Bazófia

Literatura, Política, Bares, Arte, Futebol e outras besteiras e presunções.
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28.05.07

TERRA_PERMA_LINK 15:03:15, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Fraseologia da coincidência

    Coincidências são apenas coincidências. Mas, nem por isso elas deixam de ser divertidas, se se baixa sobre elas um olhar apenas observador, não propriamente comovido, não propriamente místico. Anotava na agenda a feitura de uma proposta para o dia 28 de maio de 2007, data de hoje, e ao terminar assinalei evento importante para o próximo vinte e três. A agenda que utilizo tem, dentre muitas outras coisas, frases no rodapé para cada dia do ano. Muitas delas são ditos famosos de gente famosa, outros tantos de gente desconhecida, e outras ainda frases desconhecidas de pessoas famosas, de cuja autenticidade eu muitas vezes desconfio, por prazer de formação e um certo ceticismo avaro, coisa de gente sem ter que fazer.

    Para o dia vinte e três vindouro, rezava assim o escrito: “Só quem já se modificou pode modificar aos outros”, atribuída a Soeren Kierkegaard. Bom, o filósofo dinamarquês todos nós conhecemos, mas a autoria da frase também pode ser suspeita, eu não sei se ele disse isso ipsis literis, e ainda que tenha dito, o conteúdo não é exatamente original. Proclamou-se a mesma ladainha (com outras palavras) em quantas latitudes e longitudes que por este mundo há, inclusive, recordo-me de uma parecida, e creditada a algum pensador oriental, “antes de começar o trabalho de modificar o mundo, dê três voltas dentro de sua própria casa”. Uma coincidência: pouco antes de ir ter com a agenda, havia recebido um emeio cujo derradeiro conselho me dizia que “a mudança começa dentro da gente”. Acabrunhou-me o emeio por muitos motivos, e não valeria a pena trazê-los aqui, mas, a sugestão, ou antes injunção me entristeceu particularmente pois não creio muito nessa fraseologia barata, nessas receitas simples de resolução e entendimento das coisas. A maioria de nós sabe, e eu sei também, que as modificações e atitudes do nosso dia-a-dia dependem muito de nós mesmos, de tomarmos esta ou aquela decisão. Mas, esse tipo de conselho vago não serve de muita coisa, a mim me parece um chover no molhado que não auxilia, antes amargura, pois nem sempre saber da necessidade de um lance, forceja-nos a jogar decididamente, e pior, acertadamente o tal lance. Poderia ter tomado a coincidência das duas frases, a de Kierkegaard e do meu interlocutor de emeio como uma mensagem a me dizer “oras, tome jeito agora Juliano, e mude o que tenha de mudar”. Mas não creio, a vida é um pouco mais complexa do que essa coincidência, e seus caminhos um pouco mais variados que um simples R1T (rei na primeira casa da torre).

    Outra coincidência. Na página do dia treze, palrava-me o dito de rodapé: “ Se não tivéssemos tantos defeitos, não nos agradaria tanto notá-los nos outros”, creditada a um Rochefoucauld. Não me incomodo de dizer que não fazia a menor idéia de quem era esse sujeito. Sequer me toquei do conteúdo da frase, pouco me importou o tal Rochefoucauld, ainda mais que no momento em nada me amparavam, ao contrário do que as frases anteriores, e as coisas que já mencionei relacionadas a elas (o que ademais só vem a provar que embora eu defenda aqui que as coincidências são apenas coincidências, nem por isso elas deixam de ser divertidas, ou como no caso corrente, motivadores de aborrecimentos). Enfim. Ando relendo Memórias Póstumas de Brás Cubas do Machado de Assis. Caminho pelo página 128 da minha amarelada edição da Saraiva de 1963. Para os curiosos é o correspondente ao capítulo CXV de qualquer edição do romance, cujo título é “Almoço”. Lá, Machado cita o Duque de La Rochefoucauld, sem, contudo, nos dar maiores informações sobre o homem. Bem, então sim, achei curiosa a coincidência, e, embora não tenha tido até agora vontade de ir verificar quem seja o tal duque, imediatamente depois de ler no Brás fui tomar minha agenda para rever as frases que, de uma forma intrincada, se tinham metido de parceiras no meu dia-a-dia. Como não tivesse mais que fazer a não ser relê-las, cogitei de ler as irmãs, não de conteúdo, mas de posição geográfica, já que não nos é difícil imaginar que toda página, exceções concedidas à primeira e a última (assinalando, claro está, de que se trata da parte de uma agenda que marca os dias do ano, cada página para cada dia.), têm sempre uma irmã gêmea. Bom, a dupla da página vinte e oito, a segunda-feira, vinte e nove, disse-me isto: “Nem sempre convém virarmos a página, as vezes, é preciso rasga-la” de Achille Chavée. Sim, tem que ver com o que estou aqui esboçando, falando de página, mas não atino como coincidência, porque estes fatos todos se deram antes da escrita do texto, de maneira que consciente ou inconscientemente utilizei-me da frase para ir construindo a parcela argumentativa de agora.

