

15:20:28, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machadoparte II de II
A guerra
Que os dois livros sejam permeados pela guerra, não chega a surpreender. Em Bom dia camaradas a guerra é um pano de fundo, presente na vida cotidiana dos jovens, e até por isso internalizada. O narrador aqui não vivencia diretamente os efeitos do batalha, sua condição social permite que ele sinta o bafejar do estado belicoso do país, sem, contudo, que isso se torne um fardo maior que as pequenas dissensões familiares e ou escolares, a exemplo. A guerra aparece mais como substrato do que fora anteriormente, como se preparasse a nova Angola para uma vida de paz, entre “camaradas”. Chama atenção, inclusive, que eventos comuns a juventudes em qualquer latitude e longitude, quais sejam as “lendas urbanas” aqui surjam como motivadoras de medos e confusões muito maiores do que alguma preparação para um conflito que afinal, durante o romance, não se deflagra. Com feridas mais ou menos normais ali e adiante, a narrativa caminha num mar habitualmente calmo.
Já em Feras de lugar nenhum a guerra é explícita, e é ela mesma, personagem principal. Agu vive a guerra e só tem a ela e seus frutos para misturar com sua infância que vai sendo perdida. O menino não compreende a guerra, não compreende seus motivos e sua barbárie. Mas, vai aprendendo que, fazendo parte do jogo, precisa jogar para se manter vivo. Agu quer se manter vivo, e nessa tentativa, procura encontrar justificativas para a violência que presencia e agora promove: ele mata porque é obrigado a matar, senão o inimigo o mataria a ele. Embora não distinga no inimigo alguém muito diferente de si, o narrador se felicita pelo cumprimento da tarefa que enfim foi investida para ele, e matar se torna “natural” em seu caminho. Agu anda o tempo todo atormentado pela guerra, e quer vencê-la pelo motivo mais simples e profundo que é continuar vivo. O menino, em meio ao seu desespero e às vezes sua resignação, diz que também tem uma mãe, irmãs e que pretende um dia reencontra-las, para viver num tempo já sem a guerra.
Ritmo
Ondjaki se propõe, e consegue, a escrever uma linear história de vida privada, e meninices num determinado tempo e espaço. Não resulta, portanto, da leitura do romance nenhum sobressalto ou tensão maior do que seria uma prova oral com o diretor geral da escola ou uma topada de dedão com um muro de pedras (incipiente demais para ser levada em conta é um momento de morte de um “membro” da família a quem o menino é bastante ligado). O menino-narrador quer nos contar do seu dia-a-dia de abacateiro, “gasosas”, amigos e brincadeiras, das rotinas familiares e da saudade que principia quando chega o final do ano letivo. Sentimos tudo isso junto com ele, embora as vezes também com ele bocejemos um pouco.
Como acima dito, a guerra de Feras de lugar nenhum pode se passar em muitos territórios como talvez a própria Nigéria. Dessa indefinição palpável de espaço, decorre uma indefinição temporal, que embora não comprometa a também linear narrativa do romance, confere a ele um ritmo acelerado, quase frenético. Agu luta, mata, quase morre, pensa na morte, na vida, nas feridas que coleciona pelo caminho, no corpo dolorido do último combate, na escola precária que frequentava antes da guerra, e os tiros continuam a zunir em sua orelha enquanto se lembra da irmã que lhe contava histórias, e decepa um inimigo a golpes de facão. A atmosfera de Uzodnima Iwaeala tem de ser nebulosa, virulenta, pois ele quer falar de violência e estupidez, mas escolhe o seu menino para o fazer.
Dois meninos
Ondjaki tem menos de trinta anos e Uzodnima Iweala, menos de vinte e seis. Estrearam abordando temas complicados por constantemente reiterados. Não se saíram mal na empresa, e me parece que ainda têm muita lenha para queimar (ou petróleo, ou gás natural). São dois meninos. Arrisco que o nigeriano poderá vir a se tornar homem antes do angolano, porquanto seu livro comece e termine bastante melhor que o do "companheiro de armas".

