Enciclopédia Municipal do Esquecimento parte final
Ele fez o mesmo movimento para tirar o excesso de água da face, franziu a testa e esticou os lábios. Apesar de estar a meio metro de mim, por conta agora da iluminação prejudicada por uma árvore e a água que era muita, não pude perceber se ele havia sorrido ironicamente ou se apenas tinha contorcido a expressão numa atitude normal de quem tem a cara molhada, então insisti com pesar: — Esquece tudo isso, vamos para casa! Mas ele respondeu-me com gravidade: — Quero esquecer tudo, a dor de ser homem, este anseio infinito e vão de possuir o que me possuí, adeus...
A frase era bonita, de efeito, algum tempo depois descobri de que poeta era, mas o que me chamou mais atenção não foi seu sentido, sua poesia, mas sim o término, um adeus convicto que precedeu uma atitude adolescente mas imperativa, que foi apressar o passo, quase a correr e seguir pela esquina em direção à marginal. Não soube o que fazer então. Segui-lo de carro, pela marginal seria impossível, não poderia continuar andando na velocidade em que estava. Correr atrás dele a pé era um despautério para o qual não estava inclinado. Deixa-lo ir, simplesmente, eu também não podia, depois de tudo quanto havíamos passado. Ora, diante de três possibilidades e não dispondo de tempo para pensar em outras, fiz o que menos queria fazer.
Dei ré com o automóvel e o estacionei há alguns metros da esquina, praguejando, desci do carro e corri em direção a ele. A chuva estava muito fria, os pingos eram grossos, a impressão que eu tinha de que ela estava amainando se desfez assim que senti seu primeiro contato. Passei pelo quarteirão que ligava a alameda à marginal, o trânsito era pesado, e não conseguia encontra-lo. Novamente uma dualidade de sentimentos em mim, “se não o encontro, tanto melhor, vou embora pra casa tomar um banho quente, mas, se não o encontro, o que poderá acontecer”, pensei isto e segui adiante, caminhando do lado direito, olhando para todos os lados à procura dele. Finalmente o vi, estava encostado numa placa de trânsito, a cabeça sob o antebraço, corri até ele, era difícil falar no meio da tempestade: — Por favor, isto já foi longe demais, vamos embora! — Sabe como eu me sinto? Como se eu fosse feito de plástico e os meus movimentos estivessem endurecendo... — Está muito frio, você está estressado. — É como se eu estivesse me desfazendo, esboroando, se como o que ainda resta de mim, estivesse se partindo... — Você está deprimido, teve um dia difícil, vamos para casa!
Eu disse isso e o puxei pelo braço, queria demonstrar compreensão, mas ao mesmo tempo pretendia ser enérgico, fazê-lo perceber que a situação havia chegado ao limite, mas ele não me ouvia, estava aplacado, e não me olhou em nenhum momento, antes, parecia que era um palra que ninguém atinava, ainda assim eu insisti: — Vamos embora? Ele me respondeu com angústia: — Eu me sinto falso, não posso mais, não sei mais quem sou... — Amanhã, meu amigo, amanhã as coisas vão melhorar, vamos embora.
Não adiantava, ele se desvencilhou de mim e caminhou a passos acelerados, embora estivesse muito oprimido, falava sem atropelo, com amargura e tristeza. Eu corri e o segurei pelos braços novamente, decidira agora o levar à força, e disse: — Vamos embora, já chega. — Já chega... não é verdade que ela fique mais linda triste, sorrindo, ela é incrível..
Não pude responder, porque ele se soltou com violência de mim e correu para a marginal, atravessando-a de uma vez. Do outro lado, ladeando o parapeito foi caminhando e olhando para o rio. Eu gritava para que voltasse, e não conseguia como ele, com a mesma destreza, atravessar a marginal muito movimentada. Ele voltou-se para mim, acenou com o braço e saltou a proteção de metal. Gritei alguma coisa que não me lembro e corri para o meio da avenida sem atinar no que fazia, atravessando-a como ele o fizera um pouco antes. Cheguei do outro lado e já não podia mais vê-lo, o rio estava revolto, muito escuro como sempre, imundo das sujidades da urbe. Saquei o celular do bolso, completamente molhado, para pedir socorro, gritei para o alto uma raiva e continuei a acompanhar o caminho do rio, uma enxurrada parda e inexorável. Sentei-me no chão, esfreguei o rosto com as mãos, olhei para o relógio, faltavam alguns minutos para a meia-noite quando a chuva passou a cair ainda mais forte.
