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29.06.07

TERRA_PERMA_LINK 20:21:05. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Uma histórinha de criança

A pulguinha e o cão de Deus

A Pulguinha estava quieta em seu cantinho e naquele momento não tinha vontade sequer de morder o dorso quente e nédio do animal sob ela. Estava tristonha, bastante frustrada com sua vida de pulga e decepcionada com o rumo dos acontecimentos no seu planeta.

Há tempo vivia à mingua. O cão onde morava era um vira-lata velhinho, vencido pela idade e maus tratos. Seus pêlos ralos mal cobriam as feridas que ela própria e sua comunidade de pulgas impingiam ao degenerado animal. Nem a seiva vital vermelha (de importância sem mesura para ambos) era lá grande coisa. A comunidade crescia e crescia. Havia pulgas para todos os lados e extremidades do cachorro e a Pulguinha não entendia como ele suportava tamanha provação.

Tão decepcionada com sua vida estava que chegava ao ponto de se fazer várias indagações existenciais e até teológicas. Então se perguntava com amargura:
— Que Deus é esse? Como posso acreditar num Deus tão injusto? Eu aqui vivo neste animal sujo, desnutrido, sempre à sorte do tempo! Enquanto isso existem pulgas que vivem em cães limpinhos, bem alimentados, e por serem tão bem tratadinhos esses animais, as pulgas que neles vivem não tem o problema da super população, da escassez de alimento, da falta de higiene e tratamento médico, que recebendo o cachorro, elas desfrutam também. O único trabalho necessário é esconderem-se nas unhas quando são aplicados os shampus anti-sépticos... Quanta desigualdade.

Sem dúvida, para a Pulguinha não podia haver um Deus que a tudo isso olhasse e que tamanha injustiça permitisse. Também se espantava muito com a devoção e exaspero da crença de suas companheiras pulgas, conformadas, resignadas com o que a vida lhes oferecera e sempre apregoando o “Deus bom que criara o universo”, “o Deus justo que um dia virá buscar os puros de espírito”. Chateada, até mesmo irritada, resolvera dar uma volta pelo cão, talvez ir até a cabeça proa a observar o rumo que o navio de sua vida tomava. No caminho encontrou uma sua companheira que lhe indagou aonde ia:
— Aonde você vai tão cabisbaixa? Sus! Não aprofundes o teu tédio! A vida é bela!
— Pro inferno! Que vida bela, a vida é uma porcaria! — respondeu-lhe a Pulguinha com nenhuma paciência.
–– Não fale assim criatura! Deus tudo ouve!
–– Ao diabo com seu Deus injusto! pérfido! Que se existe, é um grande gozador.
— Blasfêmia! Cuidado minha amiga com o que esta dizendo. O senhor é onipresente e onipotente!

A Pulguinha saiu sem nada dizer, ainda mais aborrecida com seu mau fado. Foi em direção à orelha esquerda do cachorro e subindo num ponto onde nem pêlos mais havia, posicionou-se de forma a ver o caminho em sua frente... Bibbbi! Vrummmm!... Mal teve tempo de se ajeitar na orelha do cachorro e já estava rolando para trás, graças aos bruscos movimentos do animal canino. O cão, caminhando distraído, quase foi atropelado por um carro que vinha rápido. Antes que a Pulguinha conseguisse recompor-se do susto, ouviu a voz grave de seu inquilino, que olhava para o céu:
— Graças ao bom Deus! Deus realmente existe e me acompanha! Foi por um focinho...

