Bazófia

Literatura, Política, Bares, Arte, Futebol e outras besteiras e presunções.
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12.09.07

TERRA_PERMA_LINK 13:59:50, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

No varal

Esta Bazófia quedou-se. Estancou. Prostrou-se diante de problemas pessoais de ordem tributária. Aqui não torno até ao dia 01 de outubro.  Os gregos diziam "epoquê".

Desculpem-me os possíveis leitores pela demora em vir dizer isso, e ainda mais, se por acaso os houver, aqueles sentidos de ler as linhas trôpegas que seguiam por aí adiante.

Devo voltar porque Carlos (não se mate) não me matarei, e,  Manuel, não o farei, possivelmente (que tenho vontade tenho).

Até logo mais.

Juliano

p.s. – é claro que uma breve despedida teria de dar azo a muito Zuckmerman escondido por aí, então falemos que se trata de poema de Drummond e poema de Bandeira e a brincadeira é com o último texto aqui publicado. Arre, cansei-me a explicar.

TERRA_COMMENTS (4)

10.08.07

TERRA_PERMA_LINK 14:47:57, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Pequeno ensaio sobre o suicídio

                   “A condição humana é boa porque ninguém é infeliz senão por sua própria culpa. A vida te apraz? Viva. Não te apraz? Tu podes voltar para de onde vieste.”

Sêneca, Carta LXX

“Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina

"Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida, 
Se ousasse matar-me, também me mataria...(...)"

Álvaro de Campos


Não há nada mais normal do que escutar o ‘Adágio’ do Albinone ou ‘La Mamma Morta’ do Umberto Giordano (ainda que o gostinho de se saber que é ária do Andrea Chenier cutuque aquela velha magoazinha de que o Manuel Bandeira e o Dostoievski não servem para nada). Como a tristeza é somente de quem ela é, não dá para estranhar que a música escolhida seja o adagio cantabile da Sonata número 8 em dó menor do Beethoven. Asseverou-me ele ser essa a composição que o fazia saber sofrer, satisfeito de si dar o desespero, então, raios, por que não deveríamos nós acreditar? Eu acreditei nele quando me disse. Aquela tecla que faz a faixa do cd repetir anel de moebius seguindo em frente a topologia serpente que come o próprio rabo e germina de si mesma cento e cinqüenta mil vezes sonata número 8 em dó menor do beethoven duzentas e três mil vezes la mamma morta que o giordano inventou.

Eu pude imagina-lo no quarto escuro, travesseiros debaixo do peito, sustendo o coração que sangrando lasso só mesmo na garganta poderiam estar uns anéis, nó górdio porventura. Ele me disse que não era mais homem e eu fui obrigado a acredita-lo, porque ele me disse que não era mais gente e eu tive de consola-lo nas couraças, ajuda-lo a virar-se de bruços para poder descair debaixo do canapé. Apesar de o verem, assim me disse, compreendiam o infausto sem na verdade o enxergarem. Se quisesse ter saído do quarto, voltado à firma ou simplesmente pegado o trem, o teria feito sem festinar, pois já ninguém botava os olhos nele. Eu acreditei nisso também, pois percebi que não lhe teria sido difícil pular o costado, apesar das muitas e finas perninhas.

Foi quando ele me falou do Álvaro de Campos e que ele não tinha par nisto tudo neste mundo (assim proclamou: “eu não sou homem e o Álvaro nunca existiu”). Ele me falou que não tinha par nisto tudo neste mundo, evidente que eu acreditei. Sempre soube e talvez nós todos soubéssemos que havia a dor na alma do poeta que se cantava exilado. Estrangeiro aqui como em toda parte, casual na vida como na alma, fantasma a errar em salas de recordações aos ruídos dos ratos e das tábuas que rangem no castelo maldito de ter que viver. 

