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09.05.07

TERRA_PERMA_LINK 15:16:39, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Dois meninos

parte I de II


    Terminei de ler Bom dia camaradas, do escritor angolano Ondjaki. Imediatamente me surge à mente o livro de outro africano, Uzodinma Iweala, nigeriano, autor de Feras de lugar nenhum, este lido no final de 2006. Ambos são jovens escritores, na casa dos vinte anos e poucos, e esses dois livros suas estréias no romance. A pouca diferença entre eles é que Ondjaki escreve em português e estudou em Luanda, ao passo que Uzodinma Iweala graduou-se por Harvard e usa a língua inglesa para contar sua história.

Meninos

    Os livros são narrados em primeira pessoa e ambos os protagonistas-narradores são meninos. Em Bom dia camaradas, esse menino, embora não nomeado, aparenta ser o próprio Ondjaki, pelas relações e manutenções dos nomes dos amigos de escola (claro, estamos falando de ficção). O garoto luandense vive numa família de classe média alta, estuda num bom colégio, tem facilidades domésticas muito acima do que se supõe fossem o normal da maioria da população angolana nos idos de 1980, data imaginável do romance. O narrador de Bom dia camaradas é um garoto, portanto, que tem uma percepção bastante aguda de seu ambiente: tem aulas com professores cubanos, uma tia que, morando em Portugal, traz-lhe notícias (e doces) dos antigos colonizadores, vai à praia de carro e pode estar nas ruas quando o “camarada Presidente” atravessa em parada militar. Aliás, é desse caráter sensível do narrador que decorre uma qualidade e uma dificuldade do livro. Ondjaki aposta no coloquial (apesar de manter o padrão formal da língua, tenta desviar-se com certo zelo dele) da fala infantilmente poética de seu menino para criar imagens vívidas, do ambiente familiar, escolar e mesmo urbano de sua vida. Também não re-descobre a pólvora: usando adjetivos e ações humanas em objetos inanimados ou plantas e bichos, aproxima o ambiente cotidiano da sensação lúdica da criança. Disso decorrem alguns problemas. Fica a impressão de que o autor, usando uma boa metáfora, acaba por gostar tanto dela que a repete muitas vezes, se não quando a disfarça em outras palavras, mas guardando o mesmo sentido. Num certo momento, diz o menino que os “abacateiros se espreguiçam”. Da metade da página 79 à metade da página 80, vamos ver a repetição cinco vezes da expressão espreguiçar, além de uma quantas outras dizendo o mesmo, como estremecer. Esquece-se, o Ondjaki da máxima que diz que a repetição faz perder o efeito dramático. Ao contrário do que diz Luiz Ruffato na apresentação do livro, esses “exageros” acabam fazendo com que a haja um tom artificial, por vezes forçado na voz do narrador, que afinal é um menino de não mais que doze anos.

    Agu é o narrador de Feras de lugar nenhum.  Não tem esse menino mais que dez anos não obstante esteja inserido num ambiente violentíssimo. Agu está no meio de uma guerra civil, arrancado à sua família para se tornar um soldado: vive, portanto, entre vilarejos destruídos e a floresta opressora e escura, sob as ordens de um cruel “Comandante”.  Seus companheiros são soldados esfarrapados e famintos, e o único menino de sua idade é Strika, com quem vive uma amizade superficial. A linguagem que Uzodinma faz dar voz a Agu é tensa, infantil, solapada, às vezes reproduzida dos adultos. Essa infantilidade conturbada é condutora da tensão que varia entre o monólogo pessoal do menino com as pouquíssimas palavras que dirige a outras pessoas, exceto por Strika, que, aliás, em bela imagem do autor nigeriano, tem problemas de fala (ele não fala). Agu está no meio de lugar nenhum: a guerra pode ser na Nigéria, mas o cenário dá cabo de muitos países africanos, e ainda mais muitas civilizações que permitem crianças com um fuzil na mão. Agu luta consigo mesmo para entender o seu ambiente, procurando equilibrar as idealizações da vida militar com a realidade violenta e crua que se apresenta à sua frente. Os parágrafos são curtos, contundentes, secos. O menino Agu conta a sua história aos solavancos dos buracos e dos obstáculos do caminho da guerrilha. Vale a pena aqui ressaltar, como observou Wilson Bueno que a tradução, de Christina Baum é excelente “marcada por um português acossado, quase aturdido, fiel ao inglês nigeriano do autor”.

(Na foto, capa de Bom dia camaradas, Ondjaki. Agir.  Mais ou menos 35 reais)

continua

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