(Na foto capa de Feras de lugar nenhum, Uzodnima Iweala. Nova Fronteira, mais ou menos 30 reais)
15:16:39, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machadoparte I de II
Terminei de ler Bom dia camaradas, do escritor angolano Ondjaki. Imediatamente me surge à mente o livro de outro africano, Uzodinma Iweala, nigeriano, autor de Feras de lugar nenhum, este lido no final de 2006. Ambos são jovens escritores, na casa dos vinte anos e poucos, e esses dois livros suas estréias no romance. A pouca diferença entre eles é que Ondjaki escreve em português e estudou em Luanda, ao passo que Uzodinma Iweala graduou-se por Harvard e usa a língua inglesa para contar sua história.
Meninos
Os livros são narrados em primeira pessoa e ambos os protagonistas-narradores são meninos. Em Bom dia camaradas, esse menino, embora não nomeado, aparenta ser o próprio Ondjaki, pelas relações e manutenções dos nomes dos amigos de escola (claro, estamos falando de ficção). O garoto luandense vive numa família de classe média alta, estuda num bom colégio, tem facilidades domésticas muito acima do que se supõe fossem o normal da maioria da população angolana nos idos de 1980, data imaginável do romance. O narrador de Bom dia camaradas é um garoto, portanto, que tem uma percepção bastante aguda de seu ambiente: tem aulas com professores cubanos, uma tia que, morando em Portugal, traz-lhe notícias (e doces) dos antigos colonizadores, vai à praia de carro e pode estar nas ruas quando o “camarada Presidente” atravessa em parada militar. Aliás, é desse caráter sensível do narrador que decorre uma qualidade e uma dificuldade do livro. Ondjaki aposta no coloquial (apesar de manter o padrão formal da língua, tenta desviar-se com certo zelo dele) da fala infantilmente poética de seu menino para criar imagens vívidas, do ambiente familiar, escolar e mesmo urbano de sua vida. Também não re-descobre a pólvora: usando adjetivos e ações humanas em objetos inanimados ou plantas e bichos, aproxima o ambiente cotidiano da sensação lúdica da criança. Disso decorrem alguns problemas. Fica a impressão de que o autor, usando uma boa metáfora, acaba por gostar tanto dela que a repete muitas vezes, se não quando a disfarça em outras palavras, mas guardando o mesmo sentido. Num certo momento, diz o menino que os “abacateiros se espreguiçam”. Da metade da página 79 à metade da página 80, vamos ver a repetição cinco vezes da expressão espreguiçar, além de uma quantas outras dizendo o mesmo, como estremecer. Esquece-se, o Ondjaki da máxima que diz que a repetição faz perder o efeito dramático. Ao contrário do que diz Luiz Ruffato na apresentação do livro, esses “exageros” acabam fazendo com que a haja um tom artificial, por vezes forçado na voz do narrador, que afinal é um menino de não mais que doze anos.
Agu é o narrador de Feras de lugar nenhum. Não tem esse menino mais que dez anos não obstante esteja inserido num ambiente violentíssimo. Agu está no meio de uma guerra civil, arrancado à sua família para se tornar um soldado: vive, portanto, entre vilarejos destruídos e a floresta opressora e escura, sob as ordens de um cruel “Comandante”. Seus companheiros são soldados esfarrapados e famintos, e o único menino de sua idade é Strika, com quem vive uma amizade superficial. A linguagem que Uzodinma faz dar voz a Agu é tensa, infantil, solapada, às vezes reproduzida dos adultos. Essa infantilidade conturbada é condutora da tensão que varia entre o monólogo pessoal do menino com as pouquíssimas palavras que dirige a outras pessoas, exceto por Strika, que, aliás, em bela imagem do autor nigeriano, tem problemas de fala (ele não fala). Agu está no meio de lugar nenhum: a guerra pode ser na Nigéria, mas o cenário dá cabo de muitos países africanos, e ainda mais muitas civilizações que permitem crianças com um fuzil na mão. Agu luta consigo mesmo para entender o seu ambiente, procurando equilibrar as idealizações da vida militar com a realidade violenta e crua que se apresenta à sua frente. Os parágrafos são curtos, contundentes, secos. O menino Agu conta a sua história aos solavancos dos buracos e dos obstáculos do caminho da guerrilha. Vale a pena aqui ressaltar, como observou Wilson Bueno que a tradução, de Christina Baum é excelente “marcada por um português acossado, quase aturdido, fiel ao inglês nigeriano do autor”.

