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17.05.07

TERRA_PERMA_LINK 18:00:26, TERRA_CATEGORIES: Escatalógico. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

As flores de plástico

As Flores de Plástico

"As flores de plástico não morrem..."

    Há modalidades de flores de plástico. As mais comuns são, evidentemente, àquelas destinadas aos mausoléus, ataúdes e sepulturas de todos os materiais e imagens, além das formas e tamanho. O trajeto dessas flores plásticas é claustrofóbico, porque saem da fábrica em caminhões que as transportam a distribuidores que as revendem às floriculturas que ladeiam os cemitérios. Carregam consigo sempre alguma poeira, que se vai amealhando logo mesmo na planta de produção, passando pelo já citado veículo até chegar ao depósito onde, enfim, alojam-se. Nas floriculturas sobram-lhes as câmaras traseiras escuras, pois é certo que à vista as flores vivas (ainda vivas. A maioria já foi desligada da terra) têm preferência de mostrar seu colorido. Contudo, uma outra espécie existe. São essas as flores de plástico decorativas, fabricos usados em decorações do que se chama ambiente. Banheiros, salas, saletas, garagens, algumas sacadas, cozinhas e sobretudo nas áreas de convívio das chácaras, onde, aliás, elas são depositadas e ajeitadinhas, normalmente, juntas de flores e plantas de verdade, isto é, aquelas que possuem seiva a lhes correr.

    É certo que ambas as modalidades não necessitam de água e não morrem com facilidade, visto que, na maioria das vezes, são realmente feitas de plástico, material este que leva, dizem-nos sempre os ecologistas, mais de 150 mil anos para se desintegrar. Embora elas tenham a mesma composição e método de manufatura, somente a um observador bastante desatento seria dado imaginar que não há diferenças entre umas e outras, apesar do jaez em comum.

    As flores de plástico de cemitério têm matizes frias, tendentes sempre ao azul e ao preto na escala de valor. Daí se preferirem as madrepérolas, as geisas, as violetas, e sobretudo a boa-morte. Quando chegam aos jazigos, são depositadas com calma, e as lágrimas, quando as há, a despeito de salgadas, só servem para fazer limpar um pouco o pó supracitado, num efeito paliativo, ou antes, enganador: a superfície que se molhou com a gota, será tanto mais convidativa para o acúmulo de outras e mais sujidades a que estão sujeitos os cemitérios.  Depois, são lá esquecidas, e só visitadas aniversariamente.  À mercê do tempo e do clima, das bátegas diluvianas, do sol acachapante, do vento, da poalha de inverno, são desgastadas e corroídas pela força assaz persuasiva do tempo, tendo seu material compositivo sobejados motivos de se esboroar.  Não nos esquecendo de que as cores escuras maior quantidade de luz absorvem, o que acelera o processo.

    De maneira diferente, a outra modalidade de flores de plástico são de cores quentes da alegria, da diversão, do sangue, da vida. Por isso mesmo representações de rosas, dálias, copos-de-leite, sanvitálias, miosótis, quando não girassóis mesmo. Maneirinhas ao lado das flores de verdade em jardineiras e outros demais lugares citados, apanham o sol fracionado por janelas de vidros e outras proteções urbanísticas, mas, se estão ao ar livre, primas espaciais das verdadeiras, nunca tomam o sol na fronte todo o dia, e não se esturricam. Também o pó não lhes bafeja, uma vez que dado o ambiente salubre em que vivem seja sempre higienezado, e ainda por vezes lhes sobram umas gotículas animadas do que é aspergido às suas companheiras reais.

    Ante o exposto, seria de se esperar que as flores de plástico da primeira categoria — quais sejam as atávicas da celebração da morte, ou sua memória — deveriam durar bastante menos que suas irmãs festivas, pouco degeneradas no seu dia-a-dia contente, ao lado, não só de flores vivas, mas também de pessoas vivas. Entretanto, a verdade comprovada cientificamente nos manuais práticos de olhar e ver é que o lapso temporal de existência e durabilidade das flores plásticas dos cemitérios é maior, de modo que suas irmãs enfeitadoras de banheiros, copas, salas e jardineiras, são trocadas amiúdes e substituídas muito mais rápido do que o seriam as outras, caso houvesse interesse premente na ação.

