

20:14:29, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano MachadoPorque ele tinha achado o termo que considerava perfeito. Porque tinha decidido o palco e preparado o cenário. Hamlet contemporâneo, personagem de sim mesmo, sincero acima de tudo por seu fito justificar o meio. Era a mulher de sua vida e não poderia haver problema ético ou moral em se preparar, em estudar, em pensar nos pormenores que concorreriam para que voltassem a ficar juntos. Ele a amava, muito. Perdidamente. E se armar para a batalha do amor e da reconquista não deveria causar protesto.
Escolheu o melhor ipê da cidade. Marcou um horário ameno, ao entardecer. Quisera fosse outro o dia da semana, mas a premência das coisas não permitia vacilo. Não se arrumou muito, não exagerou no perfume. Diretor calejado, sabia que os exageros agora só poderiam furtar atenção à cena principal. O que interessava era o texto. O texto que tão bem soubera encontrar dentro de suas entranhas. Mentira, ele pensava: resultado de labor, de exame de consciência, de razão. “O amor tenho-no enorme, e é ele quem me impele a colocar a inteligência a formular os motivos que me poderão trazer de volta a razão única desse mesmo amor”.
Resolvera no limiar do encontro marcado que não bastaria apenas dizer tudo que há para dizer, e que podia se permitir. Por mais que sua capacidade oratória estivesse treinada para o momento, nada venceria a força assaz persuasiva de sua escrita. E não que se considerasse o maior escritor do mundo, mas todo o crescimento de sua relação com ela se dera permeado pela palavra escrita. Então escreveu um bilhete. Nesse bilhete sintetizou o argumento que considerava fundamental para que ficassem juntos. Foi trabalho hábil, talhado com suor e revisão.
Embaixo do ipê, no costado do jardim da praça do coreto, se abraçaram demoradamente. Ele falou primeiro:
— Eu te amo, te amo muito, não é possível que não vamos ficar juntos...
— Eu também te amo...
Seguiu-se um silêncio arfante e as sanvitálias, que em princípio queriam que eles dali saíssem para aproveitarem a última réstia do sol, ficaram mudas de um ventinho miúdo que trouxe uma poalha de despedida. Ela falou:
— Nós já sabemos que não dá mais... Por mais amor que ainda...
— Ainda existe! Eu não sei como dizer isso, não sei que palavras usar...Eu só queria estar do seu lado, cuidar de você. Nós somos muito parecidos, somos melancólicos e estranhos, mas ao mesmo tempo ninguém consegue se divertir como nós conseguimos quando estamos juntos...
— De que adianta tudo isso? Tudo isso já foi dito e repetido. Só vim entregar seu livro e suas coisas.
— É isso mesmo, eu não sei dizer quando tenho que dizer. Por isso escrevi um bilhete, era pra você ler agora, eu ficaria aqui quietinho esperando. Mas não está neste livro aqui, coloquei em outro, me confundi, ficou em casa.
— Adeus, suas coisas estão aqui. Eu preciso ir.
— Posso mandar o bilhete para o seu endereço?
— De que vai adiantar? Eu estou indo embora.
Ela estava sentada em minha frente, mas não me olhava. Reparava somente na capa do livro, e eu não queria incomodar o seu pensamento, mas precisava partir. Falei com tristeza e doçura, recuando a mão antes de completar o movimento de tocar a mão dela:
— Ele me contou essa história desse jeitinho, dois ou três dias antes daquela quinta-feira terrível. Eu não posso dizer que ele sabia o que iria acontecer, mas estava tão triste e entregue que eu adivinhava algum movimento muito difícil.
— Foi essa a primeira vez que ele falou do bilhete?
— Foi a primeira vez. Esse livro ficou em minha biblioteca por quatro anos, intocado, e mesmo depois de tudo quanto ele me disse, só ontem tive condições de vir aqui abri-lo, porque sabia que precisava entregá-lo a você.
— Ele não me disse que o livro em que tinha colocado o bilhete era seu, mas naquela altura eu também não dei nenhuma atenção.
