Acordou uma hora depois com o olhar perdido, lembrava-se com alguma inconstância do sonho em que se misturavam a cara lisa e negra do jogador, parecendo ébano, e também a face do senador, de madeira por certo, ainda que de menor valor, e uns acarajés lançados como fossem bolas de basquete ao cesto. Levantou-se e foi ao banheiro lavar o rosto, ato que serviu duplamente, uma vez para acordar e serenar as idéias confusas, outra vez para perceber que ainda era quem era, Lisandro, e o não queria mais ser. Mas um terceiro efeito surgiu derradeiro, disposto a encerrar deveras as dúvidas e confusões acerca de quem ele deveria se transformar. Olhando com seus olhos mesmos sua face, e pensando com seu cérebro os seus pensamentos, verificou de si para consigo que não importava em quem viesse a transmudar-se, o que de fato contaria era não ser mais Lisandro, uma vez que se o intento lograsse êxito total, não deveria lembrar-se de que um dia fora quem hoje o é. Assomou-lhe então pelo corpo o sentimento de euforia, daqueles que nos impelem imediatamente a tomar atitudes, a formular proposta de ação, motivo pelo qual saiu depressa em direção ao quartinho onde guardava umas ferramentas e outras tralhas a procurar algo que pudesse auxilia-lo em sua empresa de transfiguração, “Um aparelho elétrico me servirá bem, sempre ouvi dizer que a eletricidade, assim como o calor, demovem as coisas de seus estados naturais, se pudesse me esquentar, ou quem sabe me eletrizar...”, juntou lá uma furadeira, uma chave-de-fenda elétrica, umas lixas de madeira, além de um dínamo que não sabia exatamente de onde viera nem para que serviria, e meio atrapalhado levou tudo à mesa grande da sala de jantar. Antes de começar a analisar as peças, ainda foi à cozinha buscar o liquidificador e um recipiente onde caberia cerca de um litro de água, pousando estes últimos objetos junto aos demais.
Nunca possuiu este Lisandro lá grandes capacidades inventivas ou construtivas, e se agora estava lepidamente montando e desmontando umas peças, mexendo com certa desenvoltura numas máquinas, não era senão por força do desejo que desde a amanhã o assaltara e fazia com que não quisesse mais ser Lisandro, “Para mudar de ser não deve ser complicado, se eu pudesse ligar esse liquidificador na furadeira elétrica...”. Usando fitas adesivas, garfos e palitos de comida chinesa, montou Lisandro uma engenhoca. A furadeira ficava presa ao utensílio que faz sucos e adjacências na parte lateral, próxima à abertura maior do copo do aparelho, de maneira que ambos ligados em consonância não produziam absolutamente nenhum efeito. Então não era por aí. Até porque não sabia também muito de medicinas e furar-se a si próprio nas têmporas talvez não fosse idéia das melhores, ir ficar logo no primeiro instante o novo ser com um buraco na cabeça. Sentou-se e decidiu que precisava pensar mais um pouco, “Que eu quero? Trocar de ser implica em trocar de aparência também? Creio que não, o que desejo não é deixar de ter a face que tenho, mas sim olhar com estes olhos para um filme e ver outra coisa, tocar um cabelo e perceber coisas que hoje não percebo, se mais ou menos em relação ao que hoje sinto, não importa, mas diferente”. Por essa linha de pensamento chegou à conclusão que nenhuma empreitada que lograsse atentar contra o seu corpo deveria surtir efeito. Furar-se, escalpelar-se, trocar perna por braço, ou inverter a posição dos olhos, metendo o da esquerda na órbita da direita, enfim, isso tudo não daria resultado.
