“ A sua lembrança me dói tanto, que eu canto pra ver se espanto esse mal. Retrato sem cor, jogado aos meus pés, Saudades fúteis, saudades frágeis, Meros papeis(...) (...)Sobrou desse nosso desencontro um conto de amor, sem ponto final(...)”
Chico Buarquein “Desencontro”.
Quando foi a última vez que olhei o manual do meu carro? Antes de hoje, não fazia a menor idéia. De chofre o interessado me perguntou quantos litros cabiam no tanque de combustível e me lembrei que uma vez eu tinha anotado, na parte de “anotações”, ao final do manual do proprietário. Estávamos em frente à minha casa, e embora já passasse das seis e meia, um sol fortíssimo torrava nossas cabeças. Praguejei contra o horário de verão e o homem concordou. Sentei de lado no banco do carona, peguei o conjunto plástico que abriga o dito cujo e outros documentos, papéis de seguros, revisões etc. Fui para as últimas páginas, abri, e dei com isto: “Capacidade do tanque: 47 litros”.
Faz mais de dois anos que nos separamos e a vida segue seu ritmo normal. Já tive outras mulheres, você, ao que me consta, outros homens, parece até que está apaixonada por um neste exato momento em que tenho de deixar o comprador à espera de um outro dia, para gastar, frente ao ecrã, isto que venho chamando de literatura e afinal não é. Capacidade do tanque: 47 litros. Lá está, grafado a caneta preta, numa letra redonda, cheia, alta, firme. A sua letra. A mesma letra das anotações avulsas no livro de alemão, a mesma letra das dedicatórias dos livros presenteados (foram tantos, tão importantes), a mesma letra de alguns cartões, recados furtivos, uma coleção de resquícios gravados em papel normalmente ordinário, com tinta de esferográfica, com grafite de lapiseira. Essa reflexão agora me queda. O que são esses resquícios, afinal? Diferentes de fotos, de presentes, da memória que ainda guarda intactos momentos e sensações, cheiros, toques, pêlos, a pele? Fizemos da palavra um meio diferenciado do nosso contato amoroso. Por certo outros terão feito o mesmo, mas não me importa: pela mesma palavra preciso e acredito que fossemos diferentes. E fizemos da palavra escrita a especificidade ainda mais marcante do nosso relacionamento, porque escrever nos uniu e afastou, porque de alguma forma o toque da palavra sempre foi macio, não, não digo macio, foi contundente, severo e profundo, (agora sim) fosse macio ou áspero fosse. As coisas que outros escreveram, importantes outros, outros clássicos, nos aproximaram muito, foram sempre o casamento de juntar na figura que você me era os expressivos olhos verdes, o cabelo louro, ora liso, ora com caracóis, a pele que se desfazia em olores que nem sabia se não tinham sido feitos só para mim, os seios que um médico disse serem lindos e realmente eram, e eram meus. A palavra escrita, traste (a palavra traste dava um capítulo à parte, inteiro, imenso e delicioso. Se isso não fosse um fingimento descarado, ia produzir mais literatura, usar toda a inspiração que você dava, ou me devolvia). Recomeço: a palavra escrita, traste, foi o princípio de tudo, e depois continuou sendo o liame que me fazia amar o seu jeito doce de estar em silêncio, e a forma linda e ideal de suas pernas e da sua bunda. E parece que foi assim sempre, até ao final, pois nunca deixamos de nos escrever. Todo o doloroso esboroamento do que éramos foi permeado pela nossa palavra escrita. Estou fora da imparcialidade de dizer, hoje, se isto não foi senão culpa minha, e a distância que se instalou (e isso foi culpa minha mesmo) açulava cada vez mais na mordida do escrever. Talvez tenha faltado juntar alguns cacos olhos nos olhos, mas, aqui não há culpa, ou a dividamos, se isso precisa, e precisa, afinal, ser escrito.
