Bazófia

Literatura, Política, Bares, Arte, Futebol e outras besteiras e presunções.
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31.07.07

TERRA_PERMA_LINK 10:38:32, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Manual do Proprietário

MANUAL DO PROPRIETÁRIO



“ A sua lembrança me dói tanto,
que eu canto pra ver se espanto esse mal.
Retrato sem cor, jogado aos meus pés,
Saudades fúteis, saudades frágeis,
Meros papeis(...)
(...)Sobrou desse nosso desencontro
um conto de amor, sem ponto final(...)”


Chico Buarque in  “Desencontro”.

Quando foi a última vez que olhei o manual do meu carro? Antes de hoje, não fazia a menor idéia. De chofre o interessado me perguntou quantos litros cabiam no tanque de combustível e me lembrei que uma vez eu tinha anotado, na parte de “anotações”, ao final do manual do proprietário. Estávamos em frente à minha casa, e embora já passasse das seis e meia, um sol fortíssimo torrava nossas cabeças. Praguejei contra o horário de verão e o homem concordou. Sentei de lado no banco do carona, peguei o conjunto plástico que abriga o dito cujo e outros documentos, papéis de seguros, revisões etc. Fui para as últimas páginas, abri, e dei com isto: “Capacidade do tanque: 47 litros”.

Faz mais de dois anos que nos separamos e a vida segue seu ritmo normal. Já tive outras mulheres, você, ao que me consta, outros homens, parece até que está apaixonada por um neste exato momento em que tenho de deixar o comprador à espera de um outro dia, para gastar, frente ao ecrã, isto que venho chamando de literatura e afinal não é. Capacidade do tanque: 47 litros. Lá está, grafado a caneta preta, numa letra redonda, cheia, alta, firme. A sua letra. A mesma letra das anotações avulsas no livro de alemão, a mesma letra das dedicatórias dos livros presenteados (foram tantos, tão importantes), a mesma letra de alguns cartões, recados furtivos, uma coleção de resquícios gravados em papel normalmente ordinário, com tinta de esferográfica, com grafite de lapiseira. Essa reflexão agora me queda. O que são esses resquícios, afinal? Diferentes de fotos, de presentes, da memória que ainda guarda intactos momentos e sensações, cheiros, toques, pêlos, a pele? Fizemos da palavra um meio diferenciado do nosso contato amoroso. Por certo outros terão feito o mesmo, mas não me importa: pela mesma palavra preciso e acredito que fossemos diferentes. E fizemos da palavra escrita a especificidade ainda mais marcante do nosso relacionamento, porque escrever nos uniu e afastou, porque de alguma forma o toque da palavra sempre foi macio, não, não digo macio, foi contundente, severo e profundo, (agora sim) fosse macio ou áspero fosse. As coisas que outros escreveram, importantes outros, outros clássicos, nos aproximaram muito, foram sempre o casamento de juntar na figura que você me era os expressivos olhos verdes, o cabelo louro, ora liso, ora com caracóis, a pele que se desfazia em olores que nem sabia se não tinham sido feitos só para mim, os seios que um médico disse serem lindos e realmente eram, e eram meus. A palavra escrita, traste (a palavra traste dava um capítulo à parte, inteiro, imenso e delicioso. Se isso não fosse um fingimento descarado, ia produzir mais literatura, usar toda a inspiração que você dava, ou me devolvia). Recomeço: a palavra escrita, traste, foi o princípio de tudo, e depois continuou sendo o liame que me fazia amar o seu jeito doce de estar em silêncio, e a forma linda e ideal de suas pernas e da sua bunda. E parece que foi assim sempre, até ao final, pois nunca deixamos de nos escrever. Todo o doloroso esboroamento do que éramos foi permeado pela nossa palavra escrita. Estou fora da imparcialidade de dizer, hoje, se isto não foi senão culpa minha, e a distância que se instalou (e isso foi culpa minha mesmo) açulava cada vez mais na mordida do escrever. Talvez tenha faltado juntar alguns cacos olhos nos olhos, mas, aqui não há culpa, ou a dividamos, se isso precisa, e precisa, afinal, ser escrito.

