

15:45:59, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano MachadoNesta altura eu já havia puxado uma banqueta dessas mais altas, próprias para os balcões, e estava sentado desde a metade de sua argumentação, e a despeito disso, parecia que minhas forças acabavam enquanto ele falava, tamanha a contundência com que dizia. Novamente eu não podia perceber se o que minava minha capacidade argumentativa era o imenso complexo de causas e efeitos que ele tinha construído, ou a extrema convicção com que o construíra. Calei-me e entornei um copo de cerveja gelada, a garrafa chegara ao fim. Pedi mais uma.
A cerveja chegou, permaneci calado, ele encheu nossos copos e disse que iria ao banheiro, o que me fez sentir aliviado, por uns instantes teria o pensamento livre, a cerveja gelada, alguns segundos para pôr alguma coisa no lugar, de súbito, o que veio ao meu pensamento tão logo ele saiu foi “qual é o meu nome?”, mas não havia esquecimento aqui e eu o pronunciei mentalmente, devagar, regozijando-me no que agora acreditava ser uma enorme benção.
Quando ele retornou notei que guardava o aparelho celular e tinha a expressão bastante absorta, provavelmente na conversa que tivera. Hesitei não sabendo se deveria perguntar, pois mesmo numa situação como aquela, poderia ser indelicado indagar de algo tão particular como uma ligação, mas conjeturando que o atual estado de coisas não permitia vacilação, eu disse:
— Está tudo bem? Parece que a conversa não foi boa...
— Não, não foi boa, era minha namorada...
— O que ela disse?... Se é que não estou me metendo demais...
— Tudo bem. Repito, você tem sido tão companheiro e paciente, posso estar confuso mas sei agradecê-lo por isto.
A resposta dele me fez crer que eu estava de fato sendo intrometido, mas que tinha aí alguma coisa como um salvo-conduto, pensei comigo “mas o que é que eu fiz até agora”. Não fiz caso:
— E então o que ela disse?
— Não estamos bem, faz um tempo já, ela falou que passaria por aqui daqui vinte minutos, acho que é tempo o suficiente pra decidir a questão do emprego...
— Zé, você não me disse que esperaria ao menos os dois dias concedidos pelo diretor?
— Disse, mas não vejo sentido, uma vez que a decisão está tomada e cada vez mais se calcifica.
Desanimar deveras. Não sabia mais o que dizer, não tinha mais meios ou subterfúgios para segurar aquela loucura. Enquanto isto, ele parecia realmente calmo, embora entristecido, levantou-se da banqueta em que sentara quando voltou do banheiro e foi cumprimentar um conhecido que estava numa mesa um pouco afastada, fez um gracejo, deu duas ou três risadas, olhou para os outros convivas, acenou com a cabeça, e voltou para junto de mim:
— Ele é vendedor da empresa de telefonia que fornece pra gente, conhece-o?
— Não conheço.
— Também não trato com ele, mas ele tem mania de me chamar iconoclasta, por conta de uma conversa que uma vez tivemos.
— Ele não sabe o seu nome?
— Creio que saiba, mas só me chama iconoclasta.
— E imagino que agora isto o tenha agradado bastante.
— Sim, foi um teste, fui ver se iria me chamar iconoclasta, chamou, eu gostei.
— É um alívio?
— Não propriamente, mas ao menos sinto-me um pouco mais eu, seja eu lá quem for.
Pedimos outra cerveja, era a terceira desde que eu estava ali, quem desta vez veio traze-la foi o dono do boteco, este sim José, o Zé. Veio com um sorriso largo, éramos clientes habituais, amigos desde as épocas em que a freguesia era pequena, dos muitos retratos de freqüentadores hoje, o primeiro pregado na parede havia sido o nosso.
— Olha só senhores, como vão as coisas?
— Tudo certo Zé? Eu respondi e estiquei-lhe a mão, cumprimentamo-nos, ele ergueu meu copo e passou um paninho úmido sobre o compensado:
— E este aí? Perguntou sorrindo.
— Está estressado, nada de grave, precisa de uma cerveja e de uns torresmos.
Ele tinha, assim que cumprimentou o Zé, ido para a frente da estufa de salgados escolher alguma coisa, ergueu a cabeça e sorriu para o Zé:
— Oh Zé, me veja aí uns quatro torresmos! — virando-se para mim — Quer quantos? Respondi com os dedos — Então, Zé, seis! Este treco é bom demais.