E precisa ser escrito. Este é o forte motivo de porquê não escrevo uma carta (que evidentemente seria um emeio, emeios que formam a figura congruente de toda a nossa peculiar escrita), porque não escrevo, mesmo e mesmo, uma carta. Então é um conto (dava para uma novela, mas não é a vez desse exercício de estilo, a vez é da minha primeira pessoa). Então é um conto. É um exercício de estilo, e ninguém saberá (eu não o sei) até aonde está a verdade. A palavra, agora, nos poderá divertir, já que talvez você nem exista, e essas invenções todas sejam a minha tentativa de ser um escritor, o escritor que você sempre acreditou que eu pudesse ser, e portanto, que eu devo, em benefício próprio, fazer tão bem feito que a faça existir de verdade. Então escrevo um conto, um conto que conta a história do que nos dizíamos, como nos escrevíamos, e que começa por identificar como marco inicial (dele, conto) o momento em que, dois anos e tanto depois, revi (ou inventei) sua letra redonda bordada num lugar que jamais poderia supor, fazendo a palavra escrita que não tínhamos mais assomar-me no meu dia-a-dia, esbofetear a golpes de caneta uma normalidade francamente alcançada.
Mas, por quê? Por que tudo voltou numa torrente de saudade, de ternura e ausência, tão fortes, tão decisivamente dispostas a mostrar que, enfim, eu não superei a perda? Alguns meses antes de vê-la escrita no manual do carro que eu pretendia trocar (trocar de carro, e em conseqüência, de manual) eu a vi (ou imaginei) em pessoa. Muito rápido, de costas, sentada na mesa de um bar improvável, bebendo com uma amiga, fumando um cigarro improvável com o seu namorado (creio que era seu namorado). Felicitei-me, na altura, pela racionalidade demonstrada do senhor que está a fazer-se velho que sou controlando, não só a atitude, como a pressão arterial, respirando profundamente (dessa vez sem arfar, a desculpa é que não havia uma escada, já a metáfora da despedida descera ou subira os degraus), num lamento que embora dorido, desanuviava a cabeça e a alma (se por acaso eu tenho alma). Então por quê? Por que a sua caligrafia me fez voltar a todos os outros escritos que tenho guardados comigo, ou junto nos livros, fazendo da saudade uma constatação mais do que física, uma constatação documental, quase civil?
É fim de dia, quase. É quase também o fim do conto. Afinal de contas precisei vir escrever este conto para gastar a literatura que não sei fazer — embora não desista dela — como retribuição da sua confiança (e será que era em mim?) em minha não-literatura. Sinto saudade de muitas coisas, como por exemplo, citar seu nome ou escrevê-lo (quase o fiz, você deve se lembrar de um outro conto que nunca consegui terminar e que levava seu nome no título, ou talvez não se lembre de mais nada). Sinto saudade de escrever seu nome mais do que de dize-lo, pois tudo quanto escrevia era uma maneira de escrever seu nome, muitas vezes sem precisar cita-lo explicitamente. E como isto aqui é um conto e está chegando ao final, e como este conto que agora chega ao final é um exercício de estilo, eu posso lhe dizer que embora não vá citar seu nome, poderia citar o meu, pois aprendi com o Amílcar Bettega Barbosa que a gente pode citar a gente mesmo quando a gente mesmo escreve um conto sobre a gente mesmo (e disso também sinto saudade, de lhe dizer quem é esse tal de Amílcar). Afinal, não me parece que eu tenha escrito um conto realmente. Mas, se isto não é um conto, nem uma carta, menos ainda um emeio, o que poderá ser? Benevolente comigo mesmo, sequioso da sua atenção, metido numa saudade que só sua letra redonda podia me trazer, desisto de procurar uma palavra para definir o que isto é, e que vai terminar como qualquer coisa que seja, e que surgiu por conta de uma frase, frase informativa, consoante com o que faço agora: informo que não sei se escrevi um conto e que desisti de achar palavra, mas sei quantos litros de ausência cabem no carro que não sei mais se quero vender: capacidade do tanque: 47 litros.
TERRA_COMMENTS
Carol Costa, ah preciso me convencer sim! E preciso sobretudo convencer quem me lê. Parece que dei um grande passo, então.