E precisa ser escrito. Este é o forte motivo de porquê não escrevo uma carta (que evidentemente seria um emeio, emeios que formam a figura congruente de toda a nossa peculiar escrita), porque não escrevo, mesmo e mesmo, uma carta. Então é um conto (dava para uma novela, mas não é a vez desse exercício de estilo, a vez é da minha primeira pessoa). Então é um conto. É um exercício de estilo, e ninguém saberá (eu não o sei) até aonde está a verdade. A palavra, agora, nos poderá divertir, já que talvez você nem exista, e essas invenções todas sejam a minha tentativa de ser um escritor, o escritor que você sempre acreditou que eu pudesse ser, e portanto, que eu devo, em benefício próprio, fazer tão bem feito que a faça existir de verdade. Então escrevo um conto, um conto que conta a história do que nos dizíamos, como nos escrevíamos, e que começa por identificar como marco inicial (dele, conto) o momento em que, dois anos e tanto depois, revi (ou inventei) sua letra redonda bordada num lugar que jamais poderia supor, fazendo a palavra escrita que não tínhamos mais assomar-me no meu dia-a-dia, esbofetear a golpes de caneta uma normalidade francamente alcançada.

Mas, por quê? Por que tudo voltou numa torrente de saudade, de ternura e ausência, tão fortes, tão decisivamente dispostas a mostrar que, enfim, eu não superei a perda? Alguns meses antes de vê-la escrita no manual do carro que eu pretendia trocar (trocar de carro, e em conseqüência, de manual) eu a vi (ou imaginei) em pessoa. Muito rápido, de costas, sentada na mesa de um bar improvável, bebendo com uma amiga, fumando um cigarro improvável com o seu namorado (creio que era seu namorado). Felicitei-me, na altura, pela racionalidade demonstrada do senhor que está a fazer-se velho que sou controlando, não só a atitude, como a pressão arterial, respirando profundamente (dessa vez sem arfar, a desculpa é que não havia uma escada, já a metáfora da despedida descera ou subira os degraus), num lamento que embora dorido, desanuviava a cabeça e a alma (se por acaso eu tenho alma). Então por quê? Por que a sua caligrafia me fez voltar a todos os outros escritos que tenho guardados comigo, ou junto nos livros, fazendo da saudade uma constatação mais do que física, uma constatação documental, quase civil?

É fim de dia, quase. É quase também o fim do conto. Afinal de contas precisei vir escrever este conto para gastar a literatura que não sei fazer — embora não desista dela — como retribuição da sua confiança (e será que era em mim?) em minha não-literatura. Sinto saudade de muitas coisas, como por exemplo, citar seu nome ou escrevê-lo (quase o fiz, você deve se lembrar de um outro conto que nunca consegui terminar e que levava seu nome no título, ou talvez não se lembre de mais nada). Sinto saudade de escrever seu nome mais do que de dize-lo, pois tudo quanto escrevia era uma maneira de escrever seu nome, muitas vezes sem precisar cita-lo explicitamente. E como isto aqui é um conto e está chegando ao final, e como este conto que agora chega ao final é um exercício de estilo, eu posso lhe dizer que embora não vá citar seu nome, poderia citar o meu, pois aprendi com o Amílcar Bettega Barbosa que a gente pode citar a gente mesmo quando a gente mesmo escreve um conto sobre a gente mesmo (e disso também sinto saudade, de lhe dizer quem é esse tal de Amílcar). Afinal, não me parece que eu tenha escrito um conto realmente. Mas, se isto não é um conto, nem uma carta, menos ainda um emeio, o que poderá ser? Benevolente comigo mesmo, sequioso da sua atenção, metido numa saudade que só sua letra redonda podia me trazer, desisto de procurar uma palavra para definir o que isto é, e que vai terminar como qualquer coisa que seja, e que surgiu por conta de uma frase, frase informativa, consoante com o que faço agora: informo que não sei se escrevi um conto e que desisti de achar palavra, mas sei quantos litros de ausência cabem no carro que não sei mais se quero vender: capacidade do tanque: 47 litros.

TERRA_COMMENTS (14)

26.07.07

TERRA_PERMA_LINK 12:33:45, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

México

Joguei como nunca, perdi como sempre.

