Então aí abaixo segue um texto que escrevi a quando da morte do Joaquim Sassa, tema dos últimos postes publicados. Hoje me parece que o título não funciona muito bem, e uma e outra coisinha eu mudaria no corpo do texto. Não mexi em nada. Assim, com dor foi escrito, assim ficou:
Adeus a quem não torna
O Oiti não morreu. Sabe-se lá como e a que custos pessoais, mas está subindo, sem aparo, sem amparo. Resiste, se assim se pode dizer. Não há como saber sempre se a vida é uma escolha ou quando a escolha é a renúncia à vida, no caso em que talvez, domingo de céu imaculadamente azul, no primeiro toque benfazejo da luz o oiti se vire e diga, “Hoje vou continuar, hoje vale a pena pelo dia de amanhã que chuvoso será”. Não creio realmente que se pense, no dia chuvoso, “Vou continuar pelo dia de sol que ontem veio”, daí que talvez só se resista, de fato.
A manhã de 13 de abril foi linda, o azul sem mácula de acima dito, valeria a pena viver. Contudo ele se foi, “Não quer mais ficar com a gente, né”, foi o que Rosa disse, com ele deitado de comprido em seu colo, envolto num calção velho que furtara ao dono certa vez. Morreu com o sol das dez horas lhe acarinhando o rostinho miúdo e, se o corpo lânguido esgueirado na bermuda e no cobertor lhe eram normais, a face mostrando um alheamento a tudo e todos não dizia o que houvera sido. Então a Tatiana contou, “Ele morreu”. E ele morrido havia deveras. Olhos não quiserem crer e acharam-se embaçados do borriço de uma semana, esperando a confirmação para tornar em torrente imediata, trocada por fim numa bátega incontrolada de quando em quando, sobretudo no azul desse domingo.
Meteram-no, então, numa caixinha que lhe serviu de urna e foi postinho ao lado das roseiras, ao lado, em verdade dorida, das raízes das roseiras. Era tão pequeno naquele momento que coube em recipiente que em vida jamais lhe cobriria um terço da porção do corpo. Mas não se fazia caso, num caso em que todos à volta tornaram-se mínimos, de maneira a deixar até mesmo as roseiras olharem para baixo a acompanhar a passagem. Não resta dúvida de que o tamanho a que todos foram reduzidos tornou o oiti de alguns meses árvore frondosa e imponente.
Tem sobejado a ausência, porque, enfim, ela sempre há de sobejar. Hoje não é mais domingo, mas a bátega vem cair quando se olha a redinha de dormir, o bebedouro d´água, a nesga da porta onde era pra estar o rostinho dele e não está. Ausência é encontrar não a casa em falta de algo, ainda que uma alma lhe falte, mas acha-la desarrumada, em desacordo com a vontade e o sentimento de quem nela restou. O chão é menos chão, os quartos, menos quartos. O coração é lasso. Joaquim Sassa não está mais.
09.06.07
Adeus a Joaquim
Então aí abaixo segue um texto que escrevi a quando da morte do Joaquim Sassa, tema dos últimos postes publicados. Hoje me parece que o título não funciona muito bem, e uma e outra coisinha eu mudaria no corpo do texto. Não mexi em nada. Assim, com dor foi escrito, assim ficou:
Adeus a quem não torna
O Oiti não morreu. Sabe-se lá como e a que custos pessoais, mas está subindo, sem aparo, sem amparo. Resiste, se assim se pode dizer. Não há como saber sempre se a vida é uma escolha ou quando a escolha é a renúncia à vida, no caso em que talvez, domingo de céu imaculadamente azul, no primeiro toque benfazejo da luz o oiti se vire e diga, “Hoje vou continuar, hoje vale a pena pelo dia de amanhã que chuvoso será”. Não creio realmente que se pense, no dia chuvoso, “Vou continuar pelo dia de sol que ontem veio”, daí que talvez só se resista, de fato.
A manhã de 13 de abril foi linda, o azul sem mácula de acima dito, valeria a pena viver. Contudo ele se foi, “Não quer mais ficar com a gente, né”, foi o que Rosa disse, com ele deitado de comprido em seu colo, envolto num calção velho que furtara ao dono certa vez. Morreu com o sol das dez horas lhe acarinhando o rostinho miúdo e, se o corpo lânguido esgueirado na bermuda e no cobertor lhe eram normais, a face mostrando um alheamento a tudo e todos não dizia o que houvera sido. Então a Tatiana contou, “Ele morreu”. E ele morrido havia deveras. Olhos não quiserem crer e acharam-se embaçados do borriço de uma semana, esperando a confirmação para tornar em torrente imediata, trocada por fim numa bátega incontrolada de quando em quando, sobretudo no azul desse domingo.
Meteram-no, então, numa caixinha que lhe serviu de urna e foi postinho ao lado das roseiras, ao lado, em verdade dorida, das raízes das roseiras. Era tão pequeno naquele momento que coube em recipiente que em vida jamais lhe cobriria um terço da porção do corpo. Mas não se fazia caso, num caso em que todos à volta tornaram-se mínimos, de maneira a deixar até mesmo as roseiras olharem para baixo a acompanhar a passagem. Não resta dúvida de que o tamanho a que todos foram reduzidos tornou o oiti de alguns meses árvore frondosa e imponente.
Tem sobejado a ausência, porque, enfim, ela sempre há de sobejar. Hoje não é mais domingo, mas a bátega vem cair quando se olha a redinha de dormir, o bebedouro d´água, a nesga da porta onde era pra estar o rostinho dele e não está. Ausência é encontrar não a casa em falta de algo, ainda que uma alma lhe falte, mas acha-la desarrumada, em desacordo com a vontade e o sentimento de quem nela restou. O chão é menos chão, os quartos, menos quartos. O coração é lasso. Joaquim Sassa não está mais.
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