Obrigado por vir ao blogue, por ler e comentar.
Juliano Machado \\ 03.08.07 16:52:14
Marlene, a sensação é de saudade mesmo. A personagem sente saudade e vai destilando isso pelos caminhos que escolhe e/ou inventa. E quanto a ser meio diferente, foi essa a idéia, exercício!
beijo
Juliano Machado \\ 03.08.07 16:50:51
Mateus, obrigado por ter vindo e que bom que tem gostado. Prazer mesmo é poder ser lido por você.
abração.
Juliano Machado \\ 03.08.07 16:49:22
Lívia, a idéia foi essa mesma! De uma certa desordenação que extrapolasse a história para vir se confundir com a estrutura. Fico muito feliz que considere literatura. E, deixemos disso, se algum textinho meu te faz lembrar de Cony, uia! Ganhei meu dia. E se ainda diz que quer reler? Ganhei minha semana.
beijo
Juliano Machado \\ 03.08.07 16:48:16
Ana, leia o Amílcar Bettega Barbosa, isso sim é literatura. Mas, olha, plágio acho que é uma palavra muito pesada. Quanto ao Caio Fernando Abreu, você não é a primeira pessoa que diz enxergar alguma proximidade nos textos. O curioso é que a primeira vez que me disseram isso (minha amiga Fernanda Franco) eu só o conhecia de nome. Não sei se me empolgo, não acho o Caio lá ótimo. Obrigado por sempre e sempre vir ao blogue.
Juliano Machado \\ 03.08.07 16:45:03
Veridiana, eu tento! Claro que tento! Mas, o que devo tentar?
beijo
Juliano Machado \\ 03.08.07 16:42:36
Tatiana, obrigado pelo fantástico. Eu gosto desse conto também (embora esteja pensando e percebendo o quanto ele é predisposto a desenvolver a Síndrome de Zuckerman. Foi uma brincadeira escrevê-lo como exercício mesmo, e chupinhando um pouco do Bettega, claro. Que bom que tenha gostado.
Juliano Machado \\ 03.08.07 16:41:44
"Gastar a literatura que eu não sei fazer..."
Vá catar coquinho, Juliano. Se eu precisar convencê-lo que isso aqui é literatura, e da boa, estamos perdidos.
Como sempre, vale a pena esperar. Belíssimo texto! Tem um quê de diferente... mas preciso ler outra vez e mais outra. Como diz a Tatiana:pensar, degustar, sentir suas palavras. Por ora, sensação pura, e a predominante é saudade de não sei o que...
Ah... por falar em sensação, li a tortuosa, exagerada, brega, comovente história de Llosa que arranca lágrimas, incontroláveis, de quando em quando.
Um beijo
marlene \\ 01.08.07 22:10:01
GOSTEI MUITO.
PARABÉNS, VISITAR ESTE BLOGUE ESTÁ CADA VEZ MAIS PRAZEROSO.
SAÚDE!
MATEUS \\ 01.08.07 18:44:18
Ju,
Gostei, muito, do seu texto.
Lendo-o mais de uma vez e experimentando as sensações por ele em mim causadas, quando vi já estava com o livro do Cony, Quase memória: quase romance, aberto no colo e bem nessa passagem:
“Se ele viveu e morreu cheio de truques, de certa forma legou-me alguns deles. Foi sua herança a melhor porque, entre outras coisas, única. Um desses truques foi me autodefender de memórias devastadoras. No caso dele, não apenas se defendia mas transformava a memória em aliada, fazia dela não apenas a sua testemunha mas a sua cúmplice.
Como em qualquer herança, sempre se perdia alguma coisa pelo caminho. Eu perdi essa capacidade de alterar o sentido, o eixo da memória. Sei destinar para o compartimento respectivo aquilo que me incomoda, mas falta-me a química para decantar o resultado. O máximo que consigo é segregá-la.
Sem essas defesas, já me dou por pago a circunscrever a memória a seus limites. (...)