— Agora mais nada importa. Eu só queria que você ficasse com o bilhete, e se não for pedir muito, com o livro também...
Ela pegou o livro de cima da mesa, leu em voz alta o título “Os sermões, Padre Antônio Vieira”. Alisou a capa dura e azul, um livro antigo mas bem cuidado, de impressão agradável aos olhos, um pouco ofuscados que estavam pela claridade da manhã. Abriu-o e encontrou o bilhete, desdobrou sua única dobra e tencionou ler em voz alta, ao que eu protestei:
— Isso não me diz respeito, é de vocês.
Ela continuou sem se importar com o que eu houvera dito:
— “Às vezes tenta-se dizer coisas indizíveis como eu tentei agora há pouco. E tudo se confunde, porque não dá para precisar em palavras o encantamento da alma de quem quer, como eu quero, simplesmente, delicadamente, estar ao seu lado. Estar ao seu lado para qualquer coisa, cuidar de você como quem se roja aos pés de algum santo. É certo que não sou o mais forte do mundo, e nem incondicionalmente posso prometer ficar aqui, mas é contigo que quero ficar. Somos estranhos, diferentes, melancólicos, tristes. Ao mesmo tempo somos alegres, engraçados, e ninguém mais ri como nós rimos quando estamos um com o outro. Sabe o que eu acho? Que a nossa estranheza, nossa melancolia e nossa tristeza, só podem ser vencidas quando aproximadas uma das outras, porque nem eu nem você queremos ser uns palhaços rindo à toa da vida, como todo mundo ri, não queremos ser felizes por nada. Pelo contrário, acho que nós queremos ser felizes com bons motivos, e queremos aproveitar e destilar nossa tristeza quando ela tiver de ser destilada. É por isso que acho que a gente se encaixa tão bem, pois talvez saibamos como rir quando o riso é válido e sofrer quando só podemos sofrer. Por isso, vamos sofrer juntos, porque a gente tem a capacidade de rir e de sermos felizes juntos.”
Quando ela terminou de ler olhou para mim e encontrou os meus olhos fixados nela. Parecia estar comovida, mas também poderia estar resignada. Permaneceu por brevíssimo instante me olhando e como eu não dissesse nada, falou com a voz firme, mas forçando um sorriso nos lábios:
— É lindo. Me vejo e vejo a ele aqui. Essa sensibilidade que ele tinha para nos perceber e para me mostrar essa percepção foi uma entre tantas coisas que fizeram me apaixonar. Gostaria de ter lido isso na época, mas mesmo se tivesse lido, eu não teria ficado.
Meu avião sairia em duas horas. Não havia mais tempo para estar ali. A ele jamais poderia voltar a ver e foi a última vez que a vi. Não ficou com o livro mas dobrou o bilhete na mesma única dobra, e guardou dentro de sua bolsa.
16:28:59, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano MachadoHoje conversei rapidinho com a minha irmã mais nova, a Elka, e ela me falou do vestibular, estava esperando o resultado da prova que houvera feito. Então me lembrei de dois textos que escrevi quando eu prestava os vestibulares da vida, no ano ido longe de 1996. Achei os textinhos e achei neles um comichão de algo confuso, uma falta de sentido que verifico ainda hoje, onze anos depois.
(Macambúzio percebo que os dois últimos postes têm onze anos de distância e que não só meu vocabulário continua o mesmo e reduzidíssimo como o estilo não evoluiu nem melhorou. Acho bom soprar o pó do meu diploma do Senai de serviços gerais, e parar de usar 'sequioso' e 'consoante'. Maldito Saramago.)