    Por um mecanismo já bastante conhecido do evolucionismo, lograram as flores de plástico de cemitério uma adaptação, talvez por mimetismo, às condições hostis do ambiente em que vivem (e dos esqueletos que reverenciam), sobretudo do ponto de vista metafísico, quando puderam se aperceber de que não se pode perder muito de um líquido que cai gota a gota. Da percepção prostrada do caráter transitório da vida, do desapego mecânico com que puderam ao longo dos anos notar que nem mesmo a memória resiste à morte, adaptaram-se fisiologicamente a viver sem nenhuma espécie de sorriso ou esperança — e por isso sem movimento —, o que é largamente conhecido como uma eficiente maneira de economizar energia. Suas irmãs risonhas, flores de plástico de jardineiras e decorativas de ambientes, pelo mesmo processo destilado acima, amolgaram-se pelo modos vivendi de suas companheiras vivas, atentas a todo instante aos movimentos, cores e sons da festiva existência humana. Os homens duram pouco, e as flores que os homens plantam, duram menos ainda. Na tentativa de aproximação de seus pares, as flores de plástico dessa categoria passaram a durar bastante menos (ainda que imarcescíveis), o que se tornou num dos fatores da redução categórica de sua produção, por conta de terem correspondido com ineficiência na margem do lucro. Em contrapartida, pôde-se observar um aumento na luminosidade dessas flores de plástico, já que com as companheiras vivas aprenderam que aquilo que rápido se extingue mais brilho oferece.  Essa tendência evolutiva das flores de plástico felizes vem se tornando num paradoxo da teoria, uma vez que o caminho natural é a aniquilação da espécie.  Não obstante isso, parece ao final concorreu-se para que haja aí um primeiro e último gene de contato com as suas irmãs flores de plástico de cemitério, qual seja a percepção arrastada ao longo dos séculos de que afinal, à morte, ninguém pode fazer esperar eternamente, corroborando com isso o príncipe hamlet, que muito anteriormente havia dito que se não sabemos nada daquilo que aqui deixamos, que nos importa deixa-lo antes?

(Na foto, flores de plástico e respectivos materiais para o fabrico manual das atavias)

TERRA_COMMENTS (10)

03.04.07

TERRA_PERMA_LINK 11:22:13, TERRA_CATEGORIES: Escatalógico. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Terça feira

    O Carlos Heitor Cony me disse, por esses dias, que a má vontade que dedicamos à segunda-feira, ele estica para o resto da semana. Ora, tomo-lhe a expressão ou antes o sentimento, para dizer que o sorriso da terça-feira me enfastia.

    A segunda mal existiu, tão obscenamente foram suprimidos exercícios de pensamento, físico, social. Passou na modorra da manhã, da tarde, da noite. O jornal não foi lido. Ingênua decisão saltar assim a segunda, supondo começar na terça a semana. Martes tornou-se lunes pero no mucho, mal resolvida, que no ocaso de uma alma também indecisa, aguou, e o mesmo promete o resto dos cinco dias.

    Irônico, o tempo surgiu lindo, blasfemo, cheio de sol. Os felizes e sadios esbaldam-se, passada a segunda-feira sonolenta e estando esta terça tão gorda, ainda que o calendário marque já tantos dias adiante da quarta-feira de cinzas. 

    Haja sorrisos, piadinhas, clichês...  Não há mais guerras?  Não há mais fome?  O aquecimento global agora é esfriamento?  Os bancos estão a dar dinheiro a qualquer um?  Cientistas sintetizaram o orgasmo em pílula?  Arre, pessoas todas felizes por viver, esperançosas por nada, otimistas por convicção, ao diabo!...  Vou dormir, pois amanhã é quarta, talvez chova até ao dilúvio, ou bem caia um meteoro no meio da América do Sul.

