

10:38:32, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano MachadoMANUAL DO PROPRIETÁRIO
“ A sua lembrança me dói tanto,
que eu canto pra ver se espanto esse mal.
Retrato sem cor, jogado aos meus pés,
Saudades fúteis, saudades frágeis,
Meros papeis(...)
(...)Sobrou desse nosso desencontro
um conto de amor, sem ponto final(...)”
Chico Buarque in “Desencontro”.
Quando foi a última vez que olhei o manual do meu carro? Antes de hoje, não fazia a menor idéia. De chofre o interessado me perguntou quantos litros cabiam no tanque de combustível e me lembrei que uma vez eu tinha anotado, na parte de “anotações”, ao final do manual do proprietário. Estávamos em frente à minha casa, e embora já passasse das seis e meia, um sol fortíssimo torrava nossas cabeças. Praguejei contra o horário de verão e o homem concordou. Sentei de lado no banco do carona, peguei o conjunto plástico que abriga o dito cujo e outros documentos, papéis de seguros, revisões etc. Fui para as últimas páginas, abri, e dei com isto: “Capacidade do tanque: 47 litros”.
Faz mais de dois anos que nos separamos e a vida segue seu ritmo normal. Já tive outras mulheres, você, ao que me consta, outros homens, parece até que está apaixonada por um neste exato momento em que tenho de deixar o comprador à espera de um outro dia, para gastar, frente ao ecrã, isto que venho chamando de literatura e afinal não é. Capacidade do tanque: 47 litros. Lá está, grafado a caneta preta, numa letra redonda, cheia, alta, firme. A sua letra. A mesma letra das anotações avulsas no livro de alemão, a mesma letra das dedicatórias dos livros presenteados (foram tantos, tão importantes), a mesma letra de alguns cartões, recados furtivos, uma coleção de resquícios gravados em papel normalmente ordinário, com tinta de esferográfica, com grafite de lapiseira. Essa reflexão agora me queda. O que são esses resquícios, afinal? Diferentes de fotos, de presentes, da memória que ainda guarda intactos momentos e sensações, cheiros, toques, pêlos, a pele? Fizemos da palavra um meio diferenciado do nosso contato amoroso. Por certo outros terão feito o mesmo, mas não me importa: pela mesma palavra preciso e acredito que fossemos diferentes. E fizemos da palavra escrita a especificidade ainda mais marcante do nosso relacionamento, porque escrever nos uniu e afastou, porque de alguma forma o toque da palavra sempre foi macio, não, não digo macio, foi contundente, severo e profundo, (agora sim) fosse macio ou áspero fosse. As coisas que outros escreveram, importantes outros, outros clássicos, nos aproximaram muito, foram sempre o casamento de juntar na figura que você me era os expressivos olhos verdes, o cabelo louro, ora liso, ora com caracóis, a pele que se desfazia em olores que nem sabia se não tinham sido feitos só para mim, os seios que um médico disse serem lindos e realmente eram, e eram meus. A palavra escrita, traste (a palavra traste dava um capítulo à parte, inteiro, imenso e delicioso. Se isso não fosse um fingimento descarado, ia produzir mais literatura, usar toda a inspiração que você dava, ou me devolvia). Recomeço: a palavra escrita, traste, foi o princípio de tudo, e depois continuou sendo o liame que me fazia amar o seu jeito doce de estar em silêncio, e a forma linda e ideal de suas pernas e da sua bunda. E parece que foi assim sempre, até ao final, pois nunca deixamos de nos escrever. Todo o doloroso esboroamento do que éramos foi permeado pela nossa palavra escrita. Estou fora da imparcialidade de dizer, hoje, se isto não foi senão culpa minha, e a distância que se instalou (e isso foi culpa minha mesmo) açulava cada vez mais na mordida do escrever. Talvez tenha faltado juntar alguns cacos olhos nos olhos, mas, aqui não há culpa, ou a dividamos, se isso precisa, e precisa, afinal, ser escrito.