Eu só pude entender que ele lia e ouvia isso tudo porque estava um tanto quanto cansado, e que embora lhe tivessem dito alguma coisa sobre neurônios e serotoninas, dificuldades de uma coisa de recaptação, ele sabia, e eu soube por ele, que esses nomes são tão iguais quanto as dores reais ou imaginárias que poderia sentir, porque tudo, poesia ou neurotransmissor faziam parte daquela verdade irrefutável de que nada faz muito sentido se olhado de bem perto. E se olhado de mais perto ainda, o resto é silêncio. Não se cansou de me repetir, personagem de si mesmo, que se não sabemos nada daquilo que aqui deixamos, que importa deixá-lo antes? Seja o que for. Nunca me chamou de Yorick, nunca fui seu Horácio mas talvez me visse e visse a si em caveira, em crânio escalpelado.

Senecamente me contou, trazendo enfim a fluidez à pauta, que não se podia perder muito de um líquido que cai gota a gota, e quando me disse finalmente que não valia a pena descer com o rio, que o rio cortava, entendi que queria mesmo saltar fora da ponte e da vida. Porque ele estava prestes a compreender, para que pudesse enfim me ensinar, que essas palavras e músicas são o remédio diário de quem não se pode curar, ou não se quer curar, demasiado nós sabemos que dá tudo no mesmo. E porque eu sei que não tem ninguém de olho nele, nem eu estou, que agora vim aqui escrever e não pude ficar mesmo de olho nele, é por isso que eu alcancei que não adianta avisar pois a vida vem de levada e somente se pode encontrar quem teve coragem de se perder, mas que o risco disso é não tornar a achar o caminho. E ao se cansar das pátrias estrangeiras se queira mesmo e mesmo saltar fora da ponte, entrando na noite como um rastro de barco se perde na água que deixa de se ouvir.

TERRA_COMMENTS (13)

03.08.07

TERRA_PERMA_LINK 16:28:59, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Para Elka

Hoje conversei rapidinho com a minha irmã mais nova, a Elka, e ela me falou do vestibular, estava esperando o resultado da prova que houvera feito. Então me lembrei de dois textos que escrevi  quando eu prestava os vestibulares da vida, no ano ido longe de 1996. Achei os textinhos e achei neles um comichão de algo confuso, uma falta de sentido que verifico ainda hoje, onze anos depois. 

(Macambúzio percebo que os dois últimos postes têm onze anos de distância e que não só meu vocabulário continua o mesmo e reduzidíssimo como o estilo não evoluiu nem melhorou. Acho bom soprar o pó do meu diploma do Senai de serviços gerais, e parar de usar 'sequioso' e 'consoante'. Maldito Saramago.)

A Grande Prova

Sentado numa cadeira do salão de leituras da Biblioteca, ocupava-me com a morfologia do terreno brasileiro, planaltos, planícies, 36 % de terrenos cristalinos. Meu pensamento uma bacia (nem perto de sedimentada) de dúvidas, confusões de espírito. Se o que eu queria mesmo era passar no vestibular, por que diabos não concentrava nas eras geológicas minha lancinante esfera cerebral? Saber eu não sabia, e ainda o não sei, passado já tanto tempo e nada mais importando como agora é. É certo que por tarde ensolarada do início de dezembro, incitava-me ao empreendimento fascinante de apresentar ao mundo a Nova Filosofia Existencial que há já tanto tempo me dedicava. Sequioso de buscar por entre as baças janelas da Biblioteca aquele sentido oculto e maior da vida (que mesmo cavando até perto do magma a Planície Amazônica jamais encontraria nas ciências geográficas) olhava a cena de fora imerso no silêncio de dentro.

Eu estava perdido naquele tempo. Há quanto tempo, meudeus! E se, deusmeu, já naquele tempo soubesse o quão vã é a geografia e o Direito — que pretendia cursar —, até mesmo a filosofia? Pobre cabeça de jovem a minha, de jovem inseguro e um pouco atrasado mesmo na juventude. Cria que o mais importante era passar no bendito maldito vestibular. Só mesmo hoje, passado tanto tempo, tanto tempo, — chegada já a noite — é que posso olhar para frente, recolher meu material da mesa (apontamentos morfo-climáticos do Brasil), esquecer o esboço da filosofia e ir-me embora pra casa da minha mamãe sabendo que nada importa. Afinal de contas tenho de estudar Roma e Grécia e o período Vargas, já vamos lá há dez dias da Grande Prova Final

Ao Final da Prova Vestibular
ou A lição do Caminho


Quando passou da sala para o pátio exterior, logo no primeiro degrau à porta de saída, deparou-se com o relógio branco e vermelho onde se destacavam o logotipo e a sigla da instituição coordenadora da prova, apontando dez minutos para as dezoito horas. Supôs, de fato, que fosse para se contar estas horas mesmo, pela dificuldade do exame e também o incômodo que a desconfortável cadeira lhe causara. Juntando tudo isto parecia-lhe ter passado quase quatro horas sentado na sala quente, como deveras houve.