    Mas bem, resta contar sobre a menecma da página do dia 23, que é (será) um domingo, 24: “Não há cura para o nascimento ou a morte, a não ser usufruir o intervalo” de George Santayana. Seria de se esperar agora ao mostrar a segunda não-coincidência que eu estivesse tentando corroborar a tese do início — coincidências são só coincidências —, já que a frase acima nada tem que ver com as coisas até aqui invocadas. Mas, coincidentemente, o senhor Nelson Archer, colunista da Folha de S. Paulo, escreveu no dia 13, Caderno Ilustrada, página E6, sobre poesia. Pelas tantas ele diz uma frase bonita, que casa com a do dia 24: “(...) Em outras palavras, a poesia de quando em quando suspende para alguns (sem que, para tanto, seja necessário infiltrar moléculas complexas e estranhas no meio das sinapses) a pena capital que pesa sobre nós”.

    Usufruir o intervalo suspendendo a pena capital que pesa sobre nós talvez pudesse ser uma das somas das duas frases. Eu penso que a razão (a despeito de contraditória)é boa para a “suspensão”. O Nelson Archer crê que a poesia é boa para a “suspensão”. Concordo com ele também, e ouso dizer que ele concordaria comigo. Contudo, Nelson e eu esquecemo-nos de pensar que tanto as infiltrações de moléculas estranhas quanto a busca por sinais “diferentes” nos painéis da vida (como as coincidências) podem ser formas, e sublinhe-se, bastante legítimas, para a suspensão da pena capital. Afinal, em se tratando apenas de uma mera suspensão em todos os casos (já dizia Sêneca “que podemos escapar dos infortúnios, dos sofrimentos e da doença, mas não do fim”, corroborado pelo próprio Archer num seu poema, “todos os trilhos vão dar no matadouro”), quem é que vai apregoar com certeza qual será a melhor... Poesia é só poesia? Sertralina só sertralina? Coincidência só coincidência?

p.s. – eu não sou Shakespeare, e tomara que algum Bloom me esteja lendo, por isso mesmo é que penso que possamos rir juntos se por acaso algum disparate surgir na lógica do calendário usado no texto.

TERRA_COMMENTS (8)

22.05.07

TERRA_PERMA_LINK 18:25:51, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Son number one

    Realmente ando sem paciência para o cinema.   Não vou a uma sala de projeção há anos, e não sinto falta.  Quando, raramente, arrisco ver um DVD (na casa de alguém, não possuo essa tecnologia) de lançamentos, acabo me frustrando muito e entendendo porquê deixei de ver novas produções. Aplicação genérica a Hollywood, europeu, brasileiro etc (não tenho visto, por conseqüência, os recentes iranianos, os últimos que vi continuam sendo ótimos).

    Os dois últimos (três, na verdade) filmes que acompanhei no cinema foram “As Horas” e os dois volumes de Kill Bill (vi também uma porcaria de comédia da qual nem me lembro o nome, que só valeu a pena pela companhia). Excelentes filmes. Talvez somente por isso que me empertigue para tocar no assunto cinema, uma vez que não é por acaso que a palavra não está no rol taxativo (e presunçoso, escusado seria dizê-lo) da Bazófia, logo aí em cima.

    “Kill Bill” traz tantas referências que não saberia por onde começar a cita-las, se quisesse citar todas que eu consegui observar. Mas, uma que me chamou atenção no primeiro volume, foi a do personagem de Michael Parks, o xerife que investiga o massacre de El Paso. Texano, óculos Rayban caçador, cusparadas a cada meio metro, ele trata o policial que parece ser seu assistente mais próximo de son number 1.  Bem, de cara saquei que era uma referência a alguma coisa, e pensei, por ignorância, que seria um costume local. Me enganava.

