

22:37:34, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano Machadopor sugestão, torno ao tema:
O Caminhante
O caminhante caminhava pela estrada que havia, porventura ao poente, com um único e verdadeiro medo, que não confessava nem a si próprio. O medo, embora grande, não o paralisava, visto que seguia sempre adiante. O caminhante tinha medo de que lhe perguntassem para onde estava a ir. Ele sabia para onde estava indo, só não sabia exatamente o porquê, e tinha medo de explicar. A calçada dava para uma rua que dava para uma estrada que dava para uma trilha de terra e era aonde o caminhante ia seguindo. Ele não levava nada e despia-se no caminho da vida cumprida. O vento até poderia insistir em dizer que a vida é comprida, e que tem tanta vida para gente desanimar, mas não insistia, e o caminhante se lembrou de ter lido alguma vez que a vida era uma agitação feroz e sem finalidade. Da lembrança, o medo súbito fê-lo quedar-se e cerrar os olhos. Era isso que vinha tentando esconder de resposta a quantos o houvessem de indagar “Aonde é que vais?”. Não queria, pois não saberia explicar por que a vida não tem sentido, embora soubesse desde a alma que seu caminho fazia todo o sentido do mundo. Parado não podia ficar. Usou de forças que talvez nem fossem suas e continuou caminhando, apesar do medo, “Ora, se me encontram, digo-lhes a verdade e pronto, não pode haver mais verdade no caminho que se escolhe seguir, se se o segue de fato”. O caminhante havia decido ir ao encontro do que escolhera, teria lá seus motivos ou os não teria, justificar-se poderia ou não, quem é que sabe. Ele sabe apenas que o caminho é este e quer segui-lo em frente. O caminhante passou por vales, montes, casas, mares e estava satisfeito consigo de não ter encontrado ninguém, embora, a despeito do medo ancestral, já tivesse decidido firmemente dizer a verdade a quem lhe houvesse de perguntar, de novo “Aonde é que vais?”. Os vales, os montes, as casas, os mares não lhe perguntavam nada e ele não se lembrava de perguntar, porventura a si próprio “Onde é que há gente no mundo?”. Passou por um deserto, grandes são os desertos e tudo é deserto. Seguiu em frente, o deserto não era seu destino. Assim que saiu do areal, entrou pela cidade e então dominou definitivamente o seu medo, queria mesmo agora era encontrar alguém que lhe perguntasse “Aonde é que vais?”, teria a resposta já pronta: “Vou ao encontro do rio”.
Na cidade, passou por casas de novo, e se não havia vales, e se não havia montes, e se não havia mares, havia gente, mas a gente não notou no caminhante. O caminhante tinha entes queridos, amigos verdadeiros, família a esperar, mas não se lembrou de dizer-lhes para onde ia. Doído, pensava, “Antes eles não se lembraram de me perguntar para onde estava indo...”. O caminhante recordou-se de que não havia avisado a ninguém na partida e quis contar. Afinal, tinha a resposta à pergunta que lhe iam, inexoravelmente, fazer. Trocou de calçada e foi ter com um senhor grisalho, disse, “Olá, tenho família, mas minha família não sabe que vim cá, que estou indo ao encontro do rio...”, o senhor grisalho, afinal, não fez caso e saiu como se planasse. O caminhante pensou que não faria sentido a alguém que ele quisesse ir ao encontro do rio, mas sossegou de pensar, também, que não fazia sentido estar na cidade, sair como se planasse. Achou melhor falar ao trabalhador, trabalhando, saberia de algum sentido oculto, quem sabe se no trabalho lá dele, disse, “Se não atrapalho, gostava de perguntar o que tu achas do teu trabalho...”, “Não acho, trabalho! Agora não vês que estás a amolar-me?”, dando costas ao caminhante, continuou no afazer. O caminhante caminhou, caminhou mais um tanto, à beira de sair da cidade avistou a moça linda. Pensou falar-lhe, quem sabe se do rio, quem sabe de sua família, afinal, já de longe sabia que as mulheres são mais sensíveis e, se não sabem o sentido de tudo, a tudo algum sentido empregam. Foi falar à moça linda, mas esta se adiantou a ele, “Aonde é que vais?”