Assim que baixou a cabeça da visão do relógio vermelho e branco, oscilou-a para os lados a verificar o movimento no pátio. Contou bastantes pessoas, algumas usando o colete amarelo que designava o fiscal de prova, e as outras, o grupo maior, sem caracterização específica no vestuário, afora o tamanho dos trajes consoante o enorme calor que fazia. Os grupelhos distinguiam-se também porque os fiscais encontravam-se sentados ou em pés, mas parados, enquanto os candidatos estavam em trânsito, saindo do pátio à porção descoberta do prédio e depois ao portão principal que dava para a rua, e era tanto quanto sua vista podia alcançar.

Porque fazia intenso calor, levou naturalmente a mão direita a enxugar o suor da testa, mas notou que o que lhe tocara a fronte era o punho. Percebeu então que havia esquecido a mão direita na classe, provavelmente em cima da carteira em que fizera a prova. Pensou que talvez, dado o grande esforço e às várias horas escrevendo, a mão direita se tivesse desprendido do punho e caído na mesa quando entregou as folhas com as respostas. Como havia apanhado as canetas e o lápis com a mão esquerda, não se dera conta da perda. Estava há uns três metros da porta da classe quando parou pensando se deveria voltar para pegar a mão direita. Mas acudiu-lhe o fato de que não teria mais provas a fazer e que a única utilidade da mão direita era escrever nos exames vestibulares. Tendo assim pensado, continuou a andar para a saída imaginando que não valia a pena o esforço de voltar para resgatar a perdida mão.

Continuou andando a reparar, agora menos, nas pessoas que estavam à sua volta. Os semblantes, de qualquer modo, eram mais ou menos os mesmos que o seu, cansados, ansiosos por saber como se teriam saído nas provas. Assim que passou do pátio à parte descoberta que dava para o portão da rua assomou-lhe o sol, quente ainda nesses nossos horários de verão. De imediato quis lembrar-se de uma questão da lição de matemática que ficara em dúvida e tratava dum cálculo angular usando o sol como ilustração. Esforçou-se mas não conseguiu recordar-se. Aliás, nem conseguiu se lembrar se fizera prova de matemática. Tentou pensar no porquê do olvido e também foi baldado seu esforço, perdera o pensamento e a memória no caderno de respostas, provavelmente numa questão de física que não conseguiu resolver. Como estivesse a poucos metros do portão de saída e sabendo que não precisaria mais do pensamento e da memória, uma vez que não tinha mais exames e aqueles só lhe serviam para o estudo e reflexão das questões, achou por bem não cansar as pernas voltando à sala já distante.

Chegou ao portão, viu a rua e os candidatos que já haviam acabado o exame. Muitos deles estavam sentados nas sarjetas esperando sabe-se lá o quê, com a folha de questões na mão. Alguns usavam-na como leque, outros como guarda-sol, outros ainda como luneta a mirarem pelo buraquinho quiçá o futuro. Quando observou toda a cena exterior e percebeu-se livre dos fiscais, do prédio, e acima de tudo da prova, quis experimentar uma sensação de alívio e felicidade, mas não pôde, nada sentiu. Notou, então, que havia perdido os sentimentos na famigerada sala já tanto citada, provavelmente no primeiro dia, no instante em que, autorizado para começar as resoluções, desejou mais do que tudo responder corretamente às perguntas e entrar na sonhada faculdade. Não quis voltar a reavê-los, se fosse aprovado no vestibular, certamente não precisaria dos sentimentos na universidade.