O dono do boteco apanhou lá os torresmos, depositou no balcão e foi pegar os aparatos, palitos, guardanapos e uma pimentinha que sabia gostávamos, tudo pronto, falou em tom festeiro:
— É seu Julio, precisa desistir do seu time heim! Sorriu novamente e nem notou o quanto o seu cliente ficara sério com o comentário, mas eu pude imaginar porque seria, ele não ligava para brincadeiras de futebol, nunca ligou, não seria o caso, e não era.
— Zé, aliás, precisa fechar minha continha, deixei alguma coisa pendurada no meu nome aí...
— Deixa eu ver... Julio, ih, que nada, aquela caixa de latinhas que pegou e estava sem a carteira...
— Quanto dá?
— Dezoito.
— Bobagem. Me troca um cheque? Dezoito reais da caixinha, mais dezoito de outra que levo na hora de ir embora, mais vinte da continha de hoje, mais cinqüenta pra ficar com dinheiro no bolso, cento e seis, certo?
— Certíssimo! Mas pensa bem a respeito de mudar de time!
— Vou pensar, Zé, vou pensar bem em mudar.
Assinou o cheque rapidamente, ainda tentei ver como assinara, mas não reconheci nada, apenas um garrancho que, se não me enganei, não era sua assinatura. Por certo que o dono do bar não notou o que ali tinha se passado, mas eu havia entendido, aliás, ele me confirmaria logo, quando o Zé nos deixou a sós, no meio da turba do bar:
— Uma conta no nome de Julio, agora estou pagando conta no nome dos outros, e ainda tendo que assinar um documento de outro, com um nome de outro.
— Como acha que chegarão as faturas dos cartões de crédito, por exemplo?
— É, eu imaginava, por isso preciso remendar o erro.
— E se não houver erro?
— Há erro, eu não sou o Julio, e há erro, sobretudo, porque não importa quem viesse pagar a conta no nome do Julio, se eu, se outro, ou o próprio Julio...
— Acha que o Zé não se interessa por quem você é?
— Por quem eu sou? Talvez sim, talvez não. Com quem paga a conta e no nome de quem ela está, sem dúvida que não, contanto que a paguem
— Assim é com todo mundo...
— Não tenho a menor dúvida de que é, exatamente por isso preciso desfazer o erro, e não necessariamente me lembrar do meu nome.
— De novo não estou lhe entendendo.
— Neste momento, nem eu...
continua
15:28:13, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano MachadoComparecendo ao próprio desencontro.
Eu estava a caminho do bar, um boteco em que costumávamos fazer nossas paradas depois do trabalho, lugar agradável, simples, mas aconchegante para botar pomada nas feridas, estrias, vergalhões e arranhões do ter de ganhar a vida. No caminho tentei me concentrar numa nova estratégia, alguma maneira de faze-lo perceber o seu engano quanto ao esquecimento do nome. Não sei exatamente se por estar inseguro quanto à eficácia de uma nova estratagema, ou inseguro se eu mesmo acreditava no que iria empreender, o que ocorreu foi eu não pensar mais no que dizer quando chegasse, apenas tentava me lembrar das cores da roupa dele, e não conseguia. Sabia que estaria trajando calça social, uma camisa de manga comprida e sapatos, porquanto era assim que eu estava vestido e que todos os que ocupavam os nossos postos na empresa se vestiam, mas, não podia precisar se a calça era bege, preta, marrom, ou creme, nem de que cor seria a camisa. Na altura não achei um fato importante, mas tão pouco posso atinar porquê ele me consumiu durante todo o caminho, quinze minutos de carro, até chegar ao bar.
Ele estava apoiado no balcão, de costas para a saída, não podia me ver. Foi um alívio. Preferia mesmo cumprimentar outras pessoas conhecidas, andar um pouco pelo recinto, dobrar as mangas da camisa, enfim, embriagar-me dos vapores do boteco antes de encarar a conversa que não seria fácil. Se bem que entre um olá e outro, entre uma brincadeira e outra, pensei que tudo poderia ter se desfeito, e a minha esperança aumentou quando vi uma garrafa de cerveja aberta em sua frente, no balcão de compensado:
— Está ao menos com uma cara melhor, já posso lhe chamar de Julio? E toquei-lhe, novamente, com ternura o ombro.
— Eu prefiro que não, disse em sua sala que por enquanto é José, ou Zé, mas, você tem sido tão paciente e amigo, que se quiser me chamar de Julio, tudo bem, não me oponho.