   Semana passada em seu blogue de cultura e crítica (http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br), Marcelo Coelho retomava assunto de sua coluna na Folha impressa às quartas-feiras, seu gosto pelos detetives dos romances policiais.  Coelho se detém, sobretudo em Chesterton, mas lá a certa altura, para encorpar seu argumento — que não me interessa citar (sugiro a leitura dos artigos se porventura tenha-se interesse: a) por literatura policial; b) por crítica literária; c)por literatura ou d) curioso incorrigível) — ele fala do famoso detetive Charlie Chan, dos filmes da década de 1940, baseados nas histórias de Earl D. Biggers. Eu nunca li Biggers (meu predileto disparado sempre foi Poe. Nada melhor do que o encadeamento lógico de Dupin, inferindo o pensamento de seu amigo a partir do piso de uma calçada em Paris, no célebre “Os mistério de Marie Roget”), mas cheguei a assistir a um filme com o personagem Charlie Chan. Tenho de confessar de que me lembro de quase nada da história, do mistério e sequer do próprio Chan: mas, me lembrei de seus ajudantes, sempre à sua volta a trazer nenhuma espécie de auxílio realmente útil.

   Mas, o melhor de tudo do texto de Marcelo Coelho foi o resgate que fez em minha memória de o detetive Chan chamar esses seus ajudantes enumerando-os, para facilitar o trato cotidiano, assim: son number 1, son number 2 etc. Ora, cá temos o Tarantino e suas referências, apesar de curta a seqüência em que aparece o filho número 1 do xerife de El Paso, é suficiente para se perceber que o ajudante não é exatamente indispensável no correr daquele incidente.

    A verdade é que me deliciei com a descoberta banal, mas divertida, como se tivesse entendido um pouquinho mais do filme do Tarantino. O caso é que recentemente, num texto anterior, conversava com a Marlene, leitora do blogue, acerca de referências que iam surgindo aqui e acolá em textos lidos, músicas ouvidas e outras manifestações artísticas. Chego à conclusão de que esse diálogo é muito divertido, se não quando nos faz sentir a extensão das coisas que vamos amealhando ao longo da vida, e dá até para, numa alto-lambida, felicitarmo-nos pela memória que enfim ainda guarda coisas banais, mas agradáveis de se recordar e relacionar. Para confirmar isso, não poderia deixar de citar que os auxiliares bocós de Charlie Chan, e do xerife de El Paso (se há um filho cujo número é 1, imagina-se haja, no mínimo, o número 2) me fez agora recordar dos ajudantes do agrimensor K, talvez muito mais atentos e perscrutadores, mas igualmente de utilidade duvidosa para seu mestre, que afinal, segundo Kafka, optou por chamá-los de Arthur, a ambos.

(Na foto, Charlie Chan e seu filho número 3, depois, o xerife Earl de El Paso e seu filho número 1)

TERRA_COMMENTS (12)

17.05.07

TERRA_PERMA_LINK 18:00:26, TERRA_CATEGORIES: Escatalógico. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

As flores de plástico

As Flores de Plástico

"As flores de plástico não morrem..."

    Há modalidades de flores de plástico. As mais comuns são, evidentemente, àquelas destinadas aos mausoléus, ataúdes e sepulturas de todos os materiais e imagens, além das formas e tamanho. O trajeto dessas flores plásticas é claustrofóbico, porque saem da fábrica em caminhões que as transportam a distribuidores que as revendem às floriculturas que ladeiam os cemitérios. Carregam consigo sempre alguma poeira, que se vai amealhando logo mesmo na planta de produção, passando pelo já citado veículo até chegar ao depósito onde, enfim, alojam-se. Nas floriculturas sobram-lhes as câmaras traseiras escuras, pois é certo que à vista as flores vivas (ainda vivas. A maioria já foi desligada da terra) têm preferência de mostrar seu colorido. Contudo, uma outra espécie existe. São essas as flores de plástico decorativas, fabricos usados em decorações do que se chama ambiente. Banheiros, salas, saletas, garagens, algumas sacadas, cozinhas e sobretudo nas áreas de convívio das chácaras, onde, aliás, elas são depositadas e ajeitadinhas, normalmente, juntas de flores e plantas de verdade, isto é, aquelas que possuem seiva a lhes correr.

    É certo que ambas as modalidades não necessitam de água e não morrem com facilidade, visto que, na maioria das vezes, são realmente feitas de plástico, material este que leva, dizem-nos sempre os ecologistas, mais de 150 mil anos para se desintegrar. Embora elas tenham a mesma composição e método de manufatura, somente a um observador bastante desatento seria dado imaginar que não há diferenças entre umas e outras, apesar do jaez em comum.