TERRA_COMMENTS (7)

25.07.07

TERRA_PERMA_LINK 10:23:32, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Enfim algo interessante

Este blogue Bazófia está ficando enfadonho, cansativo e piegas.  Para a minha sorte e de quem por ventura ainda venha até ele, deixo aqui um endereço com texto lúcido, inteligente e preciso sobre o acidente com o avião da Tam e suas apropriações indevidas pela mídia.  Uma reflexão interessante que escapa do lugar comum:

http://tatianamachado.blogspot.com/

TERRA_COMMENTS (2)

19.07.07

TERRA_PERMA_LINK 23:04:38, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Breguice

Não há Ricardito Somocurcio no mundo que supere o fim de linha que é abdicar de leituras, cervejas ou barulho e quedar-se, vencido, ante a Rede Globo: quinta-feira vendo “A Grande Família” e lacrimejando por conta do enredo. Haverá grooving que me segure?

TERRA_COMMENTS (7)

13.07.07

TERRA_PERMA_LINK 00:33:46, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

O colecionador de ipê rosa

Na metade do mês de junho os ipês-rosa começam a florir. Como disse o jornalista Marcelo Leite, citando por sua vez um cientista de cujo nome não me lembro, o Ipê deveria ser considerado a árvore símbolo do Brasil. Ipês nascem do Acre até ao Rio Grande Sul, possuem uma capacidade adaptativa a terrenos e variações climáticas enorme, são duros, como o José que não morre. Parece-me serem cerca de nove as espécies de árvores que abrangem a categoria, sendo que não há sítio do país em que não se possa encontrar alguma delas. Os ipês florescem em amarelo, rosa, roxo e branco (até onde sei) e proporcionam um espetáculo tão bonito de se ver, que não é necessário ser muito mais sensível do que um besouro para quedar-se ao pé dum. Ouvi dizer que a madeira é das boas, mas, cara-de-pau-de-ipê que sou, nunca pesquisei.

Normalmente quando gostamos de algo, procuramos ler sobre, conhecer-lhe os meandros, os sinônimos onomásticos (se é que essa construção existe) e por aí adiante. Mas, o ipê me traz um prazer visual e táctil tão profundos, que não perdi tempo pesquisando sobre ele. Já está lá no manual prático de olhar e ver que eles são lindos e farfalham como poucas árvores. No mesmo manual, percebe-se no pé da página da rua tal esquina com tal e qual que eles variam muito de tamanho, não sendo raro encontrar troncos enormes que resultam em copas enormes, e ali adiante, na porteira do fim da estrada de terra, um miúdo. Ocorreu-me agora que a variação de tamanho pode ser por conta da idade, e não somente pela espécie. Mas, não ligo. Como disse, jamais pesquisei.

Exceto o Tabebuia avellanedae, que não é senão o ipê-rosa do início, flos dessa história, e que eu jamais poderia chegar ao nome científico por ouvir dizer. Aqui na minha cidade há ipês para todos os lados. Desconfio de que os amarelos sejam mais numerosos junto aos outros, mas o que ocorre com o rosa é uma apropriação das prerrogativas dos planetas e estrelas: quando floresce, o ipê-rosa eclipsa as demais árvores. E arrisco dizer, o que mais houver ao redor. Mania de aparecer, talvez; essas árvores resolvem dar as cores à luz num momento translacional em que a própria luz é tímida e, por isso mesmo, as matizes ficam escondidinhas, a ver no que dá. Dá no inverno árvores cor-de-rosa surgindo para acariciar com beleza um frio que tanto faz se é frio.

A cidade tem muitos ipês-rosa, e eu os coleciono. Coleciono o cor-de-rosa e não os de pigmentação vária por dois motivos básicos: a) porque no inverno estou mais propenso à introspecção que o tempo (que se não é o frio desejado, ao menos dá mostras) predispõe; b) porque sim. No inverno é bom sair pela rua a observar as coisas com olhos de ver. E as árvores, habitualmente exibidinhas que são à tal introspecção (introspecção só ao desatento parecerá contraditória com o ato de observar), dão em ipê exibidão no meio delas todas opacas. Ocorre também de o olhar ser um pouco mais que introspectivo no inverno, tornando a palavra (ou sua derivação, citada neste parágrafo quatro vezes) num eufemismo. Não sei se a beleza é mais bela quando afaga uma tristeza qualquer, mas a tristeza é sem dúvida mais pura quando afagada por alguma beleza.