Ora! era a gota d’água. Não podia acreditar que este cachorro mal tratado, sujo e miserável também pudesse creditar a um hipotético Deus “tamanha glória!” Aproximou-se mais um pouco da orelha do animal e não se conteve e pronunciou:
–– Ora cão, como você pode acreditar tão devotadamente em Deus. Um Deus injusto que não olha por sua criação? — perguntou-lhe exasperada.
–– O que você esta dizendo, minha cara Pulguinha? Isso é um absurdo! Nosso Deus é bom e é justo, sim. Deus dá o alimento conforme a fome e zela por todos nós e a todos nós acompanha! E virá buscar-nos, os puros de espírito! — respondeu-lhe o cão, querendo denotar tranqüilidade e experiência. A Pulguinha que já havia ouvido as mesmas palavras, estava inconsolável:
–– Mas não é possível, é sempre a mesma história. Será que você não pode ver o tamanho das injustiças que existem pelo nosso mundo! Como um Deus pode ser bom com suas criaturas se permite desigualdades? Simplesmente, então, Ele criou-nos e deu-nos as costas!
— Mas quem não enxerga é você — respondeu secamente o cão –— Deus dá a cada um o que merece e a seu tempo, Ele dá o frio consoante o cobertor. Olhe a maior prova que acabamos de acompanhar aqui: eu estava caminhado tranqüilamente pela rua, tão absorto em meus pensamentos que não percebi o carro. Por que acha que me salvei? Pela mão de Deus é claro...
–– Perdoe-me cão, mas você se salvou porque o motorista estava atento ao trânsito e conseguiu desviar em tempo. E o que você fez de tão errado para merecer a sorte que tem? Desde que nasceu tem levado uma vida miserável, sem alimento, sem diversão e sem possibilidade de melhora. Nem seus pais você conheceu, conheceu? claro que não... enfim, você vive sem ter onde morar, à deriva, sem saúde, sem alguém que ao menos zele por seu bem estar. Que fez você de mal a Deus? Ou melhor, o que fizeram a imensa maioria dos cães que vivem assim como você, na penúltima desgraça? Muito justo esse seu Deus que dá a poucos cachorros de raça o privilégio de ter boa alimentação, bom tratamento médico, educação em escolinhas especiais para cachorros e enquanto você mal tem o que comer, eles sobram a comida do almoço... Voltou a cabeça para o céu e perguntou a si mesma: cadê Você?

O cão que a tudo ouvira com atenção leda, agora balançava a cabeça e tencionou falar:
— Ora minha Pulguinha, você precisa deixar Deus entrar em seu coração. Você esta amargurada e justamente porque não encontrou a palavra Dele. O Senhor escreve certo por linhas tortas e bem sabe o que cada um deve passar para conseguir o paraíso ao Seu lado.
— Mas isso tudo, toda essa fé vem de que? De onde lhe parece tão clara a existência de um ser supino? — indagou com gravidade quase angustiada a Pulguinha.
–– Basta abrir os olhos, verificar o que esta à sua volta. Os pássaros, as árvores, a natureza de um modo geral. O amor, os sentimentos belos, são demonstrações latentes da existência do Nosso Pai. As nossas próprias vidas? o que dizer desta maravilha que é a vida! Uma criança que nasce, um filhotinho que vem à luz. Isso é Deus! A luz do sol...
A Pulguinha, que estava quase resignada com as palavras do Cão, olhou para frente e pode ver uma imensa igreja, símbolo máximo da devoção e da fé. Viu também um carro que vinha pela avenida defronte à catedral bem na direção do seu cão hospedeiro.
— Cão, cuidado! –– gritou a Pulga. Mas ele estava tão entretido em suas elucidações sobre a existência do Senhor que não pode ouvir a Pulguinha, que já se preparava para pular.
Antes de saltar, porém, ainda teve tempo de ver o motorista, que distraído do trânsito, fazia o sinal da cruz ao passar pela igreja.
Vrummm...

TERRA_COMMENTS (10)

20.06.07

TERRA_PERMA_LINK 14:53:07, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Cães sem donos

Então escrevemos uma carta (um emeio, importa pouco), e não vem resposta.  E porventura se machucamos uma parte do corpo, como o joelho, pensamos: “que merda essa agora também”.

Aí concluímos, quem sabe, por que o joelho tinha de se contundir agora? Bem agora que a resposta da carta não veio, que o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia, e não chegamos a ser poetas?

Paris? Dostoievski? Chopin? Balcão de emprego? Cerveja preta e barata? 9 mm?

Como o joelho dói, e não está fácil locomovermo-nos, deitamos. Não dormimos, porque também não conseguimos dormir.

p.s. – essa porcaria do meu blogue não tem aqueles trequinhos como, “marcadores”, “etiquetas”, “palavra-chave”. Se tivesse eu poria: “joelho”, “boa hora”, “solução", "insônia".