    As flores de plástico de cemitério têm matizes frias, tendentes sempre ao azul e ao preto na escala de valor. Daí se preferirem as madrepérolas, as geisas, as violetas, e sobretudo a boa-morte. Quando chegam aos jazigos, são depositadas com calma, e as lágrimas, quando as há, a despeito de salgadas, só servem para fazer limpar um pouco o pó supracitado, num efeito paliativo, ou antes, enganador: a superfície que se molhou com a gota, será tanto mais convidativa para o acúmulo de outras e mais sujidades a que estão sujeitos os cemitérios.  Depois, são lá esquecidas, e só visitadas aniversariamente.  À mercê do tempo e do clima, das bátegas diluvianas, do sol acachapante, do vento, da poalha de inverno, são desgastadas e corroídas pela força assaz persuasiva do tempo, tendo seu material compositivo sobejados motivos de se esboroar.  Não nos esquecendo de que as cores escuras maior quantidade de luz absorvem, o que acelera o processo.

    De maneira diferente, a outra modalidade de flores de plástico são de cores quentes da alegria, da diversão, do sangue, da vida. Por isso mesmo representações de rosas, dálias, copos-de-leite, sanvitálias, miosótis, quando não girassóis mesmo. Maneirinhas ao lado das flores de verdade em jardineiras e outros demais lugares citados, apanham o sol fracionado por janelas de vidros e outras proteções urbanísticas, mas, se estão ao ar livre, primas espaciais das verdadeiras, nunca tomam o sol na fronte todo o dia, e não se esturricam. Também o pó não lhes bafeja, uma vez que dado o ambiente salubre em que vivem seja sempre higienezado, e ainda por vezes lhes sobram umas gotículas animadas do que é aspergido às suas companheiras reais.

    Ante o exposto, seria de se esperar que as flores de plástico da primeira categoria — quais sejam as atávicas da celebração da morte, ou sua memória — deveriam durar bastante menos que suas irmãs festivas, pouco degeneradas no seu dia-a-dia contente, ao lado, não só de flores vivas, mas também de pessoas vivas. Entretanto, a verdade comprovada cientificamente nos manuais práticos de olhar e ver é que o lapso temporal de existência e durabilidade das flores plásticas dos cemitérios é maior, de modo que suas irmãs enfeitadoras de banheiros, copas, salas e jardineiras, são trocadas amiúdes e substituídas muito mais rápido do que o seriam as outras, caso houvesse interesse premente na ação.

    Por um mecanismo já bastante conhecido do evolucionismo, lograram as flores de plástico de cemitério uma adaptação, talvez por mimetismo, às condições hostis do ambiente em que vivem (e dos esqueletos que reverenciam), sobretudo do ponto de vista metafísico, quando puderam se aperceber de que não se pode perder muito de um líquido que cai gota a gota. Da percepção prostrada do caráter transitório da vida, do desapego mecânico com que puderam ao longo dos anos notar que nem mesmo a memória resiste à morte, adaptaram-se fisiologicamente a viver sem nenhuma espécie de sorriso ou esperança — e por isso sem movimento —, o que é largamente conhecido como uma eficiente maneira de economizar energia. Suas irmãs risonhas, flores de plástico de jardineiras e decorativas de ambientes, pelo mesmo processo destilado acima, amolgaram-se pelo modos vivendi de suas companheiras vivas, atentas a todo instante aos movimentos, cores e sons da festiva existência humana. Os homens duram pouco, e as flores que os homens plantam, duram menos ainda. Na tentativa de aproximação de seus pares, as flores de plástico dessa categoria passaram a durar bastante menos (ainda que imarcescíveis), o que se tornou num dos fatores da redução categórica de sua produção, por conta de terem correspondido com ineficiência na margem do lucro. Em contrapartida, pôde-se observar um aumento na luminosidade dessas flores de plástico, já que com as companheiras vivas aprenderam que aquilo que rápido se extingue mais brilho oferece.  Essa tendência evolutiva das flores de plástico felizes vem se tornando num paradoxo da teoria, uma vez que o caminho natural é a aniquilação da espécie.  Não obstante isso, parece ao final concorreu-se para que haja aí um primeiro e último gene de contato com as suas irmãs flores de plástico de cemitério, qual seja a percepção arrastada ao longo dos séculos de que afinal, à morte, ninguém pode fazer esperar eternamente, corroborando com isso o príncipe hamlet, que muito anteriormente havia dito que se não sabemos nada daquilo que aqui deixamos, que nos importa deixa-lo antes?

