

10:46:51, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado Agora era a minha vez de ir ao banheiro. Procurei me apressar, deixá-lo sozinho talvez não fosse boa idéia. Quando voltei, ele estava no celular, calculei que era a namorada novamente, me enganei. Cheguei perto, já sentia que nenhuma intromissão naquelas alturas poderia ser injustificada, e percebi que ele estava falando com alguém da firma, provavelmente o diretor de recursos humanos. E era isso mesmo, andou de lá pra cá, próximo a mim, não parecia ter interesse em ocultar nada, mordiscou um pedacinho de torresmo enquanto ouvia o interlocutor, passou a mão pelo balcão, olhou-me algumas vezes, mas, em nenhum momento exprimiu irritação ou preocupação. A face era serena, talvez um pouco enfadada com um diálogo que parecia perdurar mais do que ele desejaria. No final da conversa, apenas assentia com grunhidos e movimentava a cabeça, como se quem estava do lado de lá o pudesse ver, ou antes, assim o fazia para mim. Quando finalmente desligou o telefone, aproximou-se, deu-me um tapinha no ombro e falou sorrindo:
— Estou fora.
— Eu não acredito!
— Pois acredite! De qualquer forma, não é tão mal assim, não me sinto aflito, não queria mais o emprego, aquele emprego não me pertencia.
— Isto é loucura!
— É! Eu concordo! Sobretudo porque o diretor de recursos humanos, pressuroso em me dispensar, teve de faze-lo pensando que me dispensava, quando, na verdade, pelo que ele disse lá dos arquivos da empresa, dispensava o tal de Julio Andochama.
— É você!
— Não sou eu, eu sou este que está aqui.
— E quem se demitiu da empresa?
— Quem pediu a demissão fui eu, mas ao que parece quem foi demitido é o Julio Andochama.
— E quem é esse?
— Não sei, mas não estou nem um pouco interessado em descobrir.
A conversa deu-se no seguinte estado de ânimos: eu desgastado, vendo que se estava a praticar uma imbecilidade e sem poder evita-la, ele, com um sorriso que variava entre o irônico e o pueril. Alisei os cabelos, ele fez o mesmo, apenas um pouco depois, sua calma era tamanha, que não mais uma corda vibrou dentro de mim, mas uma sonata principiou a ser executada. Bebemos por uns vários minutos calados, comemos mais algumas coisinhas, comunicávamos apenas com gestos, ora apontando para uma moça que entrava, ora sorrindo de esbarrão, ora anuindo um ao outro à nova cerveja que deveria ser trazida. Ele não era o Julio Andochama. Não obstante, ou fosse lá quem fosse, ou chamasse como chamasse, parecia estar menos preocupado com sua identidade do que eu tentando descobrir alguma coisa que não sabia o que era. Ainda assim, sua companhia era agradável, cúmplice, e eu mesmo deixei de pensar exaustivamente naquele assunto. Passaram-se aí mais uns quantos minutos, quando ele rompeu o silêncio e disse:
— Ela chegou, agora é que vamos ver.
Ela havia chegado. Ficou parada na entrada do bar, com a bolsa presa entre o braço direito e a cintura, parecia angustiada, estava triste por certo. Ela era linda. Eu já a havia visto muitas vezes, saído tantas vezes ela, ele, minha esposa e eu para jantares, teatros, chopes, mesmo ali no bar nos encontrávamos sempre. Não me recordava de tê-la visto alguma vez triste, mas o fato é que a sua tristeza tão evidente a deixava ainda mais linda. Ele se aproximou mansamente e deu-lhe um beijo delicado, depois abraçou-a, ela retribui o beijo e o abraço e fez-lhe um afago no cabelo. Ele estava de costas para mim, a distância era razoável, julguei que agora realmente não faria sentido me aproximar, e é claro, não me aproximei, o máximo foi o aceno de mão que lancei quando ela me viu, assim que terminou de abraça-lo. Esperei por algum tempo. Não sei precisar o quanto durou a conversa, eles se mexiam muito pouco, mas nunca deixaram de estar ao menos com um dos braços a enlaçar o corpo do outro, não havia gestos muito bruscos e se a voz ergueu-se em algum instante, foi tão pouco que não seria possível perceber. Olhavam-se nos olhos, ou ao menos eu tinha essa impressão, já que eu não podia ver a face dele. A cena me hipnotizava pela candura, pela placidez estática, e me absorvi nela, esquecido da cerveja, do petisco e dos rumores do bar. Pensava que estavam se acertando, que ela o compreendesse, e que estivesse afagando-lhe a alma extenuada. Imaginei que ali ele encontraria um apoio realmente importante, em que pudesse talvez, não explicar alguma coisa e encontrar respostas, mas quedar-se num ombro acolhedor. O tempo passou, volto a dizer, não sei quanto, não pude mais perceber isto quando ela voltou-se para mim, e por cima do ombro dele acenou-me um adeus com as mãos. Imediatamente tornou a olhá-lo, beijou-o levemente e saiu do bar. No átimo em que me olhou se despedindo, pude ver que ela tinha chorado, os olhos verdes, lindos, estavam baços.
Ele caminhou até mim em passos muito lentos, pousou a mão em meu ombro como duas vezes durante este dia eu já houvera feito e me disse num arfando profundamente:
— Mais uma despedida... — Coçou os olhos e continuou, em voz baixa, devagar — Ela é linda, mas a beleza dela fica mais latente quando está triste... — respirou, e sem mudar o tom ou o volume, arrematou — Acerte aí com o Zé, já paguei vinte, vou ao banheiro, depois vamos embora.
Paguei o restante da conta, entornei o meu último gole de cerveja, e o mesmo borriço que vi nos olhos dele, adivinhei nos meus.
continua