A Grande Prova
Sentado numa cadeira do salão de leituras da Biblioteca, ocupava-me com a morfologia do terreno brasileiro, planaltos, planícies, 36 % de terrenos cristalinos. Meu pensamento uma bacia (nem perto de sedimentada) de dúvidas, confusões de espírito. Se o que eu queria mesmo era passar no vestibular, por que diabos não concentrava nas eras geológicas minha lancinante esfera cerebral? Saber eu não sabia, e ainda o não sei, passado já tanto tempo e nada mais importando como agora é. É certo que por tarde ensolarada do início de dezembro, incitava-me ao empreendimento fascinante de apresentar ao mundo a Nova Filosofia Existencial que há já tanto tempo me dedicava. Sequioso de buscar por entre as baças janelas da Biblioteca aquele sentido oculto e maior da vida (que mesmo cavando até perto do magma a Planície Amazônica jamais encontraria nas ciências geográficas) olhava a cena de fora imerso no silêncio de dentro.
Eu estava perdido naquele tempo. Há quanto tempo, meudeus! E se, deusmeu, já naquele tempo soubesse o quão vã é a geografia e o Direito — que pretendia cursar —, até mesmo a filosofia? Pobre cabeça de jovem a minha, de jovem inseguro e um pouco atrasado mesmo na juventude. Cria que o mais importante era passar no bendito maldito vestibular. Só mesmo hoje, passado tanto tempo, tanto tempo, — chegada já a noite — é que posso olhar para frente, recolher meu material da mesa (apontamentos morfo-climáticos do Brasil), esquecer o esboço da filosofia e ir-me embora pra casa da minha mamãe sabendo que nada importa. Afinal de contas tenho de estudar Roma e Grécia e o período Vargas, já vamos lá há dez dias da Grande Prova Final
Ao Final da Prova Vestibular
ou A lição do Caminho
Quando passou da sala para o pátio exterior, logo no primeiro degrau à porta de saída, deparou-se com o relógio branco e vermelho onde se destacavam o logotipo e a sigla da instituição coordenadora da prova, apontando dez minutos para as dezoito horas. Supôs, de fato, que fosse para se contar estas horas mesmo, pela dificuldade do exame e também o incômodo que a desconfortável cadeira lhe causara. Juntando tudo isto parecia-lhe ter passado quase quatro horas sentado na sala quente, como deveras houve.
Assim que baixou a cabeça da visão do relógio vermelho e branco, oscilou-a para os lados a verificar o movimento no pátio. Contou bastantes pessoas, algumas usando o colete amarelo que designava o fiscal de prova, e as outras, o grupo maior, sem caracterização específica no vestuário, afora o tamanho dos trajes consoante o enorme calor que fazia. Os grupelhos distinguiam-se também porque os fiscais encontravam-se sentados ou em pés, mas parados, enquanto os candidatos estavam em trânsito, saindo do pátio à porção descoberta do prédio e depois ao portão principal que dava para a rua, e era tanto quanto sua vista podia alcançar.
Porque fazia intenso calor, levou naturalmente a mão direita a enxugar o suor da testa, mas notou que o que lhe tocara a fronte era o punho. Percebeu então que havia esquecido a mão direita na classe, provavelmente em cima da carteira em que fizera a prova. Pensou que talvez, dado o grande esforço e às várias horas escrevendo, a mão direita se tivesse desprendido do punho e caído na mesa quando entregou as folhas com as respostas. Como havia apanhado as canetas e o lápis com a mão esquerda, não se dera conta da perda. Estava há uns três metros da porta da classe quando parou pensando se deveria voltar para pegar a mão direita. Mas acudiu-lhe o fato de que não teria mais provas a fazer e que a única utilidade da mão direita era escrever nos exames vestibulares. Tendo assim pensado, continuou a andar para a saída imaginando que não valia a pena o esforço de voltar para resgatar a perdida mão.