(Na foto, capa de Bom dia camaradas, Ondjaki. Agir. Mais ou menos 35 reais)
continua
22:37:34, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano Machadopor sugestão, torno ao tema:
O Caminhante
O caminhante caminhava pela estrada que havia, porventura ao poente, com um único e verdadeiro medo, que não confessava nem a si próprio. O medo, embora grande, não o paralisava, visto que seguia sempre adiante. O caminhante tinha medo de que lhe perguntassem para onde estava a ir. Ele sabia para onde estava indo, só não sabia exatamente o porquê, e tinha medo de explicar. A calçada dava para uma rua que dava para uma estrada que dava para uma trilha de terra e era aonde o caminhante ia seguindo. Ele não levava nada e despia-se no caminho da vida cumprida. O vento até poderia insistir em dizer que a vida é comprida, e que tem tanta vida para gente desanimar, mas não insistia, e o caminhante se lembrou de ter lido alguma vez que a vida era uma agitação feroz e sem finalidade. Da lembrança, o medo súbito fê-lo quedar-se e cerrar os olhos. Era isso que vinha tentando esconder de resposta a quantos o houvessem de indagar “Aonde é que vais?”. Não queria, pois não saberia explicar por que a vida não tem sentido, embora soubesse desde a alma que seu caminho fazia todo o sentido do mundo. Parado não podia ficar. Usou de forças que talvez nem fossem suas e continuou caminhando, apesar do medo, “Ora, se me encontram, digo-lhes a verdade e pronto, não pode haver mais verdade no caminho que se escolhe seguir, se se o segue de fato”. O caminhante havia decido ir ao encontro do que escolhera, teria lá seus motivos ou os não teria, justificar-se poderia ou não, quem é que sabe. Ele sabe apenas que o caminho é este e quer segui-lo em frente. O caminhante passou por vales, montes, casas, mares e estava satisfeito consigo de não ter encontrado ninguém, embora, a despeito do medo ancestral, já tivesse decidido firmemente dizer a verdade a quem lhe houvesse de perguntar, de novo “Aonde é que vais?”. Os vales, os montes, as casas, os mares não lhe perguntavam nada e ele não se lembrava de perguntar, porventura a si próprio “Onde é que há gente no mundo?”. Passou por um deserto, grandes são os desertos e tudo é deserto. Seguiu em frente, o deserto não era seu destino. Assim que saiu do areal, entrou pela cidade e então dominou definitivamente o seu medo, queria mesmo agora era encontrar alguém que lhe perguntasse “Aonde é que vais?”, teria a resposta já pronta: “Vou ao encontro do rio”.