Quem irá dizer que nunca desejou, nem que fosse por uns instantes, não ser mais quem é, tornar-se o milionário, o jogador famoso, o ator que sai com todas as belas moças, as belas moças, ou mesmo uma borboleta, os mais sensíveis, experimentar o mel, provar da doçura da flor, quem ao menos dirá que um dia numa situação complicada não desejou ser, se não outro, ao menos invisível, isso para não mencionar que nos tempos de menino a delícia era imaginar-se mosquinha a adejar pelo sono noturno e despido da prima que fora dormir em casa, ou da amiga da irmã mais velha que se refrescava em pêlo no quarto de hóspedes. Concedamos a Lisandro que não queira mais ser ele, oras, não quer, é um ponto, um direito, deixemos que tente a transmutação. Estava agora convicto de que o caminho deveria ser o da eletricidade ou o da térmica. Meteu-se então, no arroubo da vontade, a descascar os fios do liquidificador para tentar alguma espécie de choque elétrico e, ao mesmo tempo, pôs-se a encher a jarra de água levando-a ao forno de microondas para o aquecimento. Para relaxar, preparou mais uma dose do revigorante uísque e deixou-o ao lado do aparelho de telefone sem fio, que também estava em cima da mesa de cirurgia da sala de jantar, numa das extremidades. Quando o microondas apitou o fim dos dez minutos suficientes para que o recipiente com mais ou menos um litro de água borbulhasse, Lisandro enfiou na tomada o fio do liquidificador segurando-o pelas pontas, próximo, mas ainda não tocando a parte desencapada. A boa intenção, se é que podemos dar nome a isto de boa, era derramar a jarra d’água na cabeça no mesmo instante em que tocasse nas pontas dos fios, para que acontecesse sabe-se lá o que, além do choque e da queimadura no coro cabeludo e na face. Preparou-se, respirou fundo, “Vamos Lisandro, conte, três, dois, um” Trim-trim-trim, trim-trim-trim, “Diabos de telefone, que hora para tocar!...”. Como ainda era Lisandro, só para ele poderia ser a chamada, e num impulso natural que se tem quando é quem se é, correu para a extremidade da mesa onde estava o telefone. Na pressa, escorregou num punhado de água que havia escorrido da jarra e, atabalhoadamente, tentou segurar-se na borda da mesa. Felizmente para si, puxou a toalha que, com o brusco movimento, jogou para cima o telefone e também o copo de uísque que nem sequer havia sido provado. Os três caíram, como é de costume das coisas que vivem na gravidade, sendo Lisandro o primeiro a estatelar-se no chão, seguido imediatamente pelo gelo que lhe tocou a testa antes, para somente depois o líquido gelado e o copo chocarem-se também. O copo fez um rasgo na fronte, onde logo após veio a colidir o telefone que, sabe-se lá como, com a pancada, ligou. Ligeiramente manchado de sangue, o aparelho escorregou para ao pé do ouvido de Lisandro que, desmaiado, não pôde ouvir os insistentes apelos de uma mulher do outro lado da linha que havia discado o número por engano, “Alô, alô, tem alguém?”
Quando o homem acordou, cerca de dois milésimos de segundos depois do acidente, ou talvez coisa de uns cinco dias, percebeu que estava com uma leve dor de cabeça, nada de muito grave, além de uma certa desorientação ao olhar o espaço em sua volta. Calmamente, recobrando forças, levantou-se às apalpadelas pela sala desconhecida — que parecia ser de jantar. Apesar da dorida cabeça e da pouca percepção do ambiente em redor, estava calmo, sem medo, nem angústia, apenas com um sentimento comichão no peito e na mente, um sentimento crescente, que embora novo, era antigo. Externou então a si próprio quando percebeu poder e saber articular palavras, dizendo suavemente no cômodo silente: “Que diabos, homem, bem que podias ser outro, mais orientado e sem essa dorzinha de cabeça! Vamos, mexa-se, antes precisas saber quem és para que possas mudar o que és”.
24.04.07
Outro parte II de II
Acordou uma hora depois com o olhar perdido, lembrava-se com alguma inconstância do sonho em que se misturavam a cara lisa e negra do jogador, parecendo ébano, e também a face do senador, de madeira por certo, ainda que de menor valor, e uns acarajés lançados como fossem bolas de basquete ao cesto. Levantou-se e foi ao banheiro lavar o rosto, ato que serviu duplamente, uma vez para acordar e serenar as idéias confusas, outra vez para perceber que ainda era quem era, Lisandro, e o não queria mais ser. Mas um terceiro efeito surgiu derradeiro, disposto a encerrar deveras as dúvidas e confusões acerca de quem ele deveria se transformar. Olhando com seus olhos mesmos sua face, e pensando com seu cérebro os seus pensamentos, verificou de si para consigo que não importava em quem viesse a transmudar-se, o que de fato contaria era não ser mais Lisandro, uma vez que se o intento lograsse êxito total, não deveria lembrar-se de que um dia fora quem hoje o é. Assomou-lhe então pelo corpo o sentimento de euforia, daqueles que nos impelem imediatamente a tomar atitudes, a formular proposta de ação, motivo pelo qual saiu depressa em direção ao quartinho onde guardava umas ferramentas e outras tralhas a procurar algo que pudesse auxilia-lo em sua empresa de transfiguração, “Um aparelho elétrico me servirá bem, sempre ouvi dizer que a eletricidade, assim como o calor, demovem as coisas de seus estados naturais, se pudesse me esquentar, ou quem sabe me eletrizar...”, juntou lá uma furadeira, uma chave-de-fenda elétrica, umas lixas de madeira, além de um dínamo que não sabia exatamente de onde viera nem para que serviria, e meio atrapalhado levou tudo à mesa grande da sala de jantar. Antes de começar a analisar as peças, ainda foi à cozinha buscar o liquidificador e um recipiente onde caberia cerca de um litro de água, pousando estes últimos objetos junto aos demais.