Vez ou outra – como agora – surge um fato inesperado, mas não exatamente novo, como esse embrulho em minha mesa, cheio dele, vindo dele, feito por ele. Antes de ser um objeto físico, limitado à sua superfície de papel e barbante, ele é um vasto embrulho de coisas que só ele saberia embrulhar (...)” (pág. 211)
Carlos Heitor Cony
Quase memória: quase romance
São Paulo: Folha de São Paulo, 2003.
Ainda que muito diferentes, vejo que no texto do Cony e em seu quase-conto, que, decididamente, não é quase-literatura (muito pelo contrário), a linguagem vem a mim como um vaivém meio desgovernado, mas bastante claro, pela lucidez com que as idéias parecem ser recortadas para assumir a ordem que se quer. Será que é isso? Não sei. Mas dá vontade de ler de novo, os dois. E mais outra vez, pra ex-perimentar.
Adorei.
Um beijão.
Lívia \\ 01.08.07 00:20:32
Nnão é que seja mau o texto, mas, me parece um pouco forçado, sabe, pra não dizer um plágio misturado do tal Bettega Barbiosa (que admito, não li) e o Caiu Fernando Abreu. Mas, pra escritor de blog até está servindo.
Ana \\ 31.07.07 22:19:53
Ju, tenta.
um beijo, com ternura.
Veridiana \\ 31.07.07 19:19:48
Juliano, esse conto é fantástico! Estou imprecionada. Gostei muito, muito, muito. Não sei direito o que dizer, mas não quero esperar alguns dias, pensar, degustar, sentir suas palavras, como costumo fazer antes de comentar. Precisava dizer, agora, imediatamente, o quanto gostei!
31.07.07
Manual do Proprietário
MANUAL DO PROPRIETÁRIO
“ A sua lembrança me dói tanto,
que eu canto pra ver se espanto esse mal.
Retrato sem cor, jogado aos meus pés,
Saudades fúteis, saudades frágeis,
Meros papeis(...)
(...)Sobrou desse nosso desencontro
um conto de amor, sem ponto final(...)”
Chico Buarque in “Desencontro”.
Quando foi a última vez que olhei o manual do meu carro? Antes de hoje, não fazia a menor idéia. De chofre o interessado me perguntou quantos litros cabiam no tanque de combustível e me lembrei que uma vez eu tinha anotado, na parte de “anotações”, ao final do manual do proprietário. Estávamos em frente à minha casa, e embora já passasse das seis e meia, um sol fortíssimo torrava nossas cabeças. Praguejei contra o horário de verão e o homem concordou. Sentei de lado no banco do carona, peguei o conjunto plástico que abriga o dito cujo e outros documentos, papéis de seguros, revisões etc. Fui para as últimas páginas, abri, e dei com isto: “Capacidade do tanque: 47 litros”.
Faz mais de dois anos que nos separamos e a vida segue seu ritmo normal. Já tive outras mulheres, você, ao que me consta, outros homens, parece até que está apaixonada por um neste exato momento em que tenho de deixar o comprador à espera de um outro dia, para gastar, frente ao ecrã, isto que venho chamando de literatura e afinal não é. Capacidade do tanque: 47 litros. Lá está, grafado a caneta preta, numa letra redonda, cheia, alta, firme. A sua letra. A mesma letra das anotações avulsas no livro de alemão, a mesma letra das dedicatórias dos livros presenteados (foram tantos, tão importantes), a mesma letra de alguns cartões, recados furtivos, uma coleção de resquícios gravados em papel normalmente ordinário, com tinta de esferográfica, com grafite de lapiseira. Essa reflexão agora me queda. O que são esses resquícios, afinal? Diferentes de fotos, de presentes, da memória que ainda guarda intactos momentos e sensações, cheiros, toques, pêlos, a pele? Fizemos da palavra um meio diferenciado do nosso contato amoroso. Por certo outros terão feito o mesmo, mas não me importa: pela mesma palavra preciso e acredito que fossemos diferentes. E fizemos da palavra escrita a especificidade ainda mais marcante do nosso relacionamento, porque escrever nos uniu e afastou, porque de alguma