Continuou andando a reparar, agora menos, nas pessoas que estavam à sua volta. Os semblantes, de qualquer modo, eram mais ou menos os mesmos que o seu, cansados, ansiosos por saber como se teriam saído nas provas. Assim que passou do pátio à parte descoberta que dava para o portão da rua assomou-lhe o sol, quente ainda nesses nossos horários de verão. De imediato quis lembrar-se de uma questão da lição de matemática que ficara em dúvida e tratava dum cálculo angular usando o sol como ilustração. Esforçou-se mas não conseguiu recordar-se. Aliás, nem conseguiu se lembrar se fizera prova de matemática. Tentou pensar no porquê do olvido e também foi baldado seu esforço, perdera o pensamento e a memória no caderno de respostas, provavelmente numa questão de física que não conseguiu resolver. Como estivesse a poucos metros do portão de saída e sabendo que não precisaria mais do pensamento e da memória, uma vez que não tinha mais exames e aqueles só lhe serviam para o estudo e reflexão das questões, achou por bem não cansar as pernas voltando à sala já distante.
Chegou ao portão, viu a rua e os candidatos que já haviam acabado o exame. Muitos deles estavam sentados nas sarjetas esperando sabe-se lá o quê, com a folha de questões na mão. Alguns usavam-na como leque, outros como guarda-sol, outros ainda como luneta a mirarem pelo buraquinho quiçá o futuro. Quando observou toda a cena exterior e percebeu-se livre dos fiscais, do prédio, e acima de tudo da prova, quis experimentar uma sensação de alívio e felicidade, mas não pôde, nada sentiu. Notou, então, que havia perdido os sentimentos na famigerada sala já tanto citada, provavelmente no primeiro dia, no instante em que, autorizado para começar as resoluções, desejou mais do que tudo responder corretamente às perguntas e entrar na sonhada faculdade. Não quis voltar a reavê-los, se fosse aprovado no vestibular, certamente não precisaria dos sentimentos na universidade.
10:38:32, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano MachadoMANUAL DO PROPRIETÁRIO
“ A sua lembrança me dói tanto,
que eu canto pra ver se espanto esse mal.
Retrato sem cor, jogado aos meus pés,
Saudades fúteis, saudades frágeis,
Meros papeis(...)
(...)Sobrou desse nosso desencontro
um conto de amor, sem ponto final(...)”
Chico Buarque in “Desencontro”.
Quando foi a última vez que olhei o manual do meu carro? Antes de hoje, não fazia a menor idéia. De chofre o interessado me perguntou quantos litros cabiam no tanque de combustível e me lembrei que uma vez eu tinha anotado, na parte de “anotações”, ao final do manual do proprietário. Estávamos em frente à minha casa, e embora já passasse das seis e meia, um sol fortíssimo torrava nossas cabeças. Praguejei contra o horário de verão e o homem concordou. Sentei de lado no banco do carona, peguei o conjunto plástico que abriga o dito cujo e outros documentos, papéis de seguros, revisões etc. Fui para as últimas páginas, abri, e dei com isto: “Capacidade do tanque: 47 litros”.
Faz mais de dois anos que nos separamos e a vida segue seu ritmo normal. Já tive outras mulheres, você, ao que me consta, outros homens, parece até que está apaixonada por um neste exato momento em que tenho de deixar o comprador à espera de um outro dia, para gastar, frente ao ecrã, isto que venho chamando de literatura e afinal não é. Capacidade do tanque: 47 litros. Lá está, grafado a caneta preta, numa letra redonda, cheia, alta, firme. A sua letra. A mesma letra das anotações avulsas no livro de alemão, a mesma letra das dedicatórias dos livros presenteados (foram tantos, tão importantes), a mesma letra de alguns cartões, recados furtivos, uma coleção de resquícios gravados em papel normalmente ordinário, com tinta de esferográfica, com grafite de lapiseira. Essa reflexão agora me queda. O que são esses resquícios, afinal? Diferentes de fotos, de presentes, da memória que ainda guarda intactos momentos e sensações, cheiros, toques, pêlos, a pele? Fizemos da palavra um meio diferenciado do nosso contato