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Literatura, Política, Bares, Arte, Futebol e outras besteiras e presunções.
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10.08.07

TERRA_PERMA_LINK 14:47:57, TERRA_CATEGORIES: Coluna. TERRA_POSTED_BY Juliano Machado

Pequeno ensaio sobre o suicídio

                   “A condição humana é boa porque ninguém é infeliz senão por sua própria culpa. A vida te apraz? Viva. Não te apraz? Tu podes voltar para de onde vieste.”

Sêneca, Carta LXX

“Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina

"Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida, 
Se ousasse matar-me, também me mataria...(...)"

Álvaro de Campos


Não há nada mais normal do que escutar o ‘Adágio’ do Albinone ou ‘La Mamma Morta’ do Umberto Giordano (ainda que o gostinho de se saber que é ária do Andrea Chenier cutuque aquela velha magoazinha de que o Manuel Bandeira e o Dostoievski não servem para nada). Como a tristeza é somente de quem ela é, não dá para estranhar que a música escolhida seja o adagio cantabile da Sonata número 8 em dó menor do Beethoven. Asseverou-me ele ser essa a composição que o fazia saber sofrer, satisfeito de si dar o desespero, então, raios, por que não deveríamos nós acreditar? Eu acreditei nele quando me disse. Aquela tecla que faz a faixa do cd repetir anel de moebius seguindo em frente a topologia serpente que come o próprio rabo e germina de si mesma cento e cinqüenta mil vezes sonata número 8 em dó menor do beethoven duzentas e três mil vezes la mamma morta que o giordano inventou.

Eu pude imagina-lo no quarto escuro, travesseiros debaixo do peito, sustendo o coração que sangrando lasso só mesmo na garganta poderiam estar uns anéis, nó górdio porventura. Ele me disse que não era mais homem e eu fui obrigado a acredita-lo, porque ele me disse que não era mais gente e eu tive de consola-lo nas couraças, ajuda-lo a virar-se de bruços para poder descair debaixo do canapé. Apesar de o verem, assim me disse, compreendiam o infausto sem na verdade o enxergarem. Se quisesse ter saído do quarto, voltado à firma ou simplesmente pegado o trem, o teria feito sem festinar, pois já ninguém botava os olhos nele. Eu acreditei nisso também, pois percebi que não lhe teria sido difícil pular o costado, apesar das muitas e finas perninhas.

Foi quando ele me falou do Álvaro de Campos e que ele não tinha par nisto tudo neste mundo (assim proclamou: “eu não sou homem e o Álvaro nunca existiu”). Ele me falou que não tinha par nisto tudo neste mundo, evidente que eu acreditei. Sempre soube e talvez nós todos soubéssemos que havia a dor na alma do poeta que se cantava exilado. Estrangeiro aqui como em toda parte, casual na vida como na alma, fantasma a errar em salas de recordações aos ruídos dos ratos e das tábuas que rangem no castelo maldito de ter que viver. 

Eu só pude entender que ele lia e ouvia isso tudo porque estava um tanto quanto cansado, e que embora lhe tivessem dito alguma coisa sobre neurônios e serotoninas, dificuldades de uma coisa de recaptação, ele sabia, e eu soube por ele, que esses nomes são tão iguais quanto as dores reais ou imaginárias que poderia sentir, porque tudo, poesia ou neurotransmissor faziam parte daquela verdade irrefutável de que nada faz muito sentido se olhado de bem perto. E se olhado de mais perto ainda, o resto é silêncio. Não se cansou de me repetir, personagem de si mesmo, que se não sabemos nada daquilo que aqui deixamos, que importa deixá-lo antes? Seja o que for. Nunca me chamou de Yorick, nunca fui seu Horácio mas talvez me visse e visse a si em caveira, em crânio escalpelado.

Senecamente me contou, trazendo enfim a fluidez à pauta, que não se podia perder muito de um líquido que cai gota a gota, e quando me disse finalmente que não valia a pena descer com o rio, que o rio cortava, entendi que queria mesmo saltar fora da ponte e da vida. Porque ele estava prestes a compreender, para que pudesse enfim me ensinar, que essas palavras e músicas são o remédio diário de quem não se pode curar, ou não se quer curar, demasiado nós sabemos que dá tudo no mesmo. E porque eu sei que não tem ninguém de olho nele, nem eu estou, que agora vim aqui escrever e não pude ficar mesmo de olho nele, é por isso que eu alcancei que não adianta avisar pois a vida vem de levada e somente se pode encontrar quem teve coragem de se perder, mas que o risco disso é não tornar a achar o caminho. E ao se cansar das pátrias estrangeiras se queira mesmo e mesmo saltar fora da ponte, entrando na noite como um rastro de barco se perde na água que deixa de se ouvir.

TERRA_COMMENTS

Tatiana, como sempre você acerta a mão no comentário. Não consigo imaginar melhor leitura do que a você propôs. Pegou a maioria das intenções que tentei produzir. A intertextualidade é sim importantíssima e tem, sim, a função de aproximar as duas personagens e o leitor, causando empatia, e eu diria mais, compreensão pelas opções assinaladas pelas personagens. E quem sobretudo ajuda nessa melodia é a poesia e a música, e esse remédio diário que é a arte.
Mas já disse muito quando deveria dizer nada: seus comentários desnudaram a intenção do autor, inclusive no não dito. Obrigado.
beijo
Permalink juliano machado \\ 02.10.07 12:43:56
Marlene, a maior altura e sobretudo a melhor é a altura do leitor. É esse o comentário e o entendimento que me interessam. Isso sendo ficção encontra no leitor o seu fim. Qualquer comentário é bem vindo, inclusive o implícito ou o não comentado.
Obrigado por sempre visitar, vou tomar prumo.
beijo
Permalink juliano machado \\ 02.10.07 12:38:58
Fernanda Franco, que bom que é leitora assídua (ainda que o blogue não exija uma assiduidade assim premente). Espero continuar escrevendo mais e gostaria sempre dos seus comentários, inclusive quando não goste ou julgue tudo muito ruim, porque esses são válidos e produtivos também.

abraço
Permalink juliano machado \\ 02.10.07 12:37:17
Lu, vindo de Sófocles a ironia parece mais risonho do que propriamente trágica, creio eu, porque a tragédia deu arte e matéria. Os Hebreus passo ao largo, é ficção como está cá e a do grego ali.