TERRA_COMMENTS (5)

18.06.07

TERRA_PERMA_LINK 17:47:03, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Breguice

Acabo de ler “Travessuras da menina má”, do Mario Vargas Llosa (Alfaguaia). Não sei o que escrever e nem o quereria.  É um bom livro, de um escritor que domina a escrita e sabe bastante bem o que faz. Uma história gostosa e envolvente, por vezes triste, por vezes fantástica e muitas vezes banal.  É também um belo painel de Europa, sobretudo de Paris, num reticente contraste com o sub-desenvolvimento da América do Sul, no contraponto peruano (Llosa é peruano).  A tradução e a revisão da primeira edição me parecem, deixam um pouco a desejar.

Mas, o que preciso dizer do livro é uma breguice, mon vieux:  me tirou umas lágrimas, de quando em quando.  Tortuosa, exagerada, brega e quase sempre ridícula, é uma história de amor.  Do amor de um bom menino por uma menina má.  De um amor que atravessa os anos e se torna ele mesmo a única matéria que importa para o narrador.

E a verdade é que já vimos essas histórias mil e uma vezes contadas e recontadas, os amores que duram anos, que surgem depois de grandes espaços de tempo, que são risco brevíssimo de estrela cadente, que são tantas coisas sendo no fim, enfim, amor.  História de amor que é sempre brega e ainda assim, ou por isso mesmo, comovente.

p.s. - não descarto, entretanto, que o livro seja apenas um divertido e exagerado enredo de desencontros afetivos, e eu um romântico incorrigível ou um solitário carente, que alguma hora terá um aneurisma por frustrações daí decorrentes.

(Na foto, a capa do romance de Mario Vargas Llosa, "Travessuras da menina ma", da editora Alfaguaia).

TERRA_COMMENTS (20)

11.06.07

TERRA_PERMA_LINK 21:31:05, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

O Oiti

    O oiti que não morreu no poste anterior, bem poderia ser qualquer oiti que afinal não morreu. Mas, não é não. É um específico oiti, situado à Rua Rui Barbosa, na altura do número 943, no Bairro da Vila Xavier, cidade de Araraquara. E não morreu mesmo, como qualquer um poderá verificar nesse endereço. Poderá ainda o curioso reparar que sequer há indícios de que venha a murchar para o longo prazo, a arvorezinha.  

         

                                                             O Oiti


    Não havia razão específica para que eles o plantassem, contudo assim o fizeram. A frente da casa já tinha a sua árvore convencional, aquela que foi medida e cultivada uma para cada frente de cada casa de cada bairro que de algum jeito foi escolhido. Mas havia espaço e lá foi colocado o Oiti. O homem e o companheiro o plantaram. Disse o homem ao companheiro que levaria quinze, vinte anos para chegar ao tamanho adulto, se é que árvores tornam-se adultas, pois se pudessem escolher ficavam a ser sempre crianças, só cresceriam de tamanho porque de cima se vê melhor, mas as folhas podiam ser de verde-infância, teriam elas liberdade também de inventar essa nova modalidade de cor. Mas estavam dispostos a esperar. Até porque, não havia necessidade premente de que a vissem altiva e soberana na maior estatura que pudesse alcançar. Altiva e soberana seria sempre que os dois a regassem, que cruzassem com ela na calçada, e finalmente altiva mais e soberana mais quando estivesse exatamente da altura deles, porque olhariam ela e ela os olharia a eles, como iguais, como unidos que assim ficaram porque assim escolheram ficar. Fizeram planos rente ao Oiti. O regador é pequeno, não se pode utiliza-lo a duas mãos, mas uma enche-o à torneira e carrega até ao pé da árvore, passa para a outra que vai despejar, mas, veja! Pesado! Escorregadio! Solícita, vem a primeira mão acudir a mão que deslizou no úmido regador e, enfim, juntas, dão de beber ao Oiti. Revolver a terra, adubar. Isso também se fará em separado, mas sempre, no exíguo espaço do canteiro haverão de se trombar, quatro mãos que, sujas do barro, são como as mesmas, porventura pais e filhos. Alegres, lavam-se com a água do regador, duas seguram para que duas se asseiem, inverte-se a operação, tocam ao de leve o tronco do Oiti, findo o trabalho, vão duas mãos, as direitas de cada dupla, abraçaram-se e saudarem-se pelo sucesso da empreitada. O Homem e o companheiro sorriem.