amoroso. Por certo outros terão feito o mesmo, mas não me importa: pela mesma palavra preciso e acredito que fossemos diferentes. E fizemos da palavra escrita a especificidade ainda mais marcante do nosso relacionamento, porque escrever nos uniu e afastou, porque de alguma forma o toque da palavra sempre foi macio, não, não digo macio, foi contundente, severo e profundo, (agora sim) fosse macio ou áspero fosse. As coisas que outros escreveram, importantes outros, outros clássicos, nos aproximaram muito, foram sempre o casamento de juntar na figura que você me era os expressivos olhos verdes, o cabelo louro, ora liso, ora com caracóis, a pele que se desfazia em olores que nem sabia se não tinham sido feitos só para mim, os seios que um médico disse serem lindos e realmente eram, e eram meus. A palavra escrita, traste (a palavra traste dava um capítulo à parte, inteiro, imenso e delicioso. Se isso não fosse um fingimento descarado, ia produzir mais literatura, usar toda a inspiração que você dava, ou me devolvia). Recomeço: a palavra escrita, traste, foi o princípio de tudo, e depois continuou sendo o liame que me fazia amar o seu jeito doce de estar em silêncio, e a forma linda e ideal de suas pernas e da sua bunda. E parece que foi assim sempre, até ao final, pois nunca deixamos de nos escrever. Todo o doloroso esboroamento do que éramos foi permeado pela nossa palavra escrita. Estou fora da imparcialidade de dizer, hoje, se isto não foi senão culpa minha, e a distância que se instalou (e isso foi culpa minha mesmo) açulava cada vez mais na mordida do escrever. Talvez tenha faltado juntar alguns cacos olhos nos olhos, mas, aqui não há culpa, ou a dividamos, se isso precisa, e precisa, afinal, ser escrito.
E precisa ser escrito. Este é o forte motivo de porquê não escrevo uma carta (que evidentemente seria um emeio, emeios que formam a figura congruente de toda a nossa peculiar escrita), porque não escrevo, mesmo e mesmo, uma carta. Então é um conto (dava para uma novela, mas não é a vez desse exercício de estilo, a vez é da minha primeira pessoa). Então é um conto. É um exercício de estilo, e ninguém saberá (eu não o sei) até aonde está a verdade. A palavra, agora, nos poderá divertir, já que talvez você nem exista, e essas invenções todas sejam a minha tentativa de ser um escritor, o escritor que você sempre acreditou que eu pudesse ser, e portanto, que eu devo, em benefício próprio, fazer tão bem feito que a faça existir de verdade. Então escrevo um conto, um conto que conta a história do que nos dizíamos, como nos escrevíamos, e que começa por identificar como marco inicial (dele, conto) o momento em que, dois anos e tanto depois, revi (ou inventei) sua letra redonda bordada num lugar que jamais poderia supor, fazendo a palavra escrita que não tínhamos mais assomar-me no meu dia-a-dia, esbofetear a golpes de caneta uma normalidade francamente alcançada.
Mas, por quê? Por que tudo voltou numa torrente de saudade, de ternura e ausência, tão fortes, tão decisivamente dispostas a mostrar que, enfim, eu não superei a perda? Alguns meses antes de vê-la escrita no manual do carro que eu pretendia trocar (trocar de carro, e em conseqüência, de manual) eu a vi (ou imaginei) em pessoa. Muito rápido, de costas, sentada na mesa de um bar improvável, bebendo com uma amiga, fumando um cigarro improvável com o seu namorado (creio que era seu namorado). Felicitei-me, na altura, pela racionalidade demonstrada do senhor que está a fazer-se velho que sou controlando, não só a atitude, como a pressão arterial, respirando profundamente (dessa vez sem arfar, a desculpa é que não havia uma escada, já a metáfora da despedida descera ou subira os degraus), num lamento que embora dorido, desanuviava a cabeça e a alma (se por acaso eu tenho alma). Então por quê? Por que a sua caligrafia me fez voltar a todos os outros escritos que tenho guardados comigo, ou junto nos livros, fazendo da saudade uma constatação mais do que física, uma constatação documental, quase civil?