. Desde o começo da caminhada esteve a sopitar o medo ontológico de dizer para onde ia, a que ia, e agora estava tão preparado para dar a resposta que hesitou, “Vou, vou ao rio...”, “Por que vais ao rio?”, “Vou saltar fora da ponte, num lugar em que o leito cubra este corpo de homem”, “E tua família?”, “Não sabem que vou”, “Teus amigos?”, ” Não me perguntaram”, “Disseste-lhes?, “Não disse”, “Por que, enfim, vais?”, “Cansado estou”, “Tens motivos para tanto?”, “É possível que os não tenha suficiente...” , a moça, então, falou com doçura, “Não será necessário os tenha sempre, é teu direito saltar fora da ponte, é esta uma prerrogativa da razão. O caminhante tencionou deixa-la, continuar ao encontro do rio, não queria ser dissuadido da empreitada, não seria facilmente dissuadido, e sua alma encheu-se de luz quando olhou os olhos da moça linda, “Já não tardo, se espero muito, o rio corta, perco-lhe o fio, não lhe acho o leito mais profundo...”, a moça, sempre com suavidade, comentou, “No leito mais raso te banharias, antes de cobrir-te todo de água”, “Quando a água me cobrir de todo, mais limpo que nunca estarei”, “Julgas-te sujo?”, Não julgo, não me compreendo...”, e acenou a cabeça como a dizer adeus. A moça linda tocou-lhe ao de leve o braço, e disse, “Ficas?”, “Não posso”, “Ficas?”, “Não quero”, “Ficas?”, “É já tarde”, “É sempre mais tardes do que supões, não te impediria este último e mais humano direito, não te sei dizer o sentido que queres, quero que fiques, ir-te talvez seja o melhor...”, “Eu vou, antes que o rio seque e o sentido que procuro finde-se com a água, se o perco, perco-me no sem-sentido de não haver rio...”, “Adeus”, “À Ele...”.
O caminhante partiu no caminho, agora não falta já quase nada para chegar no leito caudaloso do rio. Não sabe se jusante, não sabe se foz ou nascente, sabe que a ponte é alta, haverá água lá para o cobrir. Há um tronco roto navegando bem ao meio, parece forma-se-lhe um rastro atrás a juntar uns restos de folhas, umas migalhas de gravetos, umas penas que não sabe o que sejam. O caminhante olhou a tudo e tudo, percebeu que o caminho houvera chegado ao fim, estava na ponte, mas já não sentia medo. Escorou-se nas proteções, alçou, por primeiro a perna esquerda, por segundo, a direita, e esteve à borda, preso só pela força do braço par da primeira perna. Ventava, o caminhante julgou que estaria frio, pensou, “Estará fria a água”, estava. O caminhante saltou, desceu ao fundo, escureceu. Lá na frente, porque há sentido na correnteza, vai atracar-se com o tronco, nunca saberá tratar-se de um oiti, importa pouco, mesmo o rio vai chegar um dia ao fim. A moça linda virá ver estas águas a compreender a levada da vida, a compreender querer o caminhante saltar fora da ponte e da vida. Há de entristecer-se, mas escolherá não saltar.
19:14:30, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano MachadoPor que votar em Ségolène Royal?
1. Porque ela é mulher.
2. Porque ela é uma bela mulher.
3. Porque ela é uma mulher de mais de trinta anos, que são as mulheres que interessam.
4. Porque ela é francesa.
5. Porque Sarkozy é francês (e somente um desatento observador para encontrar uma redundância na afirmação silogística).
6. Porque as mulheres, se não sabemos se serão melhores no poder, certamente piores não serão.
7. Porque ela é mulher, bonita, francesa, tem mais de trinta anos, e é socialista! (lá o que signifique ser socialista, que eu mesmo não faço mais idéia).
(Na foto, Ségolène Royal sorrindo largamente)

(Na foto, Ségolène chega a um evento, lépida e fagueira)