    O Oiti vai morrer. Não há mais razão para que viva e cresça altivo e soberano. Morreu o sentido que havia para se cuidar dele, árvore que deixará de ser árvore. Mão esquerda e mão direita solitárias não querem mais rega-lo, não querem mais revolver a terra ao seu redor. Se lho derem de beber vez ainda mais, será abreviar-lhe o fim com água salgada, gota a gota. Na lembrança destas mãos que ora não querem o ofício de jardinagem estão as outras duas de outrora a acenar o adeus. A casa em frente ao canteiro ficou vazia. A mão que restou não quer dele tratar. A árvore nem calcula, mas morreria de qualquer jeito, plantada a quatro mãos não suportaria viver aos cuidados de apenas duas. Quando estivesse já à altura de um homem, uma sombra só não lhe bastaria para arrefecer o calor do sol. Nas noites de frio, precisaria de dois corpos, lado a lado, para aquecê-la deveras. Já na calçada não estão mais o homem e seu companheiro. O Oiti vai morrer.

Araraquara, 01 de agosto de 2002.

TERRA_COMMENTS (6)

09.06.07

TERRA_PERMA_LINK 12:42:36, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Adeus a Joaquim

    Então aí abaixo segue um texto que escrevi a quando da morte do Joaquim Sassa, tema dos últimos postes publicados. Hoje me parece que o título não funciona muito bem, e uma e outra coisinha eu mudaria no corpo do texto. Não mexi em nada. Assim, com dor foi escrito, assim ficou:


Adeus a quem não torna

    O Oiti não morreu.  Sabe-se lá como e a que custos pessoais, mas está subindo, sem aparo, sem amparo.  Resiste, se assim se pode dizer.  Não há como saber sempre se a vida é uma escolha ou quando a escolha é a renúncia à vida, no caso em que talvez, domingo de céu imaculadamente azul, no primeiro toque benfazejo da luz o oiti se vire e diga, “Hoje vou continuar, hoje vale a pena pelo dia de amanhã que chuvoso será”. Não creio realmente que se pense, no dia chuvoso, “Vou continuar pelo dia de sol que ontem veio”, daí que talvez só se resista, de fato.

    A manhã de 13 de abril foi linda, o azul sem mácula de acima dito, valeria a pena viver.  Contudo ele se foi, “Não quer mais ficar com a gente, né”, foi o que Rosa disse, com ele deitado de comprido em seu colo, envolto num calção velho que furtara ao dono certa vez.  Morreu com o sol das dez horas lhe acarinhando o rostinho miúdo e, se o corpo lânguido esgueirado na bermuda e no cobertor lhe eram normais, a face mostrando um alheamento a tudo e todos não dizia o que houvera sido.  Então a Tatiana contou, “Ele morreu”.  E ele morrido havia deveras.  Olhos não quiserem crer e acharam-se embaçados do borriço de uma semana, esperando a confirmação para tornar em torrente imediata, trocada por fim numa bátega incontrolada de quando em quando, sobretudo no azul desse domingo.

    Meteram-no, então, numa caixinha que lhe serviu de urna e foi postinho ao lado das roseiras, ao lado, em verdade dorida, das raízes das roseiras. Era tão pequeno naquele momento que coube em recipiente que em vida jamais lhe cobriria um terço da porção do corpo.  Mas não se fazia caso, num caso em que todos à volta tornaram-se mínimos, de maneira a deixar até mesmo as roseiras olharem para baixo a acompanhar a passagem. Não resta dúvida de que o tamanho a que todos foram reduzidos tornou o oiti de alguns meses árvore frondosa e imponente.

    Tem sobejado a ausência, porque, enfim, ela sempre há de sobejar.  Hoje não é mais domingo, mas a bátega vem cair quando se olha a redinha de dormir, o bebedouro d´água, a nesga da porta onde era pra estar o rostinho dele e não está.  Ausência é encontrar não a casa em falta de algo, ainda que uma alma lhe falte, mas acha-la desarrumada, em desacordo com a vontade e o sentimento de quem nela restou.  O chão é menos chão, os quartos, menos quartos.  O coração é lasso.  Joaquim Sassa não está mais.

TERRA_COMMENTS (8)
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