TERRA_COMMENTS (6)

31.07.07

TERRA_PERMA_LINK 10:38:32, TERRA_CATEGORIES: Contos. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Manual do Proprietário

MANUAL DO PROPRIETÁRIO



“ A sua lembrança me dói tanto,
que eu canto pra ver se espanto esse mal.
Retrato sem cor, jogado aos meus pés,
Saudades fúteis, saudades frágeis,
Meros papeis(...)
(...)Sobrou desse nosso desencontro
um conto de amor, sem ponto final(...)”


Chico Buarque in  “Desencontro”.

Quando foi a última vez que olhei o manual do meu carro? Antes de hoje, não fazia a menor idéia. De chofre o interessado me perguntou quantos litros cabiam no tanque de combustível e me lembrei que uma vez eu tinha anotado, na parte de “anotações”, ao final do manual do proprietário. Estávamos em frente à minha casa, e embora já passasse das seis e meia, um sol fortíssimo torrava nossas cabeças. Praguejei contra o horário de verão e o homem concordou. Sentei de lado no banco do carona, peguei o conjunto plástico que abriga o dito cujo e outros documentos, papéis de seguros, revisões etc. Fui para as últimas páginas, abri, e dei com isto: “Capacidade do tanque: 47 litros”.

Faz mais de dois anos que nos separamos e a vida segue seu ritmo normal. Já tive outras mulheres, você, ao que me consta, outros homens, parece até que está apaixonada por um neste exato momento em que tenho de deixar o comprador à espera de um outro dia, para gastar, frente ao ecrã, isto que venho chamando de literatura e afinal não é. Capacidade do tanque: 47 litros. Lá está, grafado a caneta preta, numa letra redonda, cheia, alta, firme. A sua letra. A mesma letra das anotações avulsas no livro de alemão, a mesma letra das dedicatórias dos livros presenteados (foram tantos, tão importantes), a mesma letra de alguns cartões, recados furtivos, uma coleção de resquícios gravados em papel normalmente ordinário, com tinta de esferográfica, com grafite de lapiseira. Essa reflexão agora me queda. O que são esses resquícios, afinal? Diferentes de fotos, de presentes, da memória que ainda guarda intactos momentos e sensações, cheiros, toques, pêlos, a pele? Fizemos da palavra um meio diferenciado do nosso contato amoroso. Por certo outros terão feito o mesmo, mas não me importa: pela mesma palavra preciso e acredito que fossemos diferentes. E fizemos da palavra escrita a especificidade ainda mais marcante do nosso relacionamento, porque escrever nos uniu e afastou, porque de alguma forma o toque da palavra sempre foi macio, não, não digo macio, foi contundente, severo e profundo, (agora sim) fosse macio ou áspero fosse. As coisas que outros escreveram, importantes outros, outros clássicos, nos aproximaram muito, foram sempre o casamento de juntar na figura que você me era os expressivos olhos verdes, o cabelo louro, ora liso, ora com caracóis, a pele que se desfazia em olores que nem sabia se não tinham sido feitos só para mim, os seios que um médico disse serem lindos e realmente eram, e eram meus. A palavra escrita, traste (a palavra traste dava um capítulo à parte, inteiro, imenso e delicioso. Se isso não fosse um fingimento descarado, ia produzir mais literatura, usar toda a inspiração que você dava, ou me devolvia). Recomeço: a palavra escrita, traste, foi o princípio de tudo, e depois continuou sendo o liame que me fazia amar o seu jeito doce de estar em silêncio, e a forma linda e ideal de suas pernas e da sua bunda. E parece que foi assim sempre, até ao final, pois nunca deixamos de nos escrever. Todo o doloroso esboroamento do que éramos foi permeado pela nossa palavra escrita. Estou fora da imparcialidade de dizer, hoje, se isto não foi senão culpa minha, e a distância que se instalou (e isso foi culpa minha mesmo) açulava cada vez mais na mordida do escrever. Talvez tenha faltado juntar alguns cacos olhos nos olhos, mas, aqui não há culpa, ou a dividamos, se isso precisa, e precisa, afinal, ser escrito.