Na cidade, passou por casas de novo, e se não havia vales, e se não havia montes, e se não havia mares, havia gente, mas a gente não notou no caminhante. O caminhante tinha entes queridos, amigos verdadeiros, família a esperar, mas não se lembrou de dizer-lhes para onde ia. Doído, pensava, “Antes eles não se lembraram de me perguntar para onde estava indo...”. O caminhante recordou-se de que não havia avisado a ninguém na partida e quis contar. Afinal, tinha a resposta à pergunta que lhe iam, inexoravelmente, fazer. Trocou de calçada e foi ter com um senhor grisalho, disse, “Olá, tenho família, mas minha família não sabe que vim cá, que estou indo ao encontro do rio...”, o senhor grisalho, afinal, não fez caso e saiu como se planasse. O caminhante pensou que não faria sentido a alguém que ele quisesse ir ao encontro do rio, mas sossegou de pensar, também, que não fazia sentido estar na cidade, sair como se planasse. Achou melhor falar ao trabalhador, trabalhando, saberia de algum sentido oculto, quem sabe se no trabalho lá dele, disse, “Se não atrapalho, gostava de perguntar o que tu achas do teu trabalho...”, “Não acho, trabalho! Agora não vês que estás a amolar-me?”, dando costas ao caminhante, continuou no afazer. O caminhante caminhou, caminhou mais um tanto, à beira de sair da cidade avistou a moça linda. Pensou falar-lhe, quem sabe se do rio, quem sabe de sua família, afinal, já de longe sabia que as mulheres são mais sensíveis e, se não sabem o sentido de tudo, a tudo algum sentido empregam. Foi falar à moça linda, mas esta se adiantou a ele, “Aonde é que vais?”. Desde o começo da caminhada esteve a sopitar o medo ontológico de dizer para onde ia, a que ia, e agora estava tão preparado para dar a resposta que hesitou, “Vou, vou ao rio...”, “Por que vais ao rio?”, “Vou saltar fora da ponte, num lugar em que o leito cubra este corpo de homem”, “E tua família?”, “Não sabem que vou”, “Teus amigos?”, ” Não me perguntaram”, “Disseste-lhes?, “Não disse”, “Por que, enfim, vais?”, “Cansado estou”, “Tens motivos para tanto?”, “É possível que os não tenha suficiente...” , a moça, então, falou com doçura, “Não será necessário os tenha sempre, é teu direito saltar fora da ponte, é esta uma prerrogativa da razão. O caminhante tencionou deixa-la, continuar ao encontro do rio, não queria ser dissuadido da empreitada, não seria facilmente dissuadido, e sua alma encheu-se de luz quando olhou os olhos da moça linda, “Já não tardo, se espero muito, o rio corta, perco-lhe o fio, não lhe acho o leito mais profundo...”, a moça, sempre com suavidade, comentou, “No leito mais raso te banharias, antes de cobrir-te todo de água”, “Quando a água me cobrir de todo, mais limpo que nunca estarei”, “Julgas-te sujo?”, Não julgo, não me compreendo...”, e acenou a cabeça como a dizer adeus. A moça linda tocou-lhe ao de leve o braço, e disse, “Ficas?”, “Não posso”, “Ficas?”, “Não quero”, “Ficas?”, “É já tarde”, “É sempre mais tardes do que supões, não te impediria este último e mais humano direito, não te sei dizer o sentido que queres, quero que fiques, ir-te talvez seja o melhor...”, “Eu vou, antes que o rio seque e o sentido que procuro finde-se com a água, se o perco, perco-me no sem-sentido de não haver rio...”, “Adeus”, “À Ele...”.
O caminhante partiu no caminho, agora não falta já quase nada para chegar no leito caudaloso do rio. Não sabe se jusante, não sabe se foz ou nascente, sabe que a ponte é alta, haverá água lá para o cobrir. Há um tronco roto navegando bem ao meio, parece forma-se-lhe um rastro atrás a juntar uns restos de folhas, umas migalhas de gravetos, umas penas que não sabe o que sejam. O caminhante olhou a tudo e tudo, percebeu que o caminho houvera chegado ao fim, estava na ponte, mas já não sentia medo. Escorou-se nas proteções, alçou, por primeiro a perna esquerda, por segundo, a direita, e esteve à borda, preso só pela força do braço par da primeira perna. Ventava, o caminhante julgou que estaria frio, pensou, “Estará fria a água”, estava. O caminhante saltou, desceu ao fundo, escureceu. Lá na frente, porque há sentido na correnteza, vai atracar-se com o tronco, nunca saberá tratar-se de um oiti, importa pouco, mesmo o rio vai chegar um dia ao fim. A moça linda virá ver estas águas a compreender a levada da vida, a compreender querer o caminhante saltar fora da ponte e da vida. Há de entristecer-se, mas escolherá não saltar.