  Não deu tempo, passou pela minha sala, quarenta minutos antes das dezenove horas:
        — Saio agora, não posso trabalhar num lugar em que me chamam pelo que eu não sou.
        — Julio... desculpe-me... espere, o que houve? aonde vai?
       — Conversei com o diretor, ele me disse para passar dois dias fora, tentei explicar o que estava acontecendo, mas, você sabe, nem mesmo eu sei o que está acontecendo, de qualquer forma, não estou certo de querer ainda este emprego.
        — Pelo amor de deus, cara, pense direito no que vai fazer, eu saio em quarenta minutos, onde podemos nos encontrar?
        — No lugar de sempre, fico lá esperando.
       — Certo, eu vou pra lá assim que puder.  Ele acenou com a cabeça e virou-se lento, arrastando os pés deu dois passos incertos e oscilando a cabeça para trás disse, sem me encarar:
        — Por enquanto, me chame José, ou simplesmente Zé.
        — Acha que pode ser o seu nome verdadeiro?
        — Não sei, não faço idéia, mas fica assim.

continua

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