E precisa ser escrito. Este é o forte motivo de porquê não escrevo uma carta (que evidentemente seria um emeio, emeios que formam a figura congruente de toda a nossa peculiar escrita), porque não escrevo, mesmo e mesmo, uma carta. Então é um conto (dava para uma novela, mas não é a vez desse exercício de estilo, a vez é da minha primeira pessoa). Então é um conto. É um exercício de estilo, e ninguém saberá (eu não o sei) até aonde está a verdade. A palavra, agora, nos poderá divertir, já que talvez você nem exista, e essas invenções todas sejam a minha tentativa de ser um escritor, o escritor que você sempre acreditou que eu pudesse ser, e portanto, que eu devo, em benefício próprio, fazer tão bem feito que a faça existir de verdade. Então escrevo um conto, um conto que conta a história do que nos dizíamos, como nos escrevíamos, e que começa por identificar como marco inicial (dele, conto) o momento em que, dois anos e tanto depois, revi (ou inventei) sua letra redonda bordada num lugar que jamais poderia supor, fazendo a palavra escrita que não tínhamos mais assomar-me no meu dia-a-dia, esbofetear a golpes de caneta uma normalidade francamente alcançada.

Mas, por quê? Por que tudo voltou numa torrente de saudade, de ternura e ausência, tão fortes, tão decisivamente dispostas a mostrar que, enfim, eu não superei a perda? Alguns meses antes de vê-la escrita no manual do carro que eu pretendia trocar (trocar de carro, e em conseqüência, de manual) eu a vi (ou imaginei) em pessoa. Muito rápido, de costas, sentada na mesa de um bar improvável, bebendo com uma amiga, fumando um cigarro improvável com o seu namorado (creio que era seu namorado). Felicitei-me, na altura, pela racionalidade demonstrada do senhor que está a fazer-se velho que sou controlando, não só a atitude, como a pressão arterial, respirando profundamente (dessa vez sem arfar, a desculpa é que não havia uma escada, já a metáfora da despedida descera ou subira os degraus), num lamento que embora dorido, desanuviava a cabeça e a alma (se por acaso eu tenho alma). Então por quê? Por que a sua caligrafia me fez voltar a todos os outros escritos que tenho guardados comigo, ou junto nos livros, fazendo da saudade uma constatação mais do que física, uma constatação documental, quase civil?

É fim de dia, quase. É quase também o fim do conto. Afinal de contas precisei vir escrever este conto para gastar a literatura que não sei fazer — embora não desista dela — como retribuição da sua confiança (e será que era em mim?) em minha não-literatura. Sinto saudade de muitas coisas, como por exemplo, citar seu nome ou escrevê-lo (quase o fiz, você deve se lembrar de um outro conto que nunca consegui terminar e que levava seu nome no título, ou talvez não se lembre de mais nada). Sinto saudade de escrever seu nome mais do que de dize-lo, pois tudo quanto escrevia era uma maneira de escrever seu nome, muitas vezes sem precisar cita-lo explicitamente. E como isto aqui é um conto e está chegando ao final, e como este conto que agora chega ao final é um exercício de estilo, eu posso lhe dizer que embora não vá citar seu nome, poderia citar o meu, pois aprendi com o Amílcar Bettega Barbosa que a gente pode citar a gente mesmo quando a gente mesmo escreve um conto sobre a gente mesmo (e disso também sinto saudade, de lhe dizer quem é esse tal de Amílcar). Afinal, não me parece que eu tenha escrito um conto realmente. Mas, se isto não é um conto, nem uma carta, menos ainda um emeio, o que poderá ser? Benevolente comigo mesmo, sequioso da sua atenção, metido numa saudade que só sua letra redonda podia me trazer, desisto de procurar uma palavra para definir o que isto é, e que vai terminar como qualquer coisa que seja, e que surgiu por conta de uma frase, frase informativa, consoante com o que faço agora: informo que não sei se escrevi um conto e que desisti de achar palavra, mas sei quantos litros de ausência cabem no carro que não sei mais se quero vender: capacidade do tanque: 47 litros.

TERRA_COMMENTS (14)

26.07.07

TERRA_PERMA_LINK 12:33:45, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

México

Joguei como nunca, perdi como sempre.

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