20.04.07
Enciclopédia Municipal do Esquecimento parte final
Ele fez o mesmo movimento para tirar o excesso de água da face, franziu a testa e esticou os lábios. Apesar de estar a meio metro de mim, por conta agora da iluminação prejudicada por uma árvore e a água que era muita, não pude perceber se ele havia sorrido ironicamente ou se apenas tinha contorcido a expressão numa atitude normal de quem tem a cara molhada, então insisti com pesar:
— Esquece tudo isso, vamos para casa! Mas ele respondeu-me com gravidade:
— Quero esquecer tudo, a dor de ser homem, este anseio infinito e vão de possuir o que me possuí, adeus...
A frase era bonita, de efeito, algum tempo depois descobri de que poeta era, mas o que me chamou mais atenção não foi seu sentido, sua poesia, mas sim o término, um adeus convicto que precedeu uma atitude adolescente mas imperativa, que foi apressar o passo, quase a correr e seguir pela esquina em direção à marginal. Não soube o que fazer então. Segui-lo de carro, pela marginal seria impossível, não poderia continuar andando na velocidade em que estava. Correr atrás dele a pé era um despautério para o qual não estava inclinado. Deixa-lo ir, simplesmente, eu também não podia, depois de tudo quanto havíamos passado. Ora, diante de três possibilidades e não dispondo de tempo para pensar em outras, fiz o que menos queria fazer.
Dei ré com o automóvel e o estacionei há alguns metros da esquina, praguejando, desci do carro e corri em direção a ele. A chuva estava muito fria, os pingos eram grossos, a impressão que eu tinha de que ela estava amainando se desfez assim que senti seu primeiro contato. Passei pelo quarteirão que ligava a alameda à marginal, o trânsito era pesado, e não conseguia encontra-lo. Novamente uma dualidade de sentimentos em mim, “se não o encontro, tanto melhor, vou embora pra casa tomar um banho quente, mas, se não o encontro, o que poderá acontecer”, pensei isto e segui adiante, caminhando do lado direito, olhando para todos os lados à procura dele. Finalmente o vi, estava encostado numa placa de trânsito, a cabeça sob o antebraço, corri até ele, era difícil falar no meio da tempestade:
— Por favor, isto já foi longe demais, vamos embora!
— Sabe como eu me sinto? Como se eu fosse feito de plástico e os meus movimentos estivessem endurecendo...
— Está muito frio, você está estressado.
— É como se eu estivesse me desfazendo, esboroando, se como o que ainda resta de mim, estivesse se partindo...
— Você está deprimido, teve um dia difícil, vamos para casa!
Eu disse isso e o puxei pelo braço, queria demonstrar compreensão, mas ao mesmo tempo pretendia ser enérgico, fazê-lo perceber que a situação havia chegado ao limite, mas ele não me ouvia, estava aplacado, e não me olhou em nenhum momento, antes, parecia que era um palra que ninguém atinava, ainda assim eu insisti:
— Vamos embora? Ele me respondeu com angústia:
— Eu me sinto falso, não posso mais, não sei mais quem sou...
— Amanhã, meu amigo, amanhã as coisas vão melhorar, vamos embora.
Não adiantava, ele se desvencilhou de mim e caminhou a passos acelerados, embora estivesse muito oprimido, falava sem atropelo, com amargura e tristeza. Eu corri e o segurei pelos braços novamente, decidira agora o levar à força, e disse:
— Vamos embora, já chega.
— Já chega... não é verdade que ela fique mais linda triste, sorrindo, ela é incrível..
Não pude responder, porque ele se soltou com violência de mim e correu para a marginal, atravessando-a de uma vez. Do outro lado, ladeando o parapeito foi caminhando e olhando para o rio. Eu gritava para que voltasse, e não conseguia como ele, com a mesma destreza, atravessar a marginal muito movimentada. Ele voltou-se para mim, acenou com o braço e saltou a proteção de metal. Gritei alguma coisa que não me lembro e corri para o meio da avenida sem atinar no que fazia, atravessando-a como ele o fizera um pouco antes. Cheguei do outro lado e já não podia mais vê-lo, o rio estava revolto, muito escuro como sempre, imundo das sujidades da urbe. Saquei o celular do bolso, completamente molhado, para pedir socorro, gritei para o alto uma raiva e continuei a acompanhar o caminho do rio, uma enxurrada parda e inexorável. Sentei-me no chão, esfreguei o rosto com as mãos, olhei para o relógio, faltavam alguns minutos para a meia-noite quando a chuva passou a cair ainda mais forte.
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