Nunca possuiu este Lisandro lá grandes capacidades inventivas ou construtivas, e se agora estava lepidamente montando e desmontando umas peças, mexendo com certa desenvoltura numas máquinas, não era senão por força do desejo que desde a amanhã o assaltara e fazia com que não quisesse mais ser Lisandro, “Para mudar de ser não deve ser complicado, se eu pudesse ligar esse liquidificador na furadeira elétrica...”. Usando fitas adesivas, garfos e palitos de comida chinesa, montou Lisandro uma engenhoca. A furadeira ficava presa ao utensílio que faz sucos e adjacências na parte lateral, próxima à abertura maior do copo do aparelho, de maneira que ambos ligados em consonância não produziam absolutamente nenhum efeito. Então não era por aí. Até porque não sabia também muito de medicinas e furar-se a si próprio nas têmporas talvez não fosse idéia das melhores, ir ficar logo no primeiro instante o novo ser com um buraco na cabeça. Sentou-se e decidiu que precisava pensar mais um pouco, “Que eu quero? Trocar de ser implica em trocar de aparência também? Creio que não, o que desejo não é deixar de ter a face que tenho, mas sim olhar com estes olhos para um filme e ver outra coisa, tocar um cabelo e perceber coisas que hoje não percebo, se mais ou menos em relação ao que hoje sinto, não importa, mas diferente”. Por essa linha de pensamento chegou à conclusão que nenhuma empreitada que lograsse atentar contra o seu corpo deveria surtir efeito. Furar-se, escalpelar-se, trocar perna por braço, ou inverter a posição dos olhos, metendo o da esquerda na órbita da direita, enfim, isso tudo não daria resultado.
Quem irá dizer que nunca desejou, nem que fosse por uns instantes, não ser mais quem é, tornar-se o milionário, o jogador famoso, o ator que sai com todas as belas moças, as belas moças, ou mesmo uma borboleta, os mais sensíveis, experimentar o mel, provar da doçura da flor, quem ao menos dirá que um dia numa situação complicada não desejou ser, se não outro, ao menos invisível, isso para não mencionar que nos tempos de menino a delícia era imaginar-se mosquinha a adejar pelo sono noturno e despido da prima que fora dormir em casa, ou da amiga da irmã mais velha que se refrescava em pêlo no quarto de hóspedes. Concedamos a Lisandro que não queira mais ser ele, oras, não quer, é um ponto, um direito, deixemos que tente a transmutação. Estava agora convicto de que o caminho deveria ser o da eletricidade ou o da térmica. Meteu-se então, no arroubo da vontade, a descascar os fios do liquidificador para tentar alguma espécie de choque elétrico e, ao mesmo tempo, pôs-se a encher a jarra de água levando-a ao forno de microondas para o aquecimento. Para relaxar, preparou mais uma dose do revigorante uísque e deixou-o ao lado do aparelho de telefone sem fio, que também estava em cima da mesa de cirurgia da sala de jantar, numa das extremidades. Quando o microondas apitou o fim dos dez minutos suficientes para que o recipiente com mais ou menos um litro de água borbulhasse, Lisandro enfiou na tomada o fio do liquidificador segurando-o pelas pontas, próximo, mas ainda não tocando a parte desencapada. A boa intenção, se é que podemos dar nome a isto de boa, era derramar a jarra d’água na cabeça no mesmo instante em que tocasse nas pontas dos fios, para que acontecesse sabe-se lá o que, além do choque e da queimadura no coro cabeludo e na face. Preparou-se, respirou fundo, “Vamos Lisandro, conte, três, dois, um” Trim-trim-trim, trim-trim-trim, “Diabos de telefone, que hora para tocar!...”. Como ainda era Lisandro, só para ele poderia ser a chamada, e num impulso natural que se tem quando é quem se é, correu para a extremidade da mesa onde estava o telefone. Na pressa, escorregou num punhado de água que havia escorrido da jarra e, atabalhoadamente, tentou segurar-se na borda da mesa. Felizmente para si, puxou a toalha que, com o brusco movimento, jogou para cima o telefone e também o copo de uísque que nem sequer havia sido provado. Os três caíram, como é de costume das coisas que vivem na gravidade, sendo Lisandro o primeiro a estatelar-se no chão, seguido imediatamente pelo gelo que lhe tocou a testa antes, para somente depois o líquido gelado e o copo chocarem-se também. O copo fez um rasgo na fronte, onde logo após veio a colidir o telefone que, sabe-se lá como, com a pancada, ligou. Ligeiramente manchado de sangue, o aparelho escorregou para ao pé do ouvido de Lisandro que, desmaiado, não pôde ouvir os insistentes apelos de uma mulher do outro lado da linha que havia discado o número por engano, “Alô, alô, tem alguém?”
Quando o homem acordou, cerca de dois milésimos de segundos depois do acidente, ou talvez coisa de uns cinco dias, percebeu que estava com uma leve dor de cabeça, nada de muito grave, além de uma certa desorientação ao olhar o espaço em sua volta. Calmamente, recobrando forças, levantou-se às apalpadelas pela sala desconhecida — que parecia ser de jantar. Apesar da dorida cabeça e da pouca percepção do ambiente em redor, estava calmo, sem medo, nem angústia, apenas com um sentimento comichão no peito e na mente, um sentimento crescente, que embora novo, era antigo. Externou então a si próprio quando percebeu poder e saber articular palavras, dizendo suavemente no cômodo silente: “Que diabos, homem, bem que podias ser outro, mais orientado e sem essa dorzinha de cabeça! Vamos, mexa-se, antes precisas saber quem és para que possas mudar o que és”.
TERRA_LEAVE_A_COMMENT