 

TERRA_COMMENTS (2)

30.03.07

TERRA_PERMA_LINK 20:02:00, TERRA_CATEGORIES: Escatalógico. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Utilidade Pública

Citadinos (deste e de outros Estados, por ventura),

    Há um ser desprezível e vil que se julga o centro do universo e crê que salvará a humanidade. Porque alguém lhe dissesse, então é diferente, e estando tudo errado, é ele o certo. É uma pessoa que imagina merecer muito mais do que tem e sempre espera a cobrar do mundo desconcertado os benefícios que não logrou êxito. Inteligência sutil, maior, mais limpo, mais belo, mais alto, exemplo explícito do que melhor pode haver, assim crendo, quase se engana ou até: investe em arrancar elogios julgando merecê-los, retira-os aos mais ingênuos. Sobeja-lhe um certo lábio desenvolto e, então, o que deveria ser espontâneo e o não é, por não poder ser, assoma, e regozija-se, e pede mais agrados, assim por uns ou outros crédulos consegue-lhes a inverdade, quando não dinheiro.

     Mas é a precisão de que necessita este torpe homem: “és belo, és sábio, és incompreendido, és o melhor, te não dão o valor que mereces, quando te descobrirem..., és tão bom que és humilde...” Há o exagero em seu pensamento, que nem impingindo conseguiu arrancar. Mas, Ah! Basta-lhe! precisa de ouvir tudo isso! E ainda acha que enxerga, e crê que observa, e presume que encadeia, pensa que pensa, mais, mais e mais. Assume as farsas que criou: escreve, joga, estuda, compõe, cria, dedica, revela, ensina, demonstra, ajuda, perdoa, compreende, cobra, recobra, se indigna... e anda a fazer isso com tanta verdade que, pasmem, julga! Então, é pior, porque sai a julgar a tudo e a todos e se sente melhor ou se sente acima, no pedestal de mentira que ele mesmo erigiu. Não polpa ninguém, nem mesmo a si: quanta vileza, quanto asco me causa, pois se pode julgar a si próprio, passa à vista e sabe o que é e não toma em conta.

     Assusto-me ao pensar que sabendo quem seja de verdade, e o quanto de mal está a causar a tanta gente, não se importe qualquer pouco que fosse. Meus colegas de cidade, causa-me pena e torço pelo contrário, imaginar que um dia, por azar outorgado do destino, algum de vocês cruzou com tão torpe e vil e reles pessoa em suas vidas. Estejam atentos, denunciem, saiam correndo aos gritos. Não descartem, inclusive, o uso de pedras e paus.

p.s. - eu tinha vontade, mas só pude escrever isso a pedido de Zuckerman, claro.

(Na foto, Djinn de El Khaimah)

TERRA_COMMENTS (10)

26.03.07

TERRA_PERMA_LINK 12:56:17, TERRA_CATEGORIES: Escatalógico. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Escatologia Bush

Abaixo o endereço para o texto "Quando Bush vier ao Brasil", do blog de Hanny. Eu já tinha em mente usar as duas acepções de escatológico nas crônicas, mas, não me surgira uma tão boa idéia de fazê-lo ao mesmo tempo. O texto no sítio é o de oito de março.

http://hannysaraiva.blogspot.com/

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06.03.07

TERRA_PERMA_LINK 16:59:13, TERRA_CATEGORIES: Escatalógico. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Capinar

Quando a necessidade nos empurra a capinar é que a coisa já não vai bem, não sendo esse o nosso ofício de comum. Ou são férias. Mas, a coisa ainda não vai bem, porque além dos montes há a praia, quase sempre. O caso é que fui capinar a calçada da casa em que moro (há uma distinção tão fundamental entre "a casa em que moro" e "a minha casa" que este parêntese é tolo). Dizia que fui capinar a calçada da casa em que moro com o sol das onze ardendo na cabeça. Claro, escolhi o sol a pino para me dar o sofrimento cúmplice do que então imaginava ser pegar na picareta e na enxada. Calção velho, chinelos havaianas, sem camiseta, e o mais ridículo: o celular no bolso (junto ao controle do portão elétrico).