É fim de dia, quase. É quase também o fim do conto. Afinal de contas precisei vir escrever este conto para gastar a literatura que não sei fazer — embora não desista dela — como retribuição da sua confiança (e será que era em mim?) em minha não-literatura. Sinto saudade de muitas coisas, como por exemplo, citar seu nome ou escrevê-lo (quase o fiz, você deve se lembrar de um outro conto que nunca consegui terminar e que levava seu nome no título, ou talvez não se lembre de mais nada). Sinto saudade de escrever seu nome mais do que de dize-lo, pois tudo quanto escrevia era uma maneira de escrever seu nome, muitas vezes sem precisar cita-lo explicitamente. E como isto aqui é um conto e está chegando ao final, e como este conto que agora chega ao final é um exercício de estilo, eu posso lhe dizer que embora não vá citar seu nome, poderia citar o meu, pois aprendi com o Amílcar Bettega Barbosa que a gente pode citar a gente mesmo quando a gente mesmo escreve um conto sobre a gente mesmo (e disso também sinto saudade, de lhe dizer quem é esse tal de Amílcar). Afinal, não me parece que eu tenha escrito um conto realmente. Mas, se isto não é um conto, nem uma carta, menos ainda um emeio, o que poderá ser? Benevolente comigo mesmo, sequioso da sua atenção, metido numa saudade que só sua letra redonda podia me trazer, desisto de procurar uma palavra para definir o que isto é, e que vai terminar como qualquer coisa que seja, e que surgiu por conta de uma frase, frase informativa, consoante com o que faço agora: informo que não sei se escrevi um conto e que desisti de achar palavra, mas sei quantos litros de ausência cabem no carro que não sei mais se quero vender: capacidade do tanque: 47 litros.
12:48:35, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano MachadoSilvinho e a democracia dos árabes
Sílvio Cardoso tinha cinco anos e estava muito preocupado com a guerra no Oriente. Não que ele soubesse o que era oriente ou ocidente, mas escutara sobre a guerra no país longínquo. Soube pelas televisões que por causa de uns aviões que pessoas más jogaram em cima de dois lindos prédios nos Estados Unidos, matando milhares de pessoas (também não tinha noção muito exata do que seriam milhares, andou dizendo a coleguinhas de escola que os mortos foram milhões), os homens bons desta grande nação estavam agora caçando o malvado que havia matado tanta gente, a troco de nada. Perguntou ao seu avô, Estevam Alves, quem eram os tais bandidos, ao que este respondeu:
— São os árabes islâmicos, o pessoal do Saddan Hussein, os mesmos que invadiram e conquistaram a terra de onde viemos, meu neto, são os mouros. Agora eles têm um novo líder, chama-se Osama Abin Labem, que quer destruir a democracia do mundo ocidental.
— O que é democracia, vovô? — perguntou o menino.
— Silvinho querido, a democracia é o modo de vida que nós levamos. Temos direito de torcer para o Corinthians, de acreditar em Jesus, e não em Maomé, somos livres, podemos trabalhar e viver de acordo com o que pensamos.
— Quem é Maomé?
— É um árabe muçulmano — respondeu já irritadiço o avô.
— O que é um árabe muçulmano?
— Já disse, Sílvio, é aquele pessoal que joga bombas na gente, e eles inventaram o kibe, a esfirra, essas coisas.
— Mas vô...
— Ora, menino vá brincar!
Ficou assim Silvinho sabendo com apenas cinco primaveras que os árabes jogavam bombas na democracia Corintiana e comiam kibe, o que só fez aumentar a raiva que sentia por gente que matava milhões de pessoas como ele só por que não torciam para Jesus. Então Silvinho convidou Nonô para ir à sua casa ao final da escola. Na perua do caminho de volta, Sílvio Cardoso explicava a Fernando Scabello a história da guerra:
— Nonô, você sabia que os árabes romanos gostam de matar milhões de pessoas só por que não comem kibe e acreditam em Jesus?.
— Mas eles matam qualquer um que não acredite em Jesus? — perguntou assustado Nonô.
— Todos! Inclusive as crianças que não comem kibe e não usam democracia na vida.
— O que é democracia?
— Democracia é a gente, os que torcem para o Corinthians, mas também quem não torce para o Corinthians, mais todo mundo que acredita em Jesus e não no Mané — disse calmamente Silvinho, demonstrando seus conhecimentos.