forma o toque da palavra sempre foi macio, não, não digo macio, foi contundente, severo e profundo, (agora sim) fosse macio ou áspero fosse. As coisas que outros escreveram, importantes outros, outros clássicos, nos aproximaram muito, foram sempre o casamento de juntar na figura que você me era os expressivos olhos verdes, o cabelo louro, ora liso, ora com caracóis, a pele que se desfazia em olores que nem sabia se não tinham sido feitos só para mim, os seios que um médico disse serem lindos e realmente eram, e eram meus. A palavra escrita, traste (a palavra traste dava um capítulo à parte, inteiro, imenso e delicioso. Se isso não fosse um fingimento descarado, ia produzir mais literatura, usar toda a inspiração que você dava, ou me devolvia). Recomeço: a palavra escrita, traste, foi o princípio de tudo, e depois continuou sendo o liame que me fazia amar o seu jeito doce de estar em silêncio, e a forma linda e ideal de suas pernas e da sua bunda. E parece que foi assim sempre, até ao final, pois nunca deixamos de nos escrever. Todo o doloroso esboroamento do que éramos foi permeado pela nossa palavra escrita. Estou fora da imparcialidade de dizer, hoje, se isto não foi senão culpa minha, e a distância que se instalou (e isso foi culpa minha mesmo) açulava cada vez mais na mordida do escrever. Talvez tenha faltado juntar alguns cacos olhos nos olhos, mas, aqui não há culpa, ou a dividamos, se isso precisa, e precisa, afinal, ser escrito.
E precisa ser escrito. Este é o forte motivo de porquê não escrevo uma carta (que evidentemente seria um emeio, emeios que formam a figura congruente de toda a nossa peculiar escrita), porque não escrevo, mesmo e mesmo, uma carta. Então é um conto (dava para uma novela, mas não é a vez desse exercício de estilo, a vez é da minha primeira pessoa). Então é um conto. É um exercício de estilo, e ninguém saberá (eu não o sei) até aonde está a verdade. A palavra, agora, nos poderá divertir, já que talvez você nem exista, e essas invenções todas sejam a minha tentativa de ser um escritor, o escritor que você sempre acreditou que eu pudesse ser, e portanto, que eu devo, em benefício próprio, fazer tão bem feito que a faça existir de verdade. Então escrevo um conto, um conto que conta a história do que nos dizíamos, como nos escrevíamos, e que começa por identificar como marco inicial (dele, conto) o momento em que, dois anos e tanto depois, revi (ou inventei) sua letra redonda bordada num lugar que jamais poderia supor, fazendo a palavra escrita que não tínhamos mais assomar-me no meu dia-a-dia, esbofetear a golpes de caneta uma normalidade francamente alcançada.
Mas, por quê? Por que tudo voltou numa torrente de saudade, de ternura e ausência, tão fortes, tão decisivamente dispostas a mostrar que, enfim, eu não superei a perda? Alguns meses antes de vê-la escrita no manual do carro que eu pretendia trocar (trocar de carro, e em conseqüência, de manual) eu a vi (ou imaginei) em pessoa. Muito rápido, de costas, sentada na mesa de um bar improvável, bebendo com uma amiga, fumando um cigarro improvável com o seu namorado (creio que era seu namorado). Felicitei-me, na altura, pela racionalidade demonstrada do senhor que está a fazer-se velho que sou controlando, não só a atitude, como a pressão arterial, respirando profundamente (dessa vez sem arfar, a desculpa é que não havia uma escada, já a metáfora da despedida descera ou subira os degraus), num lamento que embora dorido, desanuviava a cabeça e a alma (se por acaso eu tenho alma). Então por quê? Por que a sua caligrafia me fez voltar a todos os outros escritos que tenho guardados comigo, ou junto nos livros, fazendo da saudade uma constatação mais do que física, uma constatação documental, quase civil?