A calçada não é pequena para o meu gosto. A frente da casa terá qualquer coisa como 25x10m, e o calçamento não foi terminado, estando no cimento, com os recortes delimitados no que seria, imagino, a futura cobertura acabada. Ou então deixou-se assim para tornar num jardim rupestre, o que até não desagradaria, a despeito de ser absolutamente óbvio, pela quantidade de ervas daninhas que me esperavam, que de rupestre ali planta alguma poderia ser chamada. O muro tem hera em cima de si, o que se não faz diferença na faina de capinar, soma-se com peso grande na hora de limpar, já que as folhas verdes e as folhas secas caem num choro de criança desautorizada no doce: devagar e sempre, soluçando. Curioso como uma simples calçada inacabada pode servir de espelho do que vai ficando por terminar nas construções humanas (escusado dizer que não só as de alvenaria, há calçada para tanto gosto e paladar da terra até ao céu das nossas filosofias).

Os buracos que a chuva vai esculpindo no piso, junto à depressão do terreno e à força das raízes das ervas daninhas, que é bom que se diga há algumas parrudas, são muito cheios. Então eu meti a picareta com a ponta mais aguda no primeiro que vi pela frente e fui cavoucando pra ver o quanto saia. Terra, mato, mato, terra, caramujo, formigas, outros insetos que não identifiquei, uma sujeira que não sei bem o que seja, farelo de folhas secas, restos de penas etc. Pode até ser que o Manoel de Barro encontre beleza nessas coisas miúdas e outros ciscos, mas, pondo a mão na massa, não é tão edificante assim, ou desedificante, como queria o poeta.

A atividade não chega a variar muito de escarafunchar a terra com a picareta, arrancar o mato com as mãos, varrer para a sarjeta os detritos despojados do buraco. O que acontece, entretanto, é que bastantes buracos não passam de nesgas, frinchas onde a gente tem que meter a mão e uma chave de fenda (não sou profissional da coisa, se há equipamento apropriado, e imagino que haja, não sei qual é) na fendinha e ir puxando a porcariada. Que merda. Merda mesmo. As plantinhas menores normalmente estão assentadas na fissura com bosta de animal (suponho que cachorro e gato, mas a gente sabe que os muros e calçadas com muito verde são os preferidos para a evacuação de mendigos e bêbados). E essa bosta, em alguns casos quase petrificada, não deixa de feder e de ser desagradável ao tato. Curioso como meter a mão nos buracos das calçadas que ficaram por construir e achar nela merda não deixa de ter o seu paralelo num olhar paras as nesgas do nosso passado, e o que nele muitas vezes encontramos de sujidade.

Como não dá pra ficar lavando a mão de buraquinho em buraquinho, a sujeira que se vai acumulando nas mãos e no corpo (com a ajuda do suor que o sol do meio-dia, treze horas, quatorze horas) torna-se preta e uniforme, e depois de um tempo o nariz se acostumou ao fedorzinho. E se tem porventura coco debaixo das unhas, não se poderia identificar sem um exame químico, porquanto a gente prefira nesse caso ver barro escuro onde merda há. Planta e terra são trecos que coçam e se espalham, motivo pelo qual da cabeça aos pés há pó de detritos, além de uns pontinhos vermelhos e muito irritantes de alguma alergia que não se saberá ao certo.

Saldo da brincadeira: 1)uma calçada limpa de ervas daninhas; 2) uma sarjeta com montinhos de ervas daninhas, terra, areia, ciscos, insetos e merdinhas juntados geometricamente a cada metro, pois a preguiça se esgotou a quando de colocar no saco de lixo; 3) uma vassoura quebrada pela inépcia do condutor; 4) um cidadão que parou de ler "As transparências do mal" porque pensou que seria mais útil colhendo erva daninha, de dedos com bolhas, sujo até a cabeça de barro e caganitas, além de estar com o lombo torrado do sol e cansado como se muito houvesse trabalhado; 5) e o pior, é que como não tem paciência de ir, agora, cuidar da hera do muro, vai tomar banho e reler todos os textos da celeuma envolvendo o Renato Janine Ribeiro a ver se tem algo forjadamente criativo para escrever, num texto que postará em seu blog, afim de que o vejam inserido no debate intelectual do Brasil que não capina merda nenhuma.

p.s. - o "saldo da brincadeira" enumerou-se para que eu pudesse avacalhar-me em terceira pessoa sem exacerbado dramatismo. Tive êxito?

(Na foto, índios capinando em foto de Morgado Viana e José Luis Santos)

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