— Eu gosto da democracia, mas gosto de kibe também, tem algum problema?
— Ah, isso tem sim, vai ter que parar de comer, se não vai ser um deles e vai ter que pilotar os aviões que trombam nos prédios — asseverou com firmeza o Silvinho.
— Que avião, que prédio? — Nonô estava assustado.
— Então você não vê a televisão? Os árabes mouros jogam aviões com bombas nos prédios de pessoas boas que se reúnem para acreditar em Jesus.
— E morrem todos?
—Todos, mais de milhares, milhões. É por isso que precisamos ajudar a democracia. Vamos fazer estilingues que depois a gente empresta para acertar os árabes africanos.
Então Sílvio e Nonô passaram a tarde toda construindo estilingues, e realmente fizeram muitos, coisa de milhões. Pretendiam usar todos eles na guerra contra os árabes e foram dormir exaustos naquela noite, mas contentes pela ajuda que dariam à democracia de Jesus. Aconteceu de na manhã seguinte, enquanto Sílvio e Fernando estavam na escola, Mateus Estrella, pai de Sílvio, professor universitário federal de física, passar pelo quarto do moleque antes de ir para a manifestação do dia, que seria na inauguração de uma creche, onde estaria o ministro Carlos Roberto. Ao ver os estilingues, não titubeou “Ah, tomates podres! Nos enchemos deles e vamos acertar o filho da mãe”. Dito e feito, carregou os dez estilingues feitos pelo filho e o coleguinha e foi para a manifestação acertar tomates no ministro. A coisa não saiu tão bem como o esperado, pois os professores não eram lá muito bons de mira, e no final das contas ninguém conseguiu acertar o ministro, ainda que Mateus tenha chegado perto, mas o alvo realmente atingido foi um secretário de educação municipal, um tal Rodrigo de Carvalho. Mesmo assim ele pensou que não estava flagrantemente mal como os Estados Unidos, afinal, sede da Cruz Vermelha e base inimiga são realmente diferentes, secretário de educação e ministro da educação, farinha do mesmo saco. Ocorreu de por azar, justamente quando acertou o secretário, a polícia abafar com os cassetes, aliás, muito mais precisos que os estilingues, e Mateus foi preso por desacato, perturbação, tomatada etc. Passaria a noite no xilindró, dando uns depoimentos.
Quando chegou em casa, Silvinho foi direto ao quarto procurar os estilingues, mas não os encontrou, evidentemente. Correu atrás da mamãe, dona Marlene Waideman, a perguntar o que tinha acontecido e ela, chorosa, disse que não sabia dos estilingues mas precisava de dizer uma coisa importante ao filho, e então contou que o pai estava preso num prédio grande e demoraria um pouco a voltar. Sílvio chorou bastante pela ausência do pai e também por saber que este estava preso num prédio. Foi procurar o avô Estevam:
— Vô, o senhor viu meus estilingues?
— Meu neto querido, acho que o papai precisou levá-los.
— Para quê, vovô?
— Ah, meu neto, eu avisei seu pai para não ir atrás de confusão, mas ele resolveu se meter com sindicato, com greve...
— O que é greve, vô?
— Greve é um pessoal que faz baderna, confusão, e acaba desafiando a democracia, lembra da democracia que contei pra você?
— Claro que lembro, vovô. Então papai usou os meus estilingues na democracia?
— Na verdade papai usou os estilingues contra a democracia, por isso está na cadeia.
— O que é cadeia, vô?
— É um prédio grande onde eles colocam quem desafia a lei e a democracia.
— Vô, o papai vai voltar logo? — perguntou carente o menino.
— Não sei meu filho, vamos torcer para que volte.
— Vô, se o papai usou meus estilingues contra a democracia, será que a gente podia pedir para os árabes jogarem aviões no prédio onde papai está, para ele poder sair?
— Não meu filho, claro que não! Olhe, vá brincar que papai estará aqui logo.