Que bom que gostou, volte ao blogue, pretendo continuar escrevendo.

abraço
Permalink juliano machado \\ 02.10.07 12:35:13
Mateus, são bem vindas as palavras e os mais críticos e importantes são os leitores que gostam, e vem cá ler. Olha só, empresário sempre é bom, se quiser me ajudar, sempre será bem vindo, como ao blogue.
Permalink juliano machado \\ 02.10.07 12:32:52
Rodrigo, esse tipo de palavra só dá força, ainda que o escritor em questão mal se veja publicado em papel e tinta, que é o que realemente importa.
Permalink Juliano Machado \\ 02.10.07 12:31:20
Releio o comentário que acabei de fazer e já fico com a impressão de ter falado besteira.
Há ainda muita intertextualidade que eu não alcanço, que não conheço mesmo. (Se a ignorância na literatura já é grande, na música é um escandalo.)

Bem, voltei só pra dizer que é preciso ler muito mais, além da Metarmorfose. E também pra explicar-me. Acho que o texto tem algo de acolhedor, apesar de duro, dolirido, porque há uma relação de proximidade e empatia.

E acho ainda que ele é muito, muito bonito mesmo, porque mostra, na forma, no estilo, a maneira mesma com que o personagem se relaciona com a literatura e a música. A arte como o remédio diário. Essa idéia está impressa na forma intertextual. E isso, além de muito bonito, provoca empatia em quem lê.
Permalink Tatiana \\ 04.09.07 19:54:03
Ju. Esse texto é duro. Mas, ao mesmo tempo, acolhedor. Lendo os comentários fico com a impressão de que, cada um ao seu modo, todos foram tocados por suas palavras. Mas falar sobre elas, aqui, é muito difícil. Primeiro porque o tema é complicado. Mas, no meu caso, principalmente, porque a intertextualidade é tão vasta e tão importante ao desenvolvimento do tema tal qual proposto por você, que sentimo-nos, ou melhor, eu me sinto ignorante, ou, como disse a Marlene, não estando a altura para comentar.

Eu gosto, particularmente, da empatia subjacente ao drama. Porque quem conta é um alguém que consegue acreditar e, em alguma medida, compreender o sofrimento do outro. É empático ao sofrimento dele (Gregor, você, eu, nós?). De qualquer modo, penso que precisaria reler A Metarfose antes de continuar a dar palpites.

No mais, mesmo tendo ficado um tempo sem comentar, continuo visitando seu blogue todos os dias e esperando ansiosamente por novos textos. Sinto falta deles. Cadê você, bolas?

Beijo.
Permalink Tatiana \\ 04.09.07 19:41:05
Oi, Ju. Diferente da Fernanda, este texto é um dos poucos aqui publicados que deixei de comentar. Gostei, produziu uma sensação de oohh!!!, depois reli e reli, mas não me sinto à altura para comentar (acho estranha esta frase, mas não o sentimento). E continuo te visitando por aqui, sempre na expectativa.
beijo
Permalink Marlene \\ 28.08.07 21:02:40
É o primeiro texto seu que eu comento aqui no blog, apesar de ser leitora assídua dos seus escritos.
Decisão esta por ter uma impressão bem específica dessa vez: parabéns, você já tem o seu estilo.
Querendo discorrer mais a fundo, tamos aí.
Abraço
Permalink Fernanda Franco \\ 24.08.07 17:00:28
“Nunca ter nascido é a sorte mais feliz, e, depois disso, a melhor coisa é morrer jovem” – Sófocles

ou

“Cuidem que ninguém se exclua da graça de Deus; que nenhuma raiz de amargura brote e cause perturbação, contaminando muitos” (Hebreus 12:15)

Eis a questão?

Muito bom o texto!
Abraço
Permalink Lu \\ 21.08.07 20:31:09
POR MAIS QUE NÃO GOSTE DO TEMA EM PROSA (NA POESIA A MORTE É MAIS BONITA), LEIO COM PRAZER.
CANA VOCÊ ESTÁ ESCREVENDO MUITO BEM, MESMO QUE ISSO SÓ SIGNIFIQUE QUE EU GOSTEI MAIS UMA VEZ.
NÃO SOU CRÍTICO, MAS COMO CONSUMIDOR, FAÇO MINHAS AS PALAVRAS DO TOUSO.
POXA, EU NÃO TENHO COMPUTADOR EM CASA, ENTÃO, PUBLICA LOGO.

P.S:SE PRECISAR DE EMPRESÁRIO POSSO TENTAR.
Permalink mateus \\ 21.08.07 19:21:13
Machado, eu aguardo a data de lançamento do seu livro. isso aqui não é coisa pra se jogar em bológui, ainda que eu adore. Vá te catar, e, por favor, providencie um livro, diabos, que é o destino disso aqui!!!
Abraço!
Muito bom isso!
Permalink rodrigo touso \\ 18.08.07 18:57:20

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