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09.05.07

TERRA_PERMA_LINK 15:20:28, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Dois meninos

parte II de II

A guerra

    Que os dois livros sejam permeados pela guerra, não chega a surpreender. Em Bom dia camaradas a guerra é um pano de fundo, presente na vida cotidiana dos jovens, e até por isso internalizada. O narrador aqui não vivencia diretamente os efeitos do batalha, sua condição social permite que ele sinta o bafejar do estado belicoso do país, sem, contudo, que isso se torne um fardo maior que as pequenas dissensões familiares e ou escolares, a exemplo. A guerra aparece mais como substrato do que fora anteriormente, como se preparasse a nova Angola para uma vida de paz, entre “camaradas”. Chama atenção, inclusive, que eventos comuns a juventudes em qualquer latitude e longitude, quais sejam as “lendas urbanas” aqui surjam como motivadoras de medos e confusões muito maiores do que alguma preparação para um conflito que afinal, durante o romance, não se deflagra. Com feridas mais ou menos normais ali e adiante, a narrativa caminha num mar habitualmente calmo.

    Já em Feras de lugar nenhum a guerra é explícita, e é ela mesma, personagem principal.  Agu vive a guerra e só tem a ela e seus frutos para misturar com sua infância que vai sendo perdida. O menino não compreende a guerra, não compreende seus motivos e sua barbárie.  Mas, vai aprendendo que, fazendo parte do jogo, precisa jogar para se manter vivo.  Agu quer se manter vivo, e nessa tentativa, procura encontrar justificativas para a violência que presencia e agora promove: ele mata porque é obrigado a matar, senão o inimigo o mataria a ele. Embora não distinga no inimigo alguém muito diferente de si, o narrador se felicita pelo cumprimento da tarefa que enfim foi investida para ele, e matar se torna “natural” em seu caminho. Agu anda o tempo todo atormentado pela guerra, e quer vencê-la pelo motivo mais simples e profundo que é continuar vivo. O menino, em meio ao seu desespero e às vezes sua resignação, diz que também tem uma mãe, irmãs e que pretende um dia reencontra-las, para viver num tempo já sem a guerra.

Ritmo

    Ondjaki se propõe, e consegue, a escrever uma linear história de vida privada, e meninices num determinado tempo e espaço. Não resulta, portanto, da leitura do romance nenhum sobressalto ou tensão maior do que seria uma prova oral com o diretor geral da escola ou uma topada de dedão com um muro de pedras (incipiente demais para ser levada em conta é um momento de morte de um “membro” da família a quem o menino é bastante ligado). O menino-narrador quer nos contar do seu dia-a-dia de abacateiro, “gasosas”, amigos e brincadeiras, das rotinas familiares e da saudade que principia quando chega o final do ano letivo. Sentimos tudo isso junto com ele, embora as vezes também com ele bocejemos um pouco.

    Como acima dito, a guerra de Feras de lugar nenhum pode se passar em muitos territórios como talvez a própria Nigéria. Dessa indefinição palpável de espaço, decorre uma indefinição temporal, que embora não comprometa a também linear narrativa do romance, confere a ele um ritmo acelerado, quase frenético. Agu luta, mata, quase morre, pensa na morte, na vida, nas feridas que coleciona pelo caminho, no corpo dolorido do último combate, na escola precária que frequentava antes da guerra, e os tiros continuam a zunir em sua orelha enquanto se lembra da irmã que lhe contava histórias, e decepa um inimigo a golpes de facão. A atmosfera de Uzodnima Iwaeala tem de ser nebulosa, virulenta, pois ele quer falar de violência e estupidez, mas escolhe o seu menino para o fazer.

Dois meninos

    Ondjaki tem menos de trinta anos e Uzodnima Iweala, menos de vinte e seis. Estrearam abordando temas complicados por constantemente reiterados. Não se saíram mal na empresa, e me parece que ainda têm muita lenha para queimar (ou petróleo, ou gás natural). São dois meninos. Arrisco que o nigeriano poderá vir a se tornar homem antes do angolano, porquanto seu livro comece e termine bastante melhor que o do "companheiro de armas".

(Na foto capa de Feras de lugar nenhum, Uzodnima Iweala. Nova Fronteira, mais ou menos 30 reais)

 

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