Silvinho ficou quieto o dia inteiro, esperando o papai chegar. Na escola combinou com Nonô de irem a casa deste fazer estilingues para atacar a democracia e ajudar a soltar o papai daquele. Convenceu facilmente o amigo, afinal, Nonô e Silvinho não iam lá muito com a cara da democracia, pois, apesar de torcerem para Jesus e o Corinthians, gostavam muito de kibe, sobretudo com coalhada.
21:31:05, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado O oiti que não morreu no poste anterior, bem poderia ser qualquer oiti que afinal não morreu. Mas, não é não. É um específico oiti, situado à Rua Rui Barbosa, na altura do número 943, no Bairro da Vila Xavier, cidade de Araraquara. E não morreu mesmo, como qualquer um poderá verificar nesse endereço. Poderá ainda o curioso reparar que sequer há indícios de que venha a murchar para o longo prazo, a arvorezinha.
O Oiti
Não havia razão específica para que eles o plantassem, contudo assim o fizeram. A frente da casa já tinha a sua árvore convencional, aquela que foi medida e cultivada uma para cada frente de cada casa de cada bairro que de algum jeito foi escolhido. Mas havia espaço e lá foi colocado o Oiti. O homem e o companheiro o plantaram. Disse o homem ao companheiro que levaria quinze, vinte anos para chegar ao tamanho adulto, se é que árvores tornam-se adultas, pois se pudessem escolher ficavam a ser sempre crianças, só cresceriam de tamanho porque de cima se vê melhor, mas as folhas podiam ser de verde-infância, teriam elas liberdade também de inventar essa nova modalidade de cor. Mas estavam dispostos a esperar. Até porque, não havia necessidade premente de que a vissem altiva e soberana na maior estatura que pudesse alcançar. Altiva e soberana seria sempre que os dois a regassem, que cruzassem com ela na calçada, e finalmente altiva mais e soberana mais quando estivesse exatamente da altura deles, porque olhariam ela e ela os olharia a eles, como iguais, como unidos que assim ficaram porque assim escolheram ficar. Fizeram planos rente ao Oiti. O regador é pequeno, não se pode utiliza-lo a duas mãos, mas uma enche-o à torneira e carrega até ao pé da árvore, passa para a outra que vai despejar, mas, veja! Pesado! Escorregadio! Solícita, vem a primeira mão acudir a mão que deslizou no úmido regador e, enfim, juntas, dão de beber ao Oiti. Revolver a terra, adubar. Isso também se fará em separado, mas sempre, no exíguo espaço do canteiro haverão de se trombar, quatro mãos que, sujas do barro, são como as mesmas, porventura pais e filhos. Alegres, lavam-se com a água do regador, duas seguram para que duas se asseiem, inverte-se a operação, tocam ao de leve o tronco do Oiti, findo o trabalho, vão duas mãos, as direitas de cada dupla, abraçaram-se e saudarem-se pelo sucesso da empreitada. O Homem e o companheiro sorriem.
O Oiti vai morrer. Não há mais razão para que viva e cresça altivo e soberano. Morreu o sentido que havia para se cuidar dele, árvore que deixará de ser árvore. Mão esquerda e mão direita solitárias não querem mais rega-lo, não querem mais revolver a terra ao seu redor. Se lho derem de beber vez ainda mais, será abreviar-lhe o fim com água salgada, gota a gota. Na lembrança destas mãos que ora não querem o ofício de jardinagem estão as outras duas de outrora a acenar o adeus. A casa em frente ao canteiro ficou vazia. A mão que restou não quer dele tratar. A árvore nem calcula, mas morreria de qualquer jeito, plantada a quatro mãos não suportaria viver aos cuidados de apenas duas. Quando estivesse já à altura de um homem, uma sombra só não lhe bastaria para arrefecer o calor do sol. Nas noites de frio, precisaria de dois corpos, lado a lado, para aquecê-la deveras. Já na calçada não estão mais o homem e seu companheiro. O Oiti vai morrer.
Araraquara, 01 de agosto de 2002.