É fim de dia, quase. É quase também o fim do conto. Afinal de contas precisei vir escrever este conto para gastar a literatura que não sei fazer — embora não desista dela — como retribuição da sua confiança (e será que era em mim?) em minha não-literatura. Sinto saudade de muitas coisas, como por exemplo, citar seu nome ou escrevê-lo (quase o fiz, você deve se lembrar de um outro conto que nunca consegui terminar e que levava seu nome no título, ou talvez não se lembre de mais nada). Sinto saudade de escrever seu nome mais do que de dize-lo, pois tudo quanto escrevia era uma maneira de escrever seu nome, muitas vezes sem precisar cita-lo explicitamente. E como isto aqui é um conto e está chegando ao final, e como este conto que agora chega ao final é um exercício de estilo, eu posso lhe dizer que embora não vá citar seu nome, poderia citar o meu, pois aprendi com o Amílcar Bettega Barbosa que a gente pode citar a gente mesmo quando a gente mesmo escreve um conto sobre a gente mesmo (e disso também sinto saudade, de lhe dizer quem é esse tal de Amílcar). Afinal, não me parece que eu tenha escrito um conto realmente. Mas, se isto não é um conto, nem uma carta, menos ainda um emeio, o que poderá ser? Benevolente comigo mesmo, sequioso da sua atenção, metido numa saudade que só sua letra redonda podia me trazer, desisto de procurar uma palavra para definir o que isto é, e que vai terminar como qualquer coisa que seja, e que surgiu por conta de uma frase, frase informativa, consoante com o que faço agora: informo que não sei se escrevi um conto e que desisti de achar palavra, mas sei quantos litros de ausência cabem no carro que não sei mais se quero vender: capacidade do tanque: 47 litros.
TERRA_COMMENTS
Obrigado por vir ao blogue, por ler e comentar.
beijo
abração.
beijo
beijo
Vá catar coquinho, Juliano. Se eu precisar convencê-lo que isso aqui é literatura, e da boa, estamos perdidos.
Ah... por falar em sensação, li a tortuosa, exagerada, brega, comovente história de Llosa que arranca lágrimas, incontroláveis, de quando em quando.
Um beijo
PARABÉNS, VISITAR ESTE BLOGUE ESTÁ CADA VEZ MAIS PRAZEROSO.
SAÚDE!
Gostei, muito, do seu texto.
Lendo-o mais de uma vez e experimentando as sensações por ele em mim causadas, quando vi já estava com o livro do Cony, Quase memória: quase romance, aberto no colo e bem nessa passagem:
“Se ele viveu e morreu cheio de truques, de certa forma legou-me alguns deles. Foi sua herança a melhor porque, entre outras coisas, única. Um desses truques foi me autodefender de memórias devastadoras. No caso dele, não apenas se defendia mas transformava a memória em aliada, fazia dela não apenas a sua testemunha mas a sua cúmplice.
Como em qualquer herança, sempre se perdia alguma coisa pelo caminho. Eu perdi essa capacidade de alterar o sentido, o eixo da memória. Sei destinar para o compartimento respectivo aquilo que me incomoda, mas falta-me a química para decantar o resultado. O máximo que consigo é segregá-la.
Sem essas defesas, já me dou por pago a circunscrever a memória a seus limites. (...)
Vez ou outra – como agora – surge um fato inesperado, mas não exatamente novo, como esse embrulho em minha mesa, cheio dele, vindo dele, feito por ele. Antes de ser um objeto físico, limitado à sua superfície de papel e barbante, ele é um vasto embrulho de coisas que só ele saberia embrulhar (...)” (pág. 211)
Carlos Heitor Cony
Quase memória: quase romance
São Paulo: Folha de São Paulo, 2003.
Ainda que muito diferentes, vejo que no texto do Cony e em seu quase-conto, que, decididamente, não é quase-literatura (muito pelo contrário), a linguagem vem a mim como um vaivém meio desgovernado, mas bastante claro, pela lucidez com que as idéias parecem ser recortadas para assumir a ordem que se quer. Será que é isso? Não sei. Mas dá vontade de ler de novo, os dois. E mais outra vez, pra ex-perimentar.
Adorei.
Um beijão.
um beijo, com ternura.
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