

23:40:58, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano MachadoVERSOS PARA JOAQUIM
à memória de Joaquim Sassa, duas vezes calado amigo e que nunca fez muito esforço para escutar estes lamentos,embora enfim os tenha escutado, absorto e alheio,se assim se podem juntar essas duas palavras
Joaquim Sassa era o meu furão (ou ferret, como também por aí costumam chamar). Viveu conosco cerca de quatro anos, e era uma criaturinha adorável. Resolvi-me, depois que ele morreu, juntar algumas palavras juntadas, que sonham significar algo, numa espécie de simulacro de poesia coligida que se chamaria Versos para Joaquim. Uma das características mais interessantes do meu animalzinho de estimação era sua enorme capacidade de ser silencioso: não emitia qualquer espécie de ruído, tornando-se num ouvinte perfeito, absorto e alheio, coisa tão rara quanto encontrar um mau poeta calado, como dizia o mestre Machado de Assis. E creio que ele o dizia bem, visto que aqui me meto na ridícula empresa de publicar uns versos que querem ser poesia e não são, menos como homenagem ao meu companheirinho calado, que afinal parece que servirá de desculpa para comunicar algo que foi escrito antes e depois de sua morte. Enfim, como o espaço é meu, e as tentativas de poesia já estão prontas mesmo, ofendo os leitores com Bazófia versificada:
ANO NOVO
O ano vai virar
O Drummond já disse o belo
Mas vou vestir o mesmo branco
E calçar o tal sapato
Que tem furo e três verões
Não vou comprar cueca
Não vou comer lentilha
Não vou fazer pedido
Nem sequer bater as palmas
Entra este e sai aquele
E a esperança vai ficando desbotada
Já se cogita usar tons de bege
No próximo trinta e um
A PESSOA E A PALAVRA
Ela disse
Eu tô toda atarantada
A meiguice do tom domina a frase
A palavra é dela
E ninguém pode tirar
Atarantada dizia estar
E de fato ela estava
Atarantada fica séria
Despertando um sorriso
Embrenhado no depois.
No depois de atarantada
O sorriso e a palavra
A pessoa e a palavra
A pessoa e a palavra atarantada
agosto de 2000.
PRESENÇA
Tua pele alva meu rosto roça
Teu cheiro meus olhos turva
Meu corpo todo teu é
Imprescindível estejas próxima
Pele desejo pensamento
Sofreguidão a amar teu jeito
Só meu o seio seio só meu
Boca colo sede
Para perder-me teu ventre encontro
Tocar-te a face com mui desvelo
Olor tez sensação
Cotidiano de abraço e braço
Tépida sem muita cor
Se és retrato retrato só
Arfa em angústia este meu peito
fevereiro de 2002
ALITERAÇÕES E DUAS ONOMATOPÉIAS NO TRIGAL
O debulho de existir
É auto-debulho
Eu não sou trigo
E no entretanto trago o cigarro apagado
Se um dia o for tragar
Será possível torrar o trigal amarelo
Com o fósforo do devir.
A existência precedeu a essência
Porque a essência nunca se decidiu em ser
O que vem depois do nada é o estampido
Pois não se morre estalando os dedos
Certo estou de não ser trigo
E de que é auto-debulho buscar a essência
Sem maneira de a ter.
De mais a mais
Na triga existência táctil de projétil e aleurit(o)
Sempre pode o estampido
Valer pelo ceifar da colheitadeira.
Zlapt! Stuumm!
junho de 2004.
A PALAVRA
Não tenho nada,
Afora essas que vão ficando para trás.
Mais uma mais uma.
Inexatas exposições
Do meu pensamento, quer inexato ou exato, ele.
Portanto nada te poço ofertar,
E ainda que garantisse o meu refletir,
Não te poderia dizer.
E, mesmo assim,
Até assim,
Como não tenho nada,
Mostro-te a ti, imprecisas,
Essas que foram ficando
Aqui e aí para trás.
julho de 2001.
NENHUM POETA
em lembrança aos maiores: Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade
o poeta que eu nunca fui
pede ao poeta que não serei
dedique um verso taful
ao poeta que sempre sonhei
setembro de 1996