Embora fosse a sua resposta o que deveria me causar estranhamento, o que me chamou atenção foi o fato de reparar que ele estava com uma camisa amarela, clara o suficiente para que eu me lembra-se dela, visto ainda que a calça era do mesmo tom pastel, em desacordo com o comum dos seus vestuários, ele preferia roupas mais escuras, tanto mais porque estávamos no inverno. Não sei se influenciado pela questão das cores das peças do vestuário, se impressionado com isto e tudo o mais de balbúrdia que estava acontecendo desde a manhã, o caso é que naquele instante olhei para ele e não o vi, não vi como sempre o houvera visto e, foi por este motivo que pela primeira vez o chamei de José, e não soou estranho como antes no escritório, onde não poderia me desapegar de uma verdade que então me parecia óbvia e era o nome dele ser Julio:
— José... Bom, acho melhor Zé... Zé, me diz, como é que está, a quantas vamos?
— Não sei lhe dizer, o fato de não lembrar meu nome deixou de me incomodar, sei que não me chamo o que vinham me chamando, por isso até disse que poderia me chamar como quisesse, não me chamo Julio, tão pouco me chamo José, vem a dar no mesmo esta questão dos nomes agora.
— Mas, o que pretende fazer?
— A primeira coisa será pedir a demissão, não faz sentido mais trabalhar lá, pode ser que eu venha, amanhã, a esquecer o que faço no serviço, minhas atribuições, e se vier a descobrir que também isso está errado, será melhor que já não sofra a angústia de estar na empresa.
Eu ouvia aquelas palavras atônito, tudo quanto ele dizia me parecia confuso, porque nunca podia saber se me espantava com o absurdo da situação e de suas afirmações, ou com o absurdo que era eu não ter convicção de que ele estava falando absurdos, se as coisas fossem como fossem, era plausível o que ele contava. Me conservei ao seu lado, quieto por um instante, e pedi um copo ao moço do balcão.
— Estou tomando esta aqui...
Ele levantou a garrafa de dentro da camisinha e eu vi o rótulo, era uma cerveja que eu apreciava muito, o que me fez tomar ânimo para falar. Tentei colocar uma voz de confiança e firmeza, como já o tentara antes, para mostrar o quão importante era o assunto e minha opinião sobre ele:
— Olha, cara, você não pode largar o emprego, as coisas não são tão simples assim!
— Não penso que sejam simples, mas tem de ser assim.
— Não, não têm, não assim, pode até ser que vá desistir de trabalhar na empresa, mas, espere um pouco, serene o espírito antes de tomar uma atitude precipitada!
— Por incrível que pareça, eu estou sereno, posso até adiar o comunicado porque tenho dois dias, o diretor me concedeu, mas, sei que não volto a colocar os pés naquele prédio...
— Veja bem, se tudo o que você disse for da forma como disse, e se realmente amanhã você se esquecesse da sua ocupação, essa consciência antecipada não poderia garantir que de fato seu emprego existe hoje, e existiu anteriormente?
— Não alcanço onde quer chegar.
— Perceba, se o que imagina que possa acontecer em relação ao seu emprego de fato aconteça, podemos supor, por analogia, que isto aconteceu também com o seu nome, e com o esquecimento dele.
— Faz sentido...
— Claro que faz! A partir disto, então, não seria interessante considerar que seu nome realmente pode ser Julio Andochama, e o que está havendo de fato é um esquecimento inexplicável, ou explicável, uma estafa, estresse?
— Seu pensamento é interessante, mas contém uma lacuna lógica, e não me parece possa funcionar na prática.
— Como não?
— Eu não me chamo Julio Andochama, e tenho certeza disso, a partir dessa certeza, que vem antes de outras possibilidades que ainda não foram verificadas, como por exemplo esquecer-me, amanhã, das minhas funções, posso apenas afirmar que não me chamo Julio, o que pode vincular os fatos vindouros a este acontecimento precípuo, mas, por sua gênese, e por não se ter anunciado anteriormente sequer uma idéia de que isso pudesse acontecer, não podem os fatos que possam vir em decorrência deste vincularem o significado de quem lhes deu origem...
— Meu Deus, estou ficando confuso...
— Certo, resumindo, pode ser que o fato de eu não me chamar Julio, e este erro que eu não sei porque se deu esteja a embotar as vistas de todos, não a minha, pode ser que este fato, que em última análise seria o erro, e não o fato propriamente dito, porque, repito, não me chamo Julio Andochama, enfim, este erro pode vincular os demais acontecimentos, relativos inclusive ao conhecimento do meu emprego, mas, o reconhecimento de mais um erro, ou um esquecimento com relação ao conhecimento que agora tenho do erro ou do emprego — E aqui as duas coisas se equivalem, não pode vincular o fato primordial, que é, há erro quando dizem que me chamo Julio Andochama, e veja, não cogito a possibilidade de que um dia eu tenha tido este nome.
continua