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23.04.07

TERRA_PERMA_LINK 13:05:40, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

OUTRO parte I de II

Outro

 
“Conhece-te a ti mesmo”
Sócrates


    Quando acabou de passar pela porta giratória, detectora de celulares e molho-de-chaves, deu de cara consigo mesmo refletido na enorme janela de vidro na parte interna do banco. Nesse momento exato deixou de querer ser ele. De tal forma surgiu o sentimento, forte, coerente, que volveu para trás esquecido completamente do que viera fazer. Saiu pela rua com tranqüilidade e convicção, sabendo que não queria mais ser ele. Se poderá inferir, em princípio, que gostaria de trocar a aparência física, mudar o cabelo, a cor, puxar daqui, esticar dali, coisas que um bom cirurgião resolveria. Mas não era isso, desejava deixar de ser quem ele era por inteiro, de corpo e, vulgarmente falando, de alma. Tinha de ser outra pessoa, fundamentalmente, outro ser. Lembrou-se de Gregor e lhe pareceu até satisfatória a figura de um enorme inseto, justo, natural, com tanto que não fosse mais ele. Estava pelos trinta e tantos anos e possuía um espírito pragmático, metódico até, vivia sozinho, tinha amigos, uma vida social, uma amante, cuidava de sua pequena empresa de distribuir bebidas e se dava muito bem no negócio. O que não tinha era mais vontade de ser quem era, muito embora não existisse nenhum motivo especial para desgostar de sua pessoa, ou sequer de sua vida. Aliás, na verdade, não desgostava de si, não tinha sensações de angústia para consigo mesmo, apenas queria trocar de ser para ir enxergar com outros olhos e com outra alma o mundo.

    Assim que entrou no carro, deixado o banco e os afazeres para trás, principiou formular como levaria a cabo seu intento e, como dito, prático por natureza, pôs-se a deduzir como agiria e de que maneira começaria a transmudar-se em outra pessoa, agora que definitivamente não iria mais ser ele. De punho do aparelho de ondevocêestá ligou para o escritório de sua firma e disse ao empregado que não voltaria mais para trabalhar, ao que aquele respondeu tudo bem, sem problema, dava-se conta do que haveria para se fazer. Pobre do moço, não entendeu que seu patrão lhe estava a dizer é que jamais tornaria ao trabalho, ao menos ele, ele mesmo. Desligado o telefone celular, avisado o escritório, precisava agir com rapidez. Tinha uma sensação gostosa pelo corpo — esse corpo que não queria mais — e também um sentimento ligeiro na cabeça — essa cabeça que não queria mais — uma euforia pelo empreendimento realmente vultuoso em que se estava metendo. Dirigiu rapidamente até seu prédio, e não foi sem um pouco de ironia que respondeu baixinho ao porteiro que o chamara pelo nome dando as boas tardes seu Lisandro, “Por enquanto, só por enquanto, verás daqui para um pouco”, e entrou na garagem e em instantes estava no apartamento.

    Visto assim parecerá desvario de repente abandonar-se negócios e compromissos para querer tornar-se outro, mesmo que querer tornar-se outro seja tão nobre empresa, supondo se queira tornar numa pessoa melhor do que se é. Mas vejam este aqui, plácido, decidido, sem arrancar cabelos ou deitar fora as roupas, quem o poderá chamar louco. Quer transfigurar-se noutro e não faz juízo de valores, não quer ser melhor do que é, pior, menos, aliás, está agora mesmo se questionando o que quererá ser, já tomada a decisão de não mais ser o que agora é. O escopo não perde a nobreza, há de se concordar e muita gente por aí diz ser grande demonstração de idoneidade e coragem admitir desejos de não gostar de quem se é, de tentar mudar, de alterar posições e atitudes, nos ditos do povo, “Hoje eu sou um novo homem, nasci de novo, a partir de agora sou outro”, mas nesses casos, mormente se se repara na entonação das frases, há implícito o conceito de revigoramento, de um melhor estado em relação ao anterior. Lisandro não pensa assim, senão, deixemos ele falar: “O que serei, o que me tornarei, quem?”, entretido nessa importante decisão, preparou um copo, este sim revigorante de uísque e foi bebe-lo descaindo-se no sofá. Desde que tomara a decisão era o primeiro momento em que não se via atribulado, agitado para dar fim à sua intenção, pois agora tinha de decidir em quem se tornaria ao deixar de ser ele.

    Permitiu ao pensamento oscilar por entre rostos, nomes, biografias, multidões e parou no Dalai Lama. “Interessante figura, grande homem, visões transcendentais, paradigma de um país e de uma nação, sem cabelos, aquelas roupas umas por cima das outras, sempre as mesmas, deve ser quente, e eu gosto de me mexer bastante, quem sabe Gandhi, esse sim, paz, tudo pela paz, só a paz, indiano pode comer carne de vaca, eu adoro churrasco”, o Dalai e o Gandhi ficaram para trás exortados num belo suspiro resplandecente enquanto se desfaziam em brumas de pensamento. “Elvis Presley seria bastante complicado mudar-me nele”, embora um sorriso tenha assomado em sua face ao pensar nas quantas pessoas não estariam a se deliciar vendo o rei novamente, “Eu não disse, sempre disseram, Elvis não morreu!”, Kant, Guimarães Rosa, Galileu, seu Zé do bar da esquina, Osama bin Laden, ver a vida pela ótica de um terrorista era no mínimo inusitado, tantas eram as possibilidades, tantas as pessoas em que se poderia mudar, e foi assim, pensando e repensando adormeceu no sofá com a imagem de um ser sem rosto onde teria de passar a viver. Sonhou. Estava na pele do Michael Jordan jogando as bolas de basquete à cesta e fazendo mais de mil pontos numa única partida, se não foi num único arremesso, e quando saía da quadra já não era mais o alto jogador americano ascético, mas sim o Antônio Carlos Magalhães. Tinha uma barriga enorme, uma soberba enorme e estava envolto numa roda interminável de correligionários, baianas e acarajés enquanto ia distribuindo mandos e desmandos.

continua

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