Tal qual a minha coleção de miniaturas de santos católicos, que embora eu já possua, ainda não adquiri o primeiro exemplar, assim se dá a coleção de ipês-rosa. Não só não os catalogo, como não guardo registros fotográficos ou de outra natureza deles (parece óbvio que escaparia às minhas forças resgata-los de onde estivessem e planta-los num ipezário ao pé da janela do meu quarto). No princípio das câmeras digitais, saia a fotografa-los e depois organizava seus endereços, latitudes e longitudes numa pastinha do windows chamada ipês-rosa araraquara que foi deletada. A rentabilidade colecionadora sem dúvida demonstrava enormes ganhos, mas o déficit sentimental logo se mostrou impossível de arcar.

Não é mais nem menos bonito ver um ipê-rosa quando se está triste, como  também não é melhor ou pior vê-lo quando se está feliz. Pegar uma câmera e sair a pé pela cidade fotografando árvores é trabalho gostoso, demorado e sem sentido. Por maior que seja a cidade, e esta não é, os ipês acabam-se e há locais em que não se quererá ir, por isto ou aquilo outro, e então sobram duas soluções: a) pegar a câmera, o carro e ir para as cercanias ou bairros mais afastados caçar a malditas árvores; b) fotografar sempre as mesmas, que estão, por assim dizer, ao alcance das pernas. Como eu já argumentei, do ponto de vista volumétrico o carro serviria excelentemente ao desenvolvimento da coleção, mas, como também já argumentei, a perda sentimental não vale a pena. Isso porque a coleção de ipês tem de ser como a coleção de santos católicos: as possuo, mas, não tenho nenhum elemento individual que as possam comprovar. Parece complicado, mas é na verdade muito simples. É triste que gosto de ver ipês. É triste que posso caminhar devagar pelas ruas que me levarão a alguns deles, é triste que os posso colecionar juntinho de mim. E é por isso, sobretudo, que não faz sentido possuir fotografias deles, ou eles próprios, fosse isso possível.

Há o ipê-rosa da Faculdade de Ciências e Letras, ao lado do ponto de ônibus do campus. Há o ipê-rosa das costas do Senai, à rua Alto Garças. Também há, pertinhos, o da esquina da rua Itália com a avenida Portugal, ao lado do coreto da praça Pedro de Toledo, junto ao seu vizinho da mesma avenida Portugal com a rua Carlos Gomes, número 700, fundos. Há o da esquina da rua Padre Duarte com a avenida Duque de Caxias, dentro dos muros do colégio Progresso, e ainda o defronte à Faculdade de Farmácia, que aliás, é o primeiro da cidade a perder as flores todas, vários dias antes dos outros todos. E há, finalmente, porque muitos ainda há, o da avenida Hipólito José da Costa, tão pertinho do colecionador que serve muito bem quando a tristeza é pequenina, pequenina, ou tão grande que só dá pra chegar até a janela.

Hoje fui colecionar o ipê-rosa do colégio Progresso (sito ao endereço acima citado). Fiquei pensando que os ipês-rosa, embora dividam o nome com todos os outros ipês-rosa são sempre únicos, inconfundíveis, porque estão. Estão, e de onde estão não podem sair. Por pior que isto seja, jamais serão estrangeiros aqui, como em toda a parte. Demorei-me olhando para o ipê-rosa e me aproximei para ficar bem debaixo de sua fronde: eu não contei a ninguém, mas o farfalhar dos ipês-rosa produz neve cor-de-rosa. As flores caem muito tranquilhas, como se a árvore estivesse chorando de mansinho. Chorando sem soluço um chorinho de criança feito uma poalha. Se a gente se deixa estar em baixo da árvore, recebe de encontro as flores que mal tocam o corpo, e assim parece um abraço mandado à distância, prometido na outra estação e que nunca se chegou a receber. É claro que sempre se pode abaixar, tomar uma flor cor-de-rosa da calçada e, já que se agachou, ficar no rés-do-chão deitado, olhando de outra perspectiva o esboroamento das formas reprodutivas do ipê-rosa. A tristeza então é tão bela, que nem é preciso fechar os olhos para escutar os galhos da árvore executarem em dó menor o adagio cantabile da Sonata número 8, Opus 13 do Beethoven. Pathetique.

(por óbvio, não há foto de um ipê-rosa).

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