(Na foto, flores de plástico e respectivos materiais para o fabrico manual das atavias)

TERRA_COMMENTS (10)

09.05.07

TERRA_PERMA_LINK 15:20:28, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Dois meninos

parte II de II

A guerra

    Que os dois livros sejam permeados pela guerra, não chega a surpreender. Em Bom dia camaradas a guerra é um pano de fundo, presente na vida cotidiana dos jovens, e até por isso internalizada. O narrador aqui não vivencia diretamente os efeitos do batalha, sua condição social permite que ele sinta o bafejar do estado belicoso do país, sem, contudo, que isso se torne um fardo maior que as pequenas dissensões familiares e ou escolares, a exemplo. A guerra aparece mais como substrato do que fora anteriormente, como se preparasse a nova Angola para uma vida de paz, entre “camaradas”. Chama atenção, inclusive, que eventos comuns a juventudes em qualquer latitude e longitude, quais sejam as “lendas urbanas” aqui surjam como motivadoras de medos e confusões muito maiores do que alguma preparação para um conflito que afinal, durante o romance, não se deflagra. Com feridas mais ou menos normais ali e adiante, a narrativa caminha num mar habitualmente calmo.

    Já em Feras de lugar nenhum a guerra é explícita, e é ela mesma, personagem principal.  Agu vive a guerra e só tem a ela e seus frutos para misturar com sua infância que vai sendo perdida. O menino não compreende a guerra, não compreende seus motivos e sua barbárie.  Mas, vai aprendendo que, fazendo parte do jogo, precisa jogar para se manter vivo.  Agu quer se manter vivo, e nessa tentativa, procura encontrar justificativas para a violência que presencia e agora promove: ele mata porque é obrigado a matar, senão o inimigo o mataria a ele. Embora não distinga no inimigo alguém muito diferente de si, o narrador se felicita pelo cumprimento da tarefa que enfim foi investida para ele, e matar se torna “natural” em seu caminho. Agu anda o tempo todo atormentado pela guerra, e quer vencê-la pelo motivo mais simples e profundo que é continuar vivo. O menino, em meio ao seu desespero e às vezes sua resignação, diz que também tem uma mãe, irmãs e que pretende um dia reencontra-las, para viver num tempo já sem a guerra.

Ritmo

    Ondjaki se propõe, e consegue, a escrever uma linear história de vida privada, e meninices num determinado tempo e espaço. Não resulta, portanto, da leitura do romance nenhum sobressalto ou tensão maior do que seria uma prova oral com o diretor geral da escola ou uma topada de dedão com um muro de pedras (incipiente demais para ser levada em conta é um momento de morte de um “membro” da família a quem o menino é bastante ligado). O menino-narrador quer nos contar do seu dia-a-dia de abacateiro, “gasosas”, amigos e brincadeiras, das rotinas familiares e da saudade que principia quando chega o final do ano letivo. Sentimos tudo isso junto com ele, embora as vezes também com ele bocejemos um pouco.

    Como acima dito, a guerra de Feras de lugar nenhum pode se passar em muitos territórios como talvez a própria Nigéria. Dessa indefinição palpável de espaço, decorre uma indefinição temporal, que embora não comprometa a também linear narrativa do romance, confere a ele um ritmo acelerado, quase frenético. Agu luta, mata, quase morre, pensa na morte, na vida, nas feridas que coleciona pelo caminho, no corpo dolorido do último combate, na escola precária que frequentava antes da guerra, e os tiros continuam a zunir em sua orelha enquanto se lembra da irmã que lhe contava histórias, e decepa um inimigo a golpes de facão. A atmosfera de Uzodnima Iwaeala tem de ser nebulosa, virulenta, pois ele quer falar de violência e estupidez, mas escolhe o seu menino para o fazer.

Dois meninos

    Ondjaki tem menos de trinta anos e Uzodnima Iweala, menos de vinte e seis. Estrearam abordando temas complicados por constantemente reiterados. Não se saíram mal na empresa, e me parece que ainda têm muita lenha para queimar (ou petróleo, ou gás natural). São dois meninos. Arrisco que o nigeriano poderá vir a se tornar homem antes do angolano, porquanto seu livro comece e termine bastante melhor que o do "companheiro de armas".