E precisa ser escrito. Este é o forte motivo de porquê não escrevo uma carta (que evidentemente seria um emeio, emeios que formam a figura congruente de toda a nossa peculiar escrita), porque não escrevo, mesmo e mesmo, uma carta. Então é um conto (dava para uma novela, mas não é a vez desse exercício de estilo, a vez é da minha primeira pessoa). Então é um conto. É um exercício de estilo, e ninguém saberá (eu não o sei) até aonde está a verdade. A palavra, agora, nos poderá divertir, já que talvez você nem exista, e essas invenções todas sejam a minha tentativa de ser um escritor, o escritor que você sempre acreditou que eu pudesse ser, e portanto, que eu devo, em benefício próprio, fazer tão bem feito que a faça existir de verdade. Então escrevo um conto, um conto que conta a história do que nos dizíamos, como nos escrevíamos, e que começa por identificar como marco inicial (dele, conto) o momento em que, dois anos e tanto depois, revi (ou inventei) sua letra redonda bordada num lugar que jamais poderia supor, fazendo a palavra escrita que não tínhamos mais assomar-me no meu dia-a-dia, esbofetear a golpes de caneta uma normalidade francamente alcançada.
Mas, por quê? Por que tudo voltou numa torrente de saudade, de ternura e ausência, tão fortes, tão decisivamente dispostas a mostrar que, enfim, eu não superei a perda? Alguns meses antes de vê-la escrita no manual do carro que eu pretendia trocar (trocar de carro, e em conseqüência, de manual) eu a vi (ou imaginei) em pessoa. Muito rápido, de costas, sentada na mesa de um bar improvável, bebendo com uma amiga, fumando um cigarro improvável com o seu namorado (creio que era seu namorado). Felicitei-me, na altura, pela racionalidade demonstrada do senhor que está a fazer-se velho que sou controlando, não só a atitude, como a pressão arterial, respirando profundamente (dessa vez sem arfar, a desculpa é que não havia uma escada, já a metáfora da despedida descera ou subira os degraus), num lamento que embora dorido, desanuviava a cabeça e a alma (se por acaso eu tenho alma). Então por quê? Por que a sua caligrafia me fez voltar a todos os outros escritos que tenho guardados comigo, ou junto nos livros, fazendo da saudade uma constatação mais do que física, uma constatação documental, quase civil?
É fim de dia, quase. É quase também o fim do conto. Afinal de contas precisei vir escrever este conto para gastar a literatura que não sei fazer — embora não desista dela — como retribuição da sua confiança (e será que era em mim?) em minha não-literatura. Sinto saudade de muitas coisas, como por exemplo, citar seu nome ou escrevê-lo (quase o fiz, você deve se lembrar de um outro conto que nunca consegui terminar e que levava seu nome no título, ou talvez não se lembre de mais nada). Sinto saudade de escrever seu nome mais do que de dize-lo, pois tudo quanto escrevia era uma maneira de escrever seu nome, muitas vezes sem precisar cita-lo explicitamente. E como isto aqui é um conto e está chegando ao final, e como este conto que agora chega ao final é um exercício de estilo, eu posso lhe dizer que embora não vá citar seu nome, poderia citar o meu, pois aprendi com o Amílcar Bettega Barbosa que a gente pode citar a gente mesmo quando a gente mesmo escreve um conto sobre a gente mesmo (e disso também sinto saudade, de lhe dizer quem é esse tal de Amílcar). Afinal, não me parece que eu tenha escrito um conto realmente. Mas, se isto não é um conto, nem uma carta, menos ainda um emeio, o que poderá ser? Benevolente comigo mesmo, sequioso da sua atenção, metido numa saudade que só sua letra redonda podia me trazer, desisto de procurar uma palavra para definir o que isto é, e que vai terminar como qualquer coisa que seja, e que surgiu por conta de uma frase, frase informativa, consoante com o que faço agora: informo que não sei se escrevi um conto e que desisti de achar palavra, mas sei quantos litros de ausência cabem no carro que não sei mais se quero vender: capacidade do tanque: 47 litros.