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16:28:59, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano MachadoHoje conversei rapidinho com a minha irmã mais nova, a Elka, e ela me falou do vestibular, estava esperando o resultado da prova que houvera feito. Então me lembrei de dois textos que escrevi quando eu prestava os vestibulares da vida, no ano ido longe de 1996. Achei os textinhos e achei neles um comichão de algo confuso, uma falta de sentido que verifico ainda hoje, onze anos depois.
(Macambúzio percebo que os dois últimos postes têm onze anos de distância e que não só meu vocabulário continua o mesmo e reduzidíssimo como o estilo não evoluiu nem melhorou. Acho bom soprar o pó do meu diploma do Senai de serviços gerais, e parar de usar 'sequioso' e 'consoante'. Maldito Saramago.)
A Grande Prova
Sentado numa cadeira do salão de leituras da Biblioteca, ocupava-me com a morfologia do terreno brasileiro, planaltos, planícies, 36 % de terrenos cristalinos. Meu pensamento uma bacia (nem perto de sedimentada) de dúvidas, confusões de espírito. Se o que eu queria mesmo era passar no vestibular, por que diabos não concentrava nas eras geológicas minha lancinante esfera cerebral? Saber eu não sabia, e ainda o não sei, passado já tanto tempo e nada mais importando como agora é. É certo que por tarde ensolarada do início de dezembro, incitava-me ao empreendimento fascinante de apresentar ao mundo a Nova Filosofia Existencial que há já tanto tempo me dedicava. Sequioso de buscar por entre as baças janelas da Biblioteca aquele sentido oculto e maior da vida (que mesmo cavando até perto do magma a Planície Amazônica jamais encontraria nas ciências geográficas) olhava a cena de fora imerso no silêncio de dentro.
Eu estava perdido naquele tempo. Há quanto tempo, meudeus! E se, deusmeu, já naquele tempo soubesse o quão vã é a geografia e o Direito — que pretendia cursar —, até mesmo a filosofia? Pobre cabeça de jovem a minha, de jovem inseguro e um pouco atrasado mesmo na juventude. Cria que o mais importante era passar no bendito maldito vestibular. Só mesmo hoje, passado tanto tempo, tanto tempo, — chegada já a noite — é que posso olhar para frente, recolher meu material da mesa (apontamentos morfo-climáticos do Brasil), esquecer o esboço da filosofia e ir-me embora pra casa da minha mamãe sabendo que nada importa. Afinal de contas tenho de estudar Roma e Grécia e o período Vargas, já vamos lá há dez dias da Grande Prova Final
Ao Final da Prova Vestibular
ou A lição do Caminho
Quando passou da sala para o pátio exterior, logo no primeiro degrau à porta de saída, deparou-se com o relógio branco e vermelho onde se destacavam o logotipo e a sigla da instituição coordenadora da prova, apontando dez minutos para as dezoito horas. Supôs, de fato, que fosse para se contar estas horas mesmo, pela dificuldade do exame e também o incômodo que a desconfortável cadeira lhe causara. Juntando tudo isto parecia-lhe ter passado quase quatro horas sentado na sala quente, como deveras houve.
Assim que baixou a cabeça da visão do relógio vermelho e branco, oscilou-a para os lados a verificar o movimento no pátio. Contou bastantes pessoas, algumas usando o colete amarelo que designava o fiscal de prova, e as outras, o grupo maior, sem caracterização específica no vestuário, afora o tamanho dos trajes consoante o enorme calor que fazia. Os grupelhos distinguiam-se também porque os fiscais encontravam-se sentados ou em pés, mas parados, enquanto os candidatos estavam em trânsito, saindo do pátio à porção descoberta do prédio e depois ao portão principal que dava para a rua, e era tanto quanto sua vista podia alcançar.
Porque fazia intenso calor, levou naturalmente a mão direita a enxugar o suor da testa, mas notou que o que lhe tocara a fronte era o punho. Percebeu então que havia esquecido a mão direita na classe, provavelmente em cima da carteira em que fizera a prova. Pensou que talvez, dado o grande esforço e às várias horas escrevendo, a mão direita se tivesse desprendido do punho e caído na mesa quando entregou as folhas com as respostas. Como havia apanhado as canetas e o lápis com a mão esquerda, não se dera conta da perda. Estava há uns três metros da porta da classe quando parou pensando se deveria voltar para pegar a mão direita. Mas acudiu-lhe o fato de que não teria mais provas a fazer e que a única utilidade da mão direita era escrever nos exames vestibulares. Tendo assim pensado, continuou a andar para a saída imaginando que não valia a pena o esforço de voltar para resgatar a perdida mão.
Continuou andando a reparar, agora menos, nas pessoas que estavam à sua volta. Os semblantes, de qualquer modo, eram mais ou menos os mesmos que o seu, cansados, ansiosos por saber como se teriam saído nas provas. Assim que passou do pátio à parte descoberta que dava para o portão da rua assomou-lhe o sol, quente ainda nesses nossos horários de verão. De imediato quis lembrar-se de uma questão da lição de matemática que ficara em dúvida e tratava dum cálculo angular usando o sol como ilustração. Esforçou-se mas não conseguiu recordar-se. Aliás, nem conseguiu se lembrar se fizera prova de matemática. Tentou pensar no porquê do olvido e também foi baldado seu esforço, perdera o pensamento e a memória no caderno de respostas, provavelmente numa questão de física que não conseguiu resolver. Como estivesse a poucos metros do portão de saída e sabendo que não precisaria mais do pensamento e da memória, uma vez que não tinha mais exames e aqueles só lhe serviam para o estudo e reflexão das questões, achou por bem não cansar as pernas voltando à sala já distante.
Chegou ao portão, viu a rua e os candidatos que já haviam acabado o exame. Muitos deles estavam sentados nas sarjetas esperando sabe-se lá o quê, com a folha de questões na mão. Alguns usavam-na como leque, outros como guarda-sol, outros ainda como luneta a mirarem pelo buraquinho quiçá o futuro. Quando observou toda a cena exterior e percebeu-se livre dos fiscais, do prédio, e acima de tudo da prova, quis experimentar uma sensação de alívio e felicidade, mas não pôde, nada sentiu. Notou, então, que havia perdido os sentimentos na famigerada sala já tanto citada, provavelmente no primeiro dia, no instante em que, autorizado para começar as resoluções, desejou mais do que tudo responder corretamente às perguntas e entrar na sonhada faculdade. Não quis voltar a reavê-los, se fosse aprovado no vestibular, certamente não precisaria dos sentimentos na universidade.