

21:31:05, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado O oiti que não morreu no poste anterior, bem poderia ser qualquer oiti que afinal não morreu. Mas, não é não. É um específico oiti, situado à Rua Rui Barbosa, na altura do número 943, no Bairro da Vila Xavier, cidade de Araraquara. E não morreu mesmo, como qualquer um poderá verificar nesse endereço. Poderá ainda o curioso reparar que sequer há indícios de que venha a murchar para o longo prazo, a arvorezinha.
O Oiti
Não havia razão específica para que eles o plantassem, contudo assim o fizeram. A frente da casa já tinha a sua árvore convencional, aquela que foi medida e cultivada uma para cada frente de cada casa de cada bairro que de algum jeito foi escolhido. Mas havia espaço e lá foi colocado o Oiti. O homem e o companheiro o plantaram. Disse o homem ao companheiro que levaria quinze, vinte anos para chegar ao tamanho adulto, se é que árvores tornam-se adultas, pois se pudessem escolher ficavam a ser sempre crianças, só cresceriam de tamanho porque de cima se vê melhor, mas as folhas podiam ser de verde-infância, teriam elas liberdade também de inventar essa nova modalidade de cor. Mas estavam dispostos a esperar. Até porque, não havia necessidade premente de que a vissem altiva e soberana na maior estatura que pudesse alcançar. Altiva e soberana seria sempre que os dois a regassem, que cruzassem com ela na calçada, e finalmente altiva mais e soberana mais quando estivesse exatamente da altura deles, porque olhariam ela e ela os olharia a eles, como iguais, como unidos que assim ficaram porque assim escolheram ficar. Fizeram planos rente ao Oiti. O regador é pequeno, não se pode utiliza-lo a duas mãos, mas uma enche-o à torneira e carrega até ao pé da árvore, passa para a outra que vai despejar, mas, veja! Pesado! Escorregadio! Solícita, vem a primeira mão acudir a mão que deslizou no úmido regador e, enfim, juntas, dão de beber ao Oiti. Revolver a terra, adubar. Isso também se fará em separado, mas sempre, no exíguo espaço do canteiro haverão de se trombar, quatro mãos que, sujas do barro, são como as mesmas, porventura pais e filhos. Alegres, lavam-se com a água do regador, duas seguram para que duas se asseiem, inverte-se a operação, tocam ao de leve o tronco do Oiti, findo o trabalho, vão duas mãos, as direitas de cada dupla, abraçaram-se e saudarem-se pelo sucesso da empreitada. O Homem e o companheiro sorriem.
O Oiti vai morrer. Não há mais razão para que viva e cresça altivo e soberano. Morreu o sentido que havia para se cuidar dele, árvore que deixará de ser árvore. Mão esquerda e mão direita solitárias não querem mais rega-lo, não querem mais revolver a terra ao seu redor. Se lho derem de beber vez ainda mais, será abreviar-lhe o fim com água salgada, gota a gota. Na lembrança destas mãos que ora não querem o ofício de jardinagem estão as outras duas de outrora a acenar o adeus. A casa em frente ao canteiro ficou vazia. A mão que restou não quer dele tratar. A árvore nem calcula, mas morreria de qualquer jeito, plantada a quatro mãos não suportaria viver aos cuidados de apenas duas. Quando estivesse já à altura de um homem, uma sombra só não lhe bastaria para arrefecer o calor do sol. Nas noites de frio, precisaria de dois corpos, lado a lado, para aquecê-la deveras. Já na calçada não estão mais o homem e seu companheiro. O Oiti vai morrer.
Araraquara, 01 de agosto de 2002.