(Na foto capa de Feras de lugar nenhum, Uzodnima Iweala. Nova Fronteira, mais ou menos 30 reais)

 

TERRA_COMMENTS (4)
TERRA_PERMA_LINK 15:16:39, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Dois meninos

parte I de II


    Terminei de ler Bom dia camaradas, do escritor angolano Ondjaki. Imediatamente me surge à mente o livro de outro africano, Uzodinma Iweala, nigeriano, autor de Feras de lugar nenhum, este lido no final de 2006. Ambos são jovens escritores, na casa dos vinte anos e poucos, e esses dois livros suas estréias no romance. A pouca diferença entre eles é que Ondjaki escreve em português e estudou em Luanda, ao passo que Uzodinma Iweala graduou-se por Harvard e usa a língua inglesa para contar sua história.

Meninos

    Os livros são narrados em primeira pessoa e ambos os protagonistas-narradores são meninos. Em Bom dia camaradas, esse menino, embora não nomeado, aparenta ser o próprio Ondjaki, pelas relações e manutenções dos nomes dos amigos de escola (claro, estamos falando de ficção). O garoto luandense vive numa família de classe média alta, estuda num bom colégio, tem facilidades domésticas muito acima do que se supõe fossem o normal da maioria da população angolana nos idos de 1980, data imaginável do romance. O narrador de Bom dia camaradas é um garoto, portanto, que tem uma percepção bastante aguda de seu ambiente: tem aulas com professores cubanos, uma tia que, morando em Portugal, traz-lhe notícias (e doces) dos antigos colonizadores, vai à praia de carro e pode estar nas ruas quando o “camarada Presidente” atravessa em parada militar. Aliás, é desse caráter sensível do narrador que decorre uma qualidade e uma dificuldade do livro. Ondjaki aposta no coloquial (apesar de manter o padrão formal da língua, tenta desviar-se com certo zelo dele) da fala infantilmente poética de seu menino para criar imagens vívidas, do ambiente familiar, escolar e mesmo urbano de sua vida. Também não re-descobre a pólvora: usando adjetivos e ações humanas em objetos inanimados ou plantas e bichos, aproxima o ambiente cotidiano da sensação lúdica da criança. Disso decorrem alguns problemas. Fica a impressão de que o autor, usando uma boa metáfora, acaba por gostar tanto dela que a repete muitas vezes, se não quando a disfarça em outras palavras, mas guardando o mesmo sentido. Num certo momento, diz o menino que os “abacateiros se espreguiçam”. Da metade da página 79 à metade da página 80, vamos ver a repetição cinco vezes da expressão espreguiçar, além de uma quantas outras dizendo o mesmo, como estremecer. Esquece-se, o Ondjaki da máxima que diz que a repetição faz perder o efeito dramático. Ao contrário do que diz Luiz Ruffato na apresentação do livro, esses “exageros” acabam fazendo com que a haja um tom artificial, por vezes forçado na voz do narrador, que afinal é um menino de não mais que doze anos.

    Agu é o narrador de Feras de lugar nenhum.  Não tem esse menino mais que dez anos não obstante esteja inserido num ambiente violentíssimo. Agu está no meio de uma guerra civil, arrancado à sua família para se tornar um soldado: vive, portanto, entre vilarejos destruídos e a floresta opressora e escura, sob as ordens de um cruel “Comandante”.  Seus companheiros são soldados esfarrapados e famintos, e o único menino de sua idade é Strika, com quem vive uma amizade superficial. A linguagem que Uzodinma faz dar voz a Agu é tensa, infantil, solapada, às vezes reproduzida dos adultos. Essa infantilidade conturbada é condutora da tensão que varia entre o monólogo pessoal do menino com as pouquíssimas palavras que dirige a outras pessoas, exceto por Strika, que, aliás, em bela imagem do autor nigeriano, tem problemas de fala (ele não fala). Agu está no meio de lugar nenhum: a guerra pode ser na Nigéria, mas o cenário dá cabo de muitos países africanos, e ainda mais muitas civilizações que permitem crianças com um fuzil na mão. Agu luta consigo mesmo para entender o seu ambiente, procurando equilibrar as idealizações da vida militar com a realidade violenta e crua que se apresenta à sua frente. Os parágrafos são curtos, contundentes, secos. O menino Agu conta a sua história aos solavancos dos buracos e dos obstáculos do caminho da guerrilha. Vale a pena aqui ressaltar, como observou Wilson Bueno que a tradução, de Christina Baum é excelente “marcada por um português acossado, quase aturdido, fiel ao inglês nigeriano do autor”.

(Na foto, capa de Bom dia camaradas, Ondjaki. Agir.  